a partir de maio 2011

domingo, 11 de março de 2012

VIDA DE JESUS PELO SR. RENAN.


Esta obra é muito conhecida hoje para que seja necessário dela dar uma análise; limitar-
nos-emos, pois, a examinar o ponto de vista no qual o autor se colocou e disso deduzir
algumas conseqüências.
A tocante dedicatória à alma de sua irmã, que o Sr. Renan coloca na cabeça do volume,
embora muito curta, na nossa opinião, é um trecho capital, porque é toda uma profissão
de fé. Citamo-la integralmente, porque ela nos dará lugar a fazer algumas notas
importantes, de um interesse geral.
A alma pura de minha irmã Henríette.
FALECIDA EM BYBLOS, A 24 DE SETEMBRO DE 1861.
"Lembras-te, do seio de Deus onde repousas, dessas longas jornadas de Ghazir,
onde, só contigo, eu escrevia essas páginas inspiradas e dos lugares que acabávamos de
percorrer? Silenciosa ao meu lado, relias cada folha e recopiavas tão logo escrita, enquanto
que o mar, as aldeias, os barrancos, as montanhas, se desenrolavam aos nossos
pés. Quando a acabrunhante luz havia tomado lugar ao inumerável exército das estrelas,

tuas perguntas finas e delicadas, tuas dúvidas discretas, me levavam ao objeto sublime
de nossos pensamentos comuns. Tu me dizias um dia que este livro tu o amarias, primeiro
porque fora feito contigo, e também porque te agradava. Se temias, às vezes, por ele,
os estreitos julgamentos do homem frívolo, estavas sempre persuadida de que as almas
verdadeiramente religiosas acabariam por se amarem. Em meio a essas doces meditações,
a morte nos atinge a ambos com a sua asa; o sono da febre nos toma na mesma
hora; despertei só!...Tu dormes ainda na terra de Adonis, junto da santa Byblos e das águas
sagradas onde as mulheres dos mistérios antigos vinham misturar suas lágrimas.
Revela-me, ó bom gênio, a mim que amavas, estas verdades que dominam a morte, impedem
o medo, e fazem quase amar."
A menos que se suponha que o Sr. Renan tenha desempenhado uma comédia indigna,
é impossível que tais palavras venham sob a pena de um homem que crê no nada.
Sem dúvida, vêem-se escritores, de talento flexível, jogar com as idéias e as crenças mais
contraditórias, ao ponto de iludir sobre seus próprios sentimentos; é que, como o ato, eles
possuem a arte da imitação. Uma idéia não tem necessidade de ser, para eles, um artigo
de fé; é um tema sobre o qual trabalham, por pouco que ela se preste à imaginação, e
que arranjam, ora de um modo, ora de um outro, segundo as necessidades e as circunstâncias.
Mas há assuntos aos quais o incrédulo mais endurecido não saberia tocar sem se
sentir sacrílego; tal é o da dedicatória do Sr. Renan. Em semelhante caso, um homem de
coração se abstém antes do que falar contra a sua convicção; não são aqueles que se
escolherem para fazer efeito.
Tomando as formas dessa dedicatória pela expressão conscienciosa do pensamento
do autor, aí se encontra mais do que um vago pensamento espiritualista. Com efeito, essa
não é a alma perdida nas profundezas do espaço, absorvida numa eterna e beata contemplação,
ou nas dores sem fim; não é, não mais, a alma do panteísta, se aniquilando no
oceano da inteligência universal; é o quadro da alma individual, tendo a lembrança de suas
afeições e de suas ocupações terrestres, retornando aos lugares onde habitou junto
das pessoas amadas. O Sr. Renan não falaria assim a um mito, a um ser submergido no
nada; para ele, a alma de sua irmã está ao seu lado; ela o vê, o inspira, interessa-se por
seus trabalhos; há entre ambos troca de pensamentos, comunicação espiritual; sem disso
duvidar, ele faz, como tantos outros, uma verdadeira evocação. O que falta a essa crença
para ser completamente espírita? A comunicação material. Por que, pois, o Sr. Renan a
rejeita entre as crenças supersticiosas! Porque ele não admite nem o sobrenatural nem o
maravilhoso. Mas se conhecesse o estado real da alma depois da morte, as propriedades
de seu envoltório perispiritual, compreenderia que o fenômeno das manifestações espíritas
não sai das leis naturais, e que não há necessidade para isso de recorrer ao maravilhoso;
que desde que esse fenômeno teve que se produzir em todos os tempos e entre
todos os povos, e que aí está a fonte de uma multidão de fatos falsamente qualificados de
sobrenaturais por uns, ou atribuídos à imaginação por outros; que não está no poder de
ninguém impedir essas manifestações, e que é possível provocá-las em certos casos.
Que faz, pois, o Espiritismo, senão nos revelar uma nova lei da Natureza? Ele faz, com
relação a uma certa ordem de fenômenos, o que faz para outros a descoberta das leis da
eletricidade e da gravitação, da afinidade molecular, etc. Teria a ciência, pois, a pretensão
de ter a última palavra da Natureza? Há algo de mais surpreendente, de mais maravilhoso,
em aparência, do que corresponder-se, em alguns minutos, com uma pessoa que está
a quinhentas léguas? Antes do conhecimento da lei da eletricidade, um tal fato teria passado
por magia, feitiçaria, diabrura, ou por um milagre, sem nenhuma dúvida, um sábio a
quem se tivesse contado, o teria repelido, e não teria falta de excelentes razões para demonstrar
que era materialmente impossível. Impossível, sem dúvida, segundo as leis então
conhecidas, mas muito possível segundo uma lei que não se conhece. Por que, pois,
seria antes possível se comunicar instantaneamente com um ser vivo cujo corpo está a
quinhentas léguas, do que com a alma desse mesmo ser que está ao nosso lado? É, diz

