a partir de maio 2011

domingo, 11 de março de 2012

DA PERFEIÇÃO DOS SERES CRIADOS.REVISTA ESPIRITA

7 ANO NO. 3 MARÇO 1864 DA PERFEIÇÃO DOS SERES CRIADOS. Pergunta-se, por vezes, se Deus não poderia ter criado Espíritos perfeitos para poupar- lhes o mal e todas as suas conseqüências. Sem dúvida, Deus teria podido, uma vez que é todo-poderoso, e se não o fez, foi porque julgou, em sua soberana sabedoria, mais útil que isso fosse de outro modo. Não cabe ao homem escrutar os seus desígnios, e ainda menos julgar e condenar as suas obras. Uma vez que não pode se admitir Deus sem o infinito das perfeições, sem a soberana bondade e a soberana justiça, que se tem incessantemente sob os olhos as milhares de provas de sua solicitude por suas criaturas, deve-se pensar que essa solicitude não pôde fazer falta na criação dos Espíritos. O homem, sobre a Terra, é como a criança, cuja visão limitada não se estende além do círculo estreito do presente, e não pode julgar da utilidade de certas coisas. Ele deve, pois, se inclinar diante do que está ainda acima de sua capacidade. No entanto, tendo Deus lhe dado a inteligência para se guiar, não lhe está proibido de procurar compreender, tudo em se detendo humildemente diante do limite que não pode transpor. Sobre todas as coisas ficadas no segredo de Deus, ele não pode senão estabelecer sistemas mais ou menos prováveis. Para julgar aquele desses sistemas que mais se aproxima da verdade, tem um critério seguro, que são os atributos essenciais da Divindade; toda teoria, toda doutrina filosófica ou religiosa que tendesse a destruir a mínima parte de um único desses atributos, pecaria pela base, e seria, por isso mesmo, maculada de erro; de onde se segue que o sistema mais verdadeiro seria aquele que concordasse melhor com esses atributos. Sendo Deus todo sabedoria e todo bondade, não pôde criar o mal para fazer contrapeso ao bem; se tivesse feito do mal uma lei necessária, teria enfraquecido voluntariamente o poder do bem, porque o que é mal não pode senão alterar e não fortalecer o que é bem. Estabeleceu leis que são muito justas e boas; o homem seria perfeitamente feliz se as observasse escrupulosamente; mas a menor infração a essas leis causa uma perturbação da qual experimenta o contragolpe, daí todas as suas vicissitudes; é, pois, ele mesmo que é a causa do mal por sua desobediência às leis de Deus. Deus criou-o livre para escolher seu caminho; aquele que tomou o mau, fê-lo por sua vontade, e não pode senão se acusar das conseqüências que disso lhe resulte. Pela destinação da Terra, não vemos senão os Espíritos dessa categoria, e é isso que faz crer na necessidade do mal; se pudéssemos abarcar o conjunto dos mundos, veríamos que os Espíritos que permaneceram no bom caminho percorrem as diferentes fases de sua existência em condições todas outras, e que desde que o mal não sendo geral, não saberia ser indispensável. Mas resta sempre a questão de saber porque Deus não criou os Espíritos perfeitos. Essa questão é análoga a esta; Por que a criança não nasce toda desenvolvida, com todas as aptidões, toda a experiência e todos os conhecimentos da idade viril? Há uma lei geral que rege todos os seres da criação, animados e inanimados: é a lei do progresso; os Espíritos a ela estão submetidos pela força das coisas, sem isso essa exceção perturbaria a harmonia geral, e Deus quis nisso dar um exemplo abreviando-o no progresso da infância. Mas o mal não existindo como necessidade na ordem das coisas, uma vez que não é senão o fato dos Espíritos prevaricadores, a lei do progresso não os obriga, de nenhum modo, a passarem por essa fieira para chegarem ao bem; ela não os submete senão a passar pelo estado de inferioridade intelectual, dito de outro modo, pela infância espiritual. Criados simples e ignorantes, e por isso mesmo imperfeitos, ou melhor, incompletos, eles devem adquirir por si mesmos e pela sua própria atividade a ciência e a experiência que não podem ter no início. Se Deus os tivesse criado perfeitos, teria devido dotá-los, desde o instante de sua criação, da universalidade dos conhecimentos; tê-los-ia assim isentado de todo o trabalho intelectual; mas ao mesmo tempo ter-lhes-ia tirado a atividade que devem se desdobrar por adquirir, e pela qual concorrem, como encarnados e desencarnados, ao aperfeiçoamento material dos mundos, trabalho que não incumbe mais aos Espíritos superiores encarregados somente de dirigir o aperfeiçoamento moral. Por sua própria inferioridade eles tornam-se uma engrenagem essencial à obra geral da criação. De um outro lado, se