a partir de maio 2011

domingo, 11 de março de 2012

TEORIA DA PRESCIÊNCIA.REVISTA ESPIRITA

7a ANO NO. 5 MAIO 1864 TEORIA DA PRESCIÊNCIA. Como o conhecimento do futuro é possível? Compreendem-se as previsões dos acontecimentos que são a conseqüência do estado presente, mas não daqueles que não têm com ele nenhuma relação, e ainda menos aqueles que são atribuídos ao acaso. As coisas futuras, diz-se, não existem; elas estão ainda no nada; como, então, saber que ocorrerão? Os exemplos de predições realizadas, no entanto, são bastante numerosos, de onde é preciso concluir que se passa ali um fenômeno do qual não se tem a chave, porque não há efeito sem causa; é essa causa que vamos tentar procurar, e é ainda o Espiritismo, ele mesmo chave de tantos mistérios, que no-la fornecerá, e que, além disso, nos mostrará que o próprio fato das predições não sai das leis naturais. Tomemos, como comparação, um exemplo nas coisas usuais, e que ajudará a fazer compreender o princípio que teremos de desenvolver. Suponhamos um homem colocado sobre uma alta montanha e considerando a vasta extensão da planície. Nessa situação, o espaço de uma légua será pouca coisa, e poderá facilmente abarcar de um só golpe de vista, todos os acidentes do terreno, desde o começo até o fim do caminho. O viajor que segue esse caminho, pela primeira vez, sabe que nele caminhando chagará ao fim: está aí uma simples previsão da conseqüência de sua marcha; mas os acidentes do terreno, as subidas e as descidas, os rios a transpor, as matas a atravessar, os precipícios em que pode cair, os ladrões colocados para lhe roubar dinheiro, as hospedarias onde poderia repousar, tudo isso é independente de sua pessoa: é para ele o desconhecido, o futuro, porque sua visão não se estende além do pequeno círculo que o cerca. Quanto à duração, mede-a pelo tempo que põe para percorrer o caminho; tirai-lhe os pontos de referência e a duração se apagará. Para o homem que está sobre a montanha e. que segue com o olhar o viajante, tudo isso é o presente. Suponhamos que esse homem desça junto ao viajante e lhe diga: "Em tal momento encontrareis tal coisa, sereis atacado e socorrido," lhe predirá o futuro; o futuro é para o viajante; para o homem da montanha, esse futuro é o presente. Se sairmos agora do círculo das coisas puramente materiais, e se entrarmos pelo pensamento, no domínio da vida espiritual, veremos esse fenômeno se produzir numa maior escala. Os Espíritos desmaterializados são como o homem da montanha; o espaço e a duração se apagam para eles. Mas a extensão e a penetração de sua visão são proporcionais à depuração e à elevação na hierarquia espiritual; são, com relação aos Espíritos inferiores, como um homem armado de um possante telescópio, ao lado daquele que não tem senão seus olhos. Entre esses últimos, a visão é circunscrita, não só porque não podem, senão dificilmente, se afastar do globo ao qual estão ligados, mas porque a grosseria de seu perispírito vela as coisas afastadas, como o faz um nevoeiro para os olhos do corpo. Compreende-se, pois, que, segundo o grau de perfeição, um Espírito pode abarcar um período de alguns anos, de alguns séculos e mesmo de vários milhares de anos, por que, o que é um século em presença do infinito? Os acontecimento não se desenrolam sucessivamente diante dele, como os incidentes da rota do viajante; ele vê simultaneamente o começo e o fim do período; todos os acontecimentos que, nesse período, são o futuro para o homem da Terra, para eles são o presente. Poderia, pois, vir nos dizer com certeza: Tal coisa acontecerá em tal época, porque ele vê essa coisa como o homem da montanha vê o que espera o viajante no caminho. Se não o faz, é porque o conhecimento do futuro é nocivo ao homem; entravaria seu livre arbítrio; o paralisaria no trabalho que deve realizar para seu progresso; o bem e o mal que o espera, estando no desconhecido, são a prova para ele. Se uma tal faculdade, mesmo restrita, pode estar nos atributos da criatura, em que grau de poder deve se elevar no Criador que abarca o infinito? Para ele, o tempo não existe: o começo e o fim dos mundos são o presente. Nesse imenso panorama, o que é a duração da vida de um homem, de uma geração, de um povo? No entanto, como o homem deve concorrer ao progresso geral, e certos acontecimentos devem resultar de sua cooperação, pode ser útil, em certos casos, que seja pressentido desses acontecimentos, a fim de que lhe prepare os caminhos, e esteja pronto para agir quando o momento chegar; é porque Deus permite, às vezes, que um canto do véu seja levantado; mas é sempre num objetivo útil, e jamais para satisfazer uma vã curiosidade. Essa missão pode, pois, ser dada, não a todos