se, que não tem mais corpo. E quem vos disse que ela não o tem mais? O Espiritismo
vem provar precisamente o contrário, demonstrando que se sua alma não tem mais o envoltório
material, compacto, ponderável, ela tem dele um fluídico, imponderável, mas que
não é uma espécie de matéria; que esse envoltório, invisível em seu estado normal, pode,
em circunstâncias dadas e por uma espécie de modificação molecular, tornar-se visível,
como o vapor pela condensação; não há aí, como se vê, senão um fenômeno muito natural,
do qual o Espiritismo dá a chave pela lei que rege as relações do mundo visível e do
mundo invisível.
O Sr. Renan, persuadido de que a alma de sua irmã, ou seu Espírito, o que é a
mesma coisa, estava junto dele, o via, e ouvia-o, devia crer que essa alma era alguma
coisa. Se alguém tivesse vindo lhe dizer: Essa alma, da qual vosso pensamento adivinha
a presença, não é um ser vago e indefinido; é um ser limitado e circunscrito por um corpo
fluídico, invisível como a maioria dos fluidos: a morte não foi para ela senão a destruição
de seu envoltório corporal, mas ela conservou seu envoltório etéreo indestrutível; de sorte
que tendes junto a vós a vossa irmã, tal qual era quando viva, menos o corpo que ela deixou
sobre a Terra, como a borboleta deixa a sua crisálida; morrendo, ela não fez senão se
despojar do vestido que não podia mais lhe servir, que a retinha à superfície do solo, mas
ela conservou uma veste leve que lhe permite transportar-se por toda parte onde quer,
transpor o espaço com a rapidez do relâmpago; no moral, é a mesma pessoa com os
mesmos pensamentos, as mesmas afeições, a mesma inteligência, mas com percepções
novas, mais amplas, mais sutis, não estando suas faculdades mais comprimidas pela matéria
pesada e compacta através da qual elas devem se transmitir; dizei se esse quadro
nada tem de insensato? O Espiritismo, provando que isso é real é, pois, tão ridículo quanto
alguns o pretendem? Que faz ele, em definitivo? Demonstra, de maneira patente, a existência
da alma; provando que é um ser definido, dá um objetivo real às nossas lembranças
e às nossas afeições. Se o pensamento do Sr. Renan não fosse senão um sonho,
uma ficção poética, o Espiritismo vem fazer dessa ficção uma realidade.
A filosofia, de todos os tempos, esteve ligada à procura da alma, de sua natureza,
de suas faculdades, de sua origem e de seu destino; inumeráveis teorias foram feitas a
esse respeito, e a questão sempre ficou indecisa. Por que isso? Aparentemente nenhuma
encontrou o nó do problema, e não o resolveu de maneira bastante satisfatória para convencer
todo o mundo. O Espiritismo veio por sua vez dar a sua; ele se apoia sobre a psicologia
experimental; estuda a alma, não só durante a vida, mas depois da morte; observa-
a no estado de isolamento; ele a vê agir em liberdade, ao passo que a filosofia comum
não a vê senão em sua união com o corpo, submissa aos entraves da matéria, é porque
ela confunde muito, freqüentemente, a causa com o efeito. Ela se esforça em demonstrar
a existência e os atributos da alma por fórmulas abstratas, inintelegíveis para as massas;
o Espiritismo dela dá provas palpáveis e, por assim dizer, fá-la tocar com o dedo e com os
olhos; exprime-se em termos claros, ao alcance de todo mundo. É que a simplicidade da
linguagem tirar-lhe-ia o caráter filosófico, assim como o pretendem certos sábios?
No entanto, a filosofia espírita, tem um grave erro aos olhos de muitas pessoas, esse
erro está em uma única palavra. A palavra alma, mesmo para os incrédulos, tem alguma
coisa de respeitável e que impõe; a palavra Espírito, ao contrário, desperta neles as idéias
fantásticas das lendas, dos contos de fadas, dos fogos-fátuos, dos lobisomens, etc.; admitem
de boa vontade que se possa crer na alma, embora não crendo nela por si mesmos,
mas não podem compreender senão com bom senso se possa crer nos Espíritos. Daí
uma prevenção que os faz olhar essa ciência como pueril e indigna de sua atenção; julgam-
na pela etiqueta, a crêem inseparável da magia e da feitiçaria. Se o Espiritismo tivesse
se abstido de pronunciar a palavra Espírito, se tivesse em todas as circunstâncias
substituído a palavra alma, a impressão, para eles, teria sido diferente. A grande rigor,
esses profundos filósofos, esses livres pensadores, admitirão bem que a alma de um ser
que nos foi caro ouve nossos lamentos e vem nos inspirar, mas não admitirão que ela