os tivesse criado infalíveis, quer dizer, isentos da possibilidade de fazer mal, teriam sido fatalmente como máquinas bem montadas que cumprem maquinalmente as obras de precisão; mas então não mais de livre arbítrio, e, por conseqüência, não mais de independência; teriam se assemelhado a esses homens que nascem com a fortuna toda feita, e se crêem dispensados de nada fazer. Submetendo-os à lei do progresso facultativo, Deus quis que tivessem o mérito de suas obras para terem direito à recompensa e gozarem da satisfação de terem eles mesmos conquistado a sua posição. Sem a lei universal do progresso aplicada a todos os seres, teria havido uma ordem de coisas diferentes a estabelecer. Deus, sem dúvida, disso tinha a possibilidade; por que não o fez? Teria feito melhor em agir de outro modo? Nesta hipótese teria, pois, se enganado! Ora, se Deus pôde se enganar, é que não era perfeito; se não é perfeito, é que não é Deus. Desde que não se pode concebê-lo sem a perfeição infinita, disso é preciso concluir que o que fez é pelo melhor; se não estamos ainda aptos para compreender seus motivos, sem dúvida, podê-lo-emos mais tarde, num estado mais avançado. À espera disso, se não podemos sondar as causas, podemos observar os efeitos, e reconhecer que tudo, no universo, é regido por leis harmônicas cuja sabedoria e a admirável previdência confundem nosso entendimento. Bem presunçoso seria, pois, aquele que pretendesse que Deus deveria reger o mundo de outro modo, porque isso significaria que, em seu lugar, teria feito melhor do que ele. Tais são os Espíritos dos quais Deus castiga o orgulho e a ingratidão, relegando-os aos mundos inferiores, de onde não sairão senão quando, curvando a cabeça sob a mão que o fere, reconhecerão o seu poder. Deus não lhes impõe esse reconhecimento; quer que ele seja voluntário e o fruto de suas observações, é por isso que os deixa livres e espera que, vencidos pelo próprio mal que atraem, retornem a ele. A isso responde-se: "Compreende-se que Deus não haja criado os Espíritos perfeitos, mas se julga a propósito de submetê-los todos à lei do progresso, não teria podido, pelo menos, criá-los felizes, sem sujeitá-los a todas as misérias da vida? A rigor, o sofrimento se compreende para o homem, porque pôde desmerecer, mas os animais sofrem também; comem-se entre si; os grandes devoram os menores. Há os que cuja vida não é senão um longo martírio; têm, como nós, seu livre arbítrio e desmereceram?" Tal é ainda a objeção que se faz algumas vezes e à qual os argumentos acima podem servir de respostas; lhe acrescentaremos, no entanto, algumas considerações. Sobre o primeiro ponto, diremos que a felicidade completa é o resultado da perfeição; uma vez que as vicissitudes são o produto da imperfeição, criar os Espíritos perfeitamente felizes, teria sido criá-los perfeitos. A questão dos animais pede alguns desenvolvimentos. Eles têm um princípio inteligente, isto é incontestável. De que natureza é esse princípio? Que relações tem com o do homem? É estacionário em cada espécie, ou progressivo passando de uma espécie à outra? Qual é para ele o limite do progresso? Caminha paralelamente ao homem, ou bem é o mesmo princípio que se elabora e ensaia a vida nas espécies inferiores, para receber mais tarde novas faculdades e sofrer a transformação humana? São tantas questões que ficaram insolúveis até este dia, e se o véu que cobre esse mistério não foi ainda levantado pelos Espíritos, é que isso teria sido prematuro: o homem não está ainda maduro para receber tanta luz. Vários Espíritos deram, isto é verdade, teorias a esse respeito, mas nenhuma tem um caráter bastante autêntico para ser aceita como verdade definitiva; não se podem, pois, considerá-las, até nova ordem, senão como sistemas individuais. Só a concordância pode dar-lhes uma consagração, porque aí está o único e verdadeiro controle do ensino dos Espíritos. É por isso que estamos longe de aceitar como verdades irrecusáveis tudo o que ensinam individualmente; um princípio, qualquer que seja, para nós não adquire autenticidade senão pela universalidade do ensinamento, quer dizer, pelas instruções idênticas dadas sobre todos os pontos por médiuns estranhos uns aos outros e não sofrendo as mesmas influências, notoriamente isentos de obsessões e assistidos por Espíritos bons e esclarecidos, é preciso ouvir aqueles que provam a sua superioridade pela elevação de seus pensamentos, a alta importância de seus ensinos, não se contradizendo jamais, e não dizendo jamais nada que a lógica mais rigorosa não possa admitir. Foi assim que