os Espíritos, porque entre estes há os que não conhecem mais o futuro do que os homens, mas a alguns Espíritos suficientemente avançados para isso; ora, há que se notar que essas espécies de revelações são sempre feitas espontaneamente, e jamais, ou pelo menos mais raramente, em resposta a uma pergunta direta. Essa missão pode igualmente ser mostrada a certos homens, e eis de que maneira. Aquele a quem está confiado o encargo de revelar uma coisa oculta pode dela receber, com seu desconhecimento, a inspiração dos Espíritos que a conhecem, e, então, a transmite maquinalmente, sem disso se dar conta. Sabe-se, além disso, que, seja durante o sono, seja no estado de vigília, nos êxtases da dupla vista, a alma se liberta e possui, num grau mais ou menos grande, as faculdades do Espírito livre. Se for um Espírito avançado, se, sobretudo, como os profetas, recebeu uma missão especial para esse fim, ele goza, nesses momentos de emancipação da alma, da faculdade de abarcar, por si mesmo, um período mais ou menos extenso, e vê, como presentes, os acontecimentos desse período. Pode, então revelá-los no mesmo instante, ou conservar-lhes a memória em seu despertar. Se esses acontecimentos devem permanecer no segredo, deles perderá a lembrança ou não lhe restará senão uma vaga intuição, suficiente para guiá-lo instintivamente. É assim que se vê essa faculdade se desenvolver providencialmente em certas ocasiões, nos perigos iminentes, nas grandes calamidades, nas revoluções, e que a maioria das seitas perseguidas tiveram numerosos videntes; é ainda assim que se vêem grandes capitães marcharem resolutamente ao inimigo, com a certeza da vitória; homens de gênio, como Cristóvão Colombo, por exemplo, perseguir um objetivo predizendo, por assim dizer, o momento em que o alcançarão: é que viram esse objetivo, que não é desconhecido para seu Espírito. Todos os fenômenos cuja causa era ignorada foram reputados maravilhosos; uma vez conhecida a lei segundo a qual eles se cumpriam, reentraram na ordem das coisas naturais. O dom da predição não é mais sobrenatural do que uma multidão de outros fenômenos; ele repousa sobre as propriedades da alma e a lei das relações do mundo visível e do mundo invisível, que o Espiritismo vem fazer conhecer. Mas como admitir a existência de um mundo invisível, se não se admite a alma, ou se se a admite sem individualidade depois da morte? O incrédulo que nega a presciência é conseqüente consigo mesmo; resta saber se ele mesmo é conseqüente com a lei natural. Essa teoria da presciência talvez não resolva, de maneira absoluta, todos os casos que a previsão do futuro pode apresentar, mas não se pode deixar de convir que nela re pousa o princípio fundamental. Se não se pode tudo explicar, é pela dificuldade, para o homem, de se colocar nesse ponto de vista extra-terrestre; por sua própria inferioridade, seu pensamento, incessantemente conduzido para os caminhos estreitos da vida material, freqüentemente, está impossibilitado de se destacar do solo. A esse respeito, certos homens são como os pássaros jovens, cujas asas muito fracas não lhes permitem se elevarem no ar, ou como aqueles cuja visão é muito curta para verem ao longe, ou, enfim, como aqueles a quem faltam um sentido para certas percepções. No entanto, com alguns esforços e o hábito da reflexão, chega-se a isto: os Espíritos mais facilmente do que outros, porque, melhor do que outros, podem se identificar com a vida espiritual, que compreendem. Para compreender as coisas espirituais, quer dizer, para delas fazer uma idéia tão límpida quanto aquela que fazemos de uma paisagem que está sob nossos olhos, nos falta verdadeiramente um sentido, exatamente como ao cego falta o sentido necessário para compreender os efeitos da luz, das cores e da visão a distância. Também não será por um esforço de imaginação que a isso chegaremos, e com a ajuda de comparações hauridas nas coisas que nos são familiares. Mas as coisas matérias não podem dar senão idéias muito imperfeitas das coisas espirituais; é por isso que não é preciso tomar essas comparações pela letra, e crer, por exemplo, no caso de que se trata, que a extensão das faculdades perceptivas dos Espíritos prende-se à sua elevação efetiva, e que não têm necessidade de estar sobre uma montanha ou acima das nuvens para abarcar o tempo e o espaço. Essa faculdade é inerente ao estado de espiritualização, ou, querendo-se, de desmaterialização; quer dizer que a espiritualização produz um efeito que se pode comparar, embora muito imperfeitamente, ao da visão do conjunto do homem que está sobre a montanha; essa comparação tinha simplesmente por objetivo mostrar que os acontecimentos que para uns estão no