seja a mesma de seu Espírito. O Sr. Renan pôde colocar no frontispício de sua dedicatória:
À alma pura de minha irmã Henriette; não teria colocado: Ao Espírito puro.
Por que o Espiritismo se serviu da palavra Espírito? É um erro? Não, ao contrário.
Primeiro, esta palavra estava consagrada desde as primeiras manifestações, antes da
criação da filosofia espírita; uma vez que se tratasse de deduzir as conseqüências morais
dessas manifestações, havia utilidade em conservar uma denominação passada em uso,
a fim de mostrar a conexão dessas duas partes da ciência. Além disso, era evidente que a
prevenção ligada a esta palavra, circunscrita a uma categoria especial de pessoas, deveria
se apagar com o tempo; o inconveniente não poderia senão ser momentâneo.
Em segundo lugar, se a palavra Espírito era um repelente para alguns indivíduos,
era um atrativo para as massas, e deveria contribuir mais do que a outra para popularizar
a doutrina. Seria preciso, pois, preferir o maior número ao menor.
Um terceiro motivo é mais sério do que os dois outros. As palavras alma e Espírito,
se bem que sinônimas e empregadas indiferentemente, não exprimem exatamente a
mesma idéia. A alma, propriamente falando, é o princípio inteligente, princípio inapreensível
e indefinido como o pensamento. No estado de nossos conhecimentos, não podemos
concebê-la isolada da matéria de modo absoluto. O perispírito, embora formado de
matéria sutil, dela fez um ser limitado, definido, e circunscreveu a sua individualidade espiritual;
de onde se pode formular esta proposição: A união da alma, do perispírito e do
corpo material constitui o HOMEM; a alma e o perispírito separados do corpo constituem
o ser chamado ESPÍRITO. Nas manifestações, não é, pois, só a alma que se apresenta;
ela está sempre revestida de seu envoltório fluídico; esse envoltório é o intermediário necessário
com a ajuda do qual age sobre a matéria compacta. Nas aparições, não é a alma
que se vê, mas o perispírito; do mesmo modo que quando se vê um homem se vê seu
corpo, mas não se vêem o pensamento, a força, o princípio que o faz agir.
Em resumo, a alma é o ser simples, primitivo; o Espírito é o ser duplo; o homem é o
ser triplo; confundindo-se o homem com suas roupas, ter-se-á um ser quádruplo. Nas circunstâncias
das quais se trata, a palavra Espírito é a que corresponde melhor à coisa expressa.
Pelo pensamento, representa-se um Espírito, não se representa uma alma.
O Sr. Renan, convencido de que a alma de sua irmã o via e o ouvia, não podia supor
que ela estivesse só no espaço; uma simples reflexão deveria dizer-lhe que deve ocorrer
o mesmo com todas aquelas que deixam a Terra. As almas ou Espíritos assim distribuídos
na imensidade constituem o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual nós
vivemos; de sorte que esse mundo não é composto de seres fantásticos, de gnomos, de
duendes, de demônios chifrudos e com pés tendidos, mas dos mesmos seres que formaram
a Humanidade terrestre. Que há nisso de absurdo? O mundo visível e o mundo invisível
achando-se assim perpetuamente em contato, disso resulta uma reação incessante
de um sobre o outro; daí uma multidão de fenômenos que entram na ordem dos fatos naturais.
O Espiritismo moderno nem os descobriu nem os inventou; melhor os estudou e
melhor observou; procurou-lhes as leis e, por isso mesmo, as tirou da ordem dos fatos
maravilhosos.
Os fatos que se prendem ao mundo invisível e às suas relações com o mundo visível,
mais ou menos bem observados em todas as épocas, se ligam à história de quase
todos os povos, e sobretudo à história religiosa; é porque fez alusão em muitas passagens
dos escritores sagrados e profanos. É por falta de reconhecer essa relação que tantas
passagens ficaram ininteligíveis, e foram tão diversamente e tão falsamente interpretadas.
É pela mesma que o Sr. Renan tão estranhamente desprezou sobre a natureza dos
fatos narrados no Evangelho, sobre o sentido das palavras do Cristo, seu papel e seu
verdadeiro caráter, assim como o demonstraremos num próximo artigo. Estas reflexões,
às quais nos levaram seu preâmbulo, eram necessárias para apreciar as conseqüências
tiradas do ponto de vista em que se está colocado.



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