foram controladas as diversas partes da doutrina formulada em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. Tal não é ainda o caso da questão dos animais, é porque não resolvemos o dilema; até constatação mais séria, não é preciso aceitar teorias que podem ser dadas a esse respeito senão em benefício de inventário, e à espera da confirmação ou da negação. Em geral, não se poderia trazer muita 'prudência em fato de teorias novas sobre as quais pode-se iludir; também quantas deIas se viram, desde a origem do Espiritismo, que, prematuramente entregues à publicidade, não tiveram senão uma existência efêmera! Assim o será com todas aquelas que não tiverem senão um caráter individual e não tiverem sofrido o controle da concordância. Em nossa posição, recebendo as comunicações de perto de mil centros Espíritas sérios, disseminados sobre os diversos pontos do globo, somos capazes de ver os princípios sobre os quais essa concordância se estabelece; foi essa observação que nos guiou até este dia, e será igualmente a que nos guiará nos novos campos que o Espiritismo está chamado a explorar. É assim que, há algum tempo, notamos nas comunicações vindas de diversos lados, tanto da França quanto do exterior, uma tendência a entrar numa via nova, pelas revelações de uma natureza toda especial. Essas revelações, freqüentemente feitas com palavras veladas, passaram desapercebidas para muitos daqueles que as obtiveram; muitos outros acreditaram só eles tê-las; tomadas isoladamente, seriam para nós sem valor, mas a sua coincidência lhes dá uma alta seriedade, da qual será capaz de julgar mais tarde, quando chegar o momento de entregá- las à luz da publicidade. Sem essa concordância, quem poderia estar seguro de ter a verdade? A razão, a lógica, o julgamento, sem dúvida, são os primeiros meios de controle dos quais é preciso fazer uso; em muitos casos isto basta; mas quando se trata de um princípio importante, da emissão de uma idéia nova, seria preciso presunção em se crer infalível na apreciação das coisas; é aliás um dos caracteres distintivos da revelação nova, de ser feita sobre todos os pontos ao mesmo tempo; assim ocorreu em diversas partes da Doutrina. A experiência aí está para provar que todas as teorias arriscadas pelos Espíritos sistemáticos e pseudo-sábios sempre foram isoladas e localizadas; nenhuma se tornou geral e nem pôde suportar o controle da concordância; várias mesmo caíram sob o ridículo, prova evidente de que elas não estavam na verdade. Esse controle universal é uma garantia para a unidade futura da Doutrina. Esta digressão nos afastou um pouco de nosso assunto, mas era útil para nos fazer conhecer de que maneira procedemos em fato de teorias novas concernentes ao Espiri tismo, que está longe de ter dito a sua última palavra sobre todas as coisas. Não emitimos jamais uma que não haja recebido a sanção da qual acabamos de falar, é por isso que algumas pessoas, um pouco impacientes, se espantam de nosso silêncio em certos casos. Como sabemos que cada coisa deve vir ao seu tempo, não cedemos a nenhuma pressão, de qualquer parte que ela venha, sabendo a sorte daqueles que querem ir muito depressa e têm em si mesmos, e em suas próprias luzes, uma confiança muito grande; não queremos colher um fruto antes de sua maturidade; mas pode-se estar seguro de que, quando estiver maduro, nós o deixaremos cair. Estabelecido este ponto, nos resta pouca coisa a dizer sobre a questão proposta, não podendo ainda ser resolvido o ponto capital. Está constatado que os animais sofrem; mas é racional imputar esses sofrimento à imprevidência do Criador, ou uma falta de bondade de sua parte, porque a causa escapa à nossa inteligência, como a utilidade dos deveres e da disciplina escapa ao escolar? Ao lado desse mal aparente não se vêem manifestar-se suas solicitudes pelas mais ínfimas de suas criaturas? Os animais não são providos de meios de conservação apropriados ao meio em que devem viver? Não se vêem seus pêlos se proverem mais ou menos segundo o clima? seu aparelho de nutrição, suas armas ofensivas e defensivas proporcionais aos obstáculos que têm a vencer e aos inimigos que têm a combater? Em presença desses fatos tão multiplicados, e cujas conseqüências escapam ao olho do materialista, é-se fundado a dizer que não há Providência para eles? Não, certamente; tanto quanto que nossa visão é muito limitada para julgar a lei do conjunto. Nosso ponto de vista, restrito ao pequeno círculo que nos cerca, não nos deixa ver senão as irregularidades aparentes; mas quando nos elevamos pelo pensamento acima