futuro, estão no presente para outros, e podem assim ser preditos, o que não implica que o efeito se produza do mesmo modo. Para gozar dessa percepção o Espírito tem, pois, necessidade de se transportar sobre um ponto qualquer do espaço; aquele que está na Terra, ao nosso lado, pode possuíla em sua plenitude, tão bem quanto se estivesse a mil léguas dela, ao passo que não vemos nada fora do horizonte visual. A visão, nos Espíritos, não se produzindo do mesmo modo nem com os mesmos elementos que no homem, seu horizonte visual é diferente; ora, está precisamente aí o sentido que nos falta para concebê-la; o Espírito, ao lado do encarnado, é como o vidente ao lado de um cego. É preciso figurar-se, além disso, que essa percepção não se limita à extensão, mas que compreende a penetração de todas as coisas; é, repetimos, uma faculdade inerente e proporcional ao estado de desmaterialização. Essa faculdade é diminuída pela encarnação, mas não é completamente anulada, porque a alma não está encerrada no corpo como numa caixa. O encarnado a possui, em razão do adiantamento do Espírito, embora sempre num grau menor do que quando está inteiramente liberto; é isso que dá a certos homens um poder de penetração que falta totalmente a outros, uma maior justeza no golpe de vista moral, uma compreensão mais fácil das coisas extra-materiais; não só o Espírito percebe, mas se lembra do que viu no estado de Espírito, e essa lembrança é como um quadro que se retrata em seu pensamento. Na encarnação ele vê, mas vagamente e como através de um véu; no estado de liberdade ele vê e concebe claramente. O princípio da visão não está fora dele, mas nele; é por isso que não tem necessidade de nossa luz exterior; pelo desenvolvimento moral, o círculo das idéias e da concepção se amplia; pela desmaterialização gradual do perispírito, este se purifica dos elementos grosseiros que alteram a delicadeza das percepções; de onde é fácil compreender que a extensão de todas as faculdades segue o progresso do Espírito. É o grau de extensão das faculdades do Espírito que, na encarnação, torna-o mais ou menos apto a conceber as coisas espirituais. Todavia, essa aptidão não é a conseqüência necessária do desenvolvimento intelectual; a ciência vulgar não a dá; é por isso que se vêem homens de uma grande inteligência e de um grande saber, tão cegos para as coisas espirituais quanto outros o são para as coisas materiais; são refratários a elas porque não as compreendem; isso prende-se a que seu progresso não está ainda realizado nesse sentido, ao passo que se vêem pessoas de uma instrução e de uma inteligência vulgares aprendê-los com a maior facilidade, o que prova que tinham disso intuição prévia. A faculdade de mudar seu ponto de vista e de tomá-lo do alto não dá somente a solução do problema da presciência; é além disso a chave da verdadeira fé, da fé sólida; é também o mais poderoso elemento de força e de resignação, porque, daí, a vida terrestre, aparece como um ponto da imensidão, compreende-se o pouco valor das coisas que, vistas daqui de baixo, parecem tão importantes; os incidentes, as misérias, as vaidades da vida diminuem à medida que se desenrola o imenso e esplêndido horizonte do futuro. Aquele que vê assim as coisas deste mundo não é senão pouco alcançado pelas vicissitudes, e, por isso mesmo, é tão feliz quanto se pode ser neste mundo. É preciso, pois, lamentar aqueles que concentram seus pensamentos na estreita esfera terrestre, porque sentem, em toda a sua força, o contragolpe de todas as tribulações, que, como tantos aguilhões, os assediam sem cessar. Quanto ao futuro do Espiritismo, os Espíritos, como se sabe, são unânimes em afirmar- lhe o triunfo próximo, apesar dos entraves que se lhe opõem; essa previsão lhes é fácil, primeiro, porque a sua propagação é sua obra pessoal, e sabem, consequentemente, o que devem fazer; em segundo lugar, basta-lhe abarcar um período de curta duração, e que, nesse período, vêm em seu caminho os poderosos auxiliares que Deus lhes suscita, e que não tardarão a se manifestar. Sem serem Espíritos desencarnados, que os espíritas se levem a apenas trinta anos à frente, no meio da geração que se levanta; que, dali, considerem o que se passa hoje; que lhes sigam a fieira, e verão se consumir em vãos esforços aqueles que se crêem chamados a derrubá-lo; eles os verão pouco a pouco desaparecer da cena, ao lado da árvore que cresce e cujas raízes se estendem cada dia mais. Completaremos este estudo pelas relações que existem entre a presciência e a fatalidade. À espera disso, remetemos ao que foi dito sobre este último ponto, em O Livro dos Espíritos, no 851 e seguintes.

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