do horizonte terrestre, essas irregularidades se apagam diante da harmonia geral. O que mais choca nessa observação localizada, é a destruição dos seres uns pelos outros. Uma vez que Deus prova sua sabedoria e sua bondade em tudo o que podemos compreender, é preciso também admitir que a mesma sabedoria preside ao que não compreendemos. De resto, não se exagere a importância dessa destruição senão pelo que se lhe liga à matéria, sempre em conseqüência do ponto de vista estreito em que o homem se coloca. Em definitivo, não há senão o envoltório físico a destruir, mas o princípio inteligente não é aniquilado; o Espírito é tão indiferente à perda de seu corpo, quanto o homem o é à de sua roupa. Essa destruição dos envoltórios temporários é necessária à formação e à manutenção dos novos envoltórios que se constituem com os mesmos elementos, mas o princípio inteligente nisso não sofre nenhum prejuízo, não mais entre os animais do que entre os homens. Resta o sofrimento que acarreta às vezes a destruição desse envoltório. O Espiritismo nos ensina e nos prova que o sofrimento, no homem, é útil para o seu adiantamento moral; quem nos diz que aqueles que suportam os animais não tem também a sua utilidade; que ele não é, em sua esfera e segundo uma certa ordem de coisas, uma causa de progresso? Isso não é senão uma hipótese, é verdade, mas que, ao menos, se apoia sobre os atributos de Deus: a justiça e a bondade, ao passo que os outros lhes são a negação. A questão da criação dos seres perfeitos, tendo sido debatida numa sessão da Sociedade Espírita de Paris, o Espírito de Eras-to ditou, a este respeito, a comunicação seguinte. Sobre a não-perfeição dos seres criados. (Sociedade Espírita de Paris, 5 de fevereiro de 1864. - Médium, Sr. d'Ambel.) Por que Deus não criou todos os seres perfeitos? Em virtude mesmo da lei do progresso. É fácil compreender a economia desta lei. Aquele que caminha está no movimen to, quer dizer, na lei da atividade humana; aquele que não progride, que se acha por essência estacionário, incontestavelmente, não pertence à gradação ou hierarquia humanitária. Eu me explico, e compreendereis facilmente o meu raciocínio. O homem que nasce numa posição mais ou menos elevada encontra em sua situação ativa um estado de ser dado; pois bem! é certo que se toda sua vida inteira escoasse nessa condição de ser, sem que tivesse trazido modificações por seu feito ou pelo feito de outrem, ele declararia que sua existência é monótona, aborrecida, cansativa, insuportável, em uma palavra; acrescento que teria perfeitamente razão, tendo em vista que o bem não é bem senão relativamente àquilo que lhe é inferior. Isto é tão verdade, que, se colocardes o homem num paraíso terrestre, num paraíso onde não se progrida mais, ele achará, num tempo dado, a sua existência e essa morada um inferno impiedoso. Disso resulta, de maneira absoluta, que a lei imutável dos mundos é o progresso ou o movimento para a frente; quer dizer que todo Espírito que é criado está submetido inevitavelmente a essa grande e sublime lei da vida; conseqüentemente, tal é a própria lei humana. Não existe senão um único ser perfeito, e não pode dele existir senão um único: Deus! Ora, pedir ao Ser supremo para criar os Espíritos perfeitos, isso seria pedir-lhe para criar alguma coisa semelhante e igual a ele. Emitir uma semelhante proposição, não é condená-la antecipadamente? Ó homens! por que sempre pedir a razão de ser de certas questões insolúveis ou acima do entendimento humano? Lembrai-vos sempre de que só Deus pode permanecer e viver em sua imobilidade gigantesca. Ele é o summum e o máximum de todas as coisas, o alfa e o ômega de toda a vida. Ah! crede-me, meus filhos, não procureis jamais levantar o véu que cobre esse grandioso mistério, que ps maiores Espíritos da criação não abordam senão tremendo. Quanto a mim, humilde pioneiro da iniciação, tudo o que posso vos afirmar é que a imobilidade é um dos atributos de Deus ou do Criador, e que o homem e tudo o que é criado têm, como atributo, a mobilidade. Compreendei se puderdes compreender, ou então esperai que seja chegada a hora de uma explicação mais inteligível, quer dizer, mais à altura de vosso entendimento. Não trato senão desta parte da questão, tendo querido vos provar somente que não estava estranho à vossa discussão; sobre todo o resto refiro-me ao que foi dito, uma vez que todo o mundo me pareceu da mesma opinião. Dentro em pouco falarei de outros fatos que foram assinalados (os fatos de Poitiers). ERASTO.

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