a partir de maio 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Origem dos Evangelhos: Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo


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Origem dos Evangelhos
Há cerca de um século, consideráveis trabalhos empreendidos
nos diversos países cristãos, por homens de elevada posição nas
igrejas e nas universidades, permitiram reconstituir as verdadeiras
origens e as fases sucessivas da tradição evangélica.
Foi, sobretudo, nos centros de religião protestante que se elaboraram
esses trabalhos, notabilíssimos por sua erudição e seu
caráter minucioso, e que tão vivas claridades projetaram sobre os
primeiros tempos do Cristianismo, sobre o fundo, a forma, o alcance
social das doutrinas do Evangelho.
São os resultados desses trabalhos o que exporemos resumidamente
aqui, sob uma forma que esforçaremos por tornar mais
simples que a dos exegetas protestantes.
O Cristo nada escreveu. Suas palavras, disseminadas ao longo
dos caminhos, foram transmitidas de boca em boca e, posteriormente,
transcritas em diferentes épocas, muito tempo depois da sua
morte. Uma tradição religiosa popular formou-se pouco a pouco,
tradição que sofreu constante evolução até o século IV.
Durante esse período de trezentos anos, a tradição cristã jamais
permaneceu estacionária, nem a si mesma semelhante. Afastandose
do seu ponto de partida, através dos tempos e lugares, ela se
enriqueceu e diversificou. Efetuou-se poderoso trabalho de imaginação;
e, acompanhando as formas que revestiram as diversas
narrativas evangélicas, segundo a sua origem, hebraica ou grega,
foi possível determinar com segurança a ordem em que essa tradição
se desenvolveu e fixar a data e o valor dos documentos que a
representam.
Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo 23
Durante perto de meio século depois da morte de Jesus, a tradição
cristã, oral e viva, é qual água corrente em que qualquer se
pode saciar. Sua propaganda se fez por meio da prédica, pelo ensino
dos apóstolos, homens simples, iletrados1, mas iluminados pelo
pensamento do Mestre.
Não é senão do ano 60 ao 80 que aparecem as primeiras narrações
escritas, a de Marcos a princípio, que é a mais antiga, depois
as primeiras narrativas atribuídas a Mateus e Lucas, todas, escritos
fragmentários e que se vão acrescentar de sucessivas adições, como
todas as obras populares2.
Foi somente no fim do século I, de 80 a 98, que surgiu o evangelho
de Lucas, assim como o de Mateus, o primitivo, atualmente
perdido; finalmente, de 98 a 110, apareceu, em Éfeso, o evangelho
de João.
Ao lado desses evangelhos, únicos depois reconhecidos pela
Igreja, grande número de outros vinha à luz. Desses, são conhecidos
atualmente uns vinte; mas, no século III, Orígenes os citava em
maior número. Lucas faz alusão a isso no primeiro versículo da
obra que traz o seu nome.
Por que razão foram esses numerosos documentos declarados
apócrifos e rejeitados? Muito provavelmente porque se haviam
constituído num embaraço aos que, nos séculos II e III, imprimiram
ao Cristianismo uma direção que o devia afastar, cada vez
mais, das suas formas primitivas e, depois de haver repelido mil
sistemas religiosos, qualificados de heresias, devia ter como resul-
1 Excetuado Paulo, versado nas letras.
2 Sabatier, diretor da seção dos Estudos superiores, na Sorbona, "Os
Evangelhos Canônicos", pág. 5. A Igreja sentiu a dificuldade em encontrar
novamente os verdadeiros autores dos Evangelhos. Daí a fórmula
por ela adotada: vanfelho segundo...
Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo 24
tado a criação de três grandes religiões, nas quais o pensamento do
Cristo jaz oculto, sepultado sob os dogmas e práticas devocionistas
como em um túmulo3.
Os primeiros apóstolos limitavam-se a ensinar a paternidade de
Deus e a fraternidade humana. Demonstravam a necessidade da
penitência, isto é, da reparação das nossas faltas. Essa purificação
era simbolizada no batismo, prática adotada pelos essênios, dos
quais os apóstolos assimilavam ainda a crença na imortalidade e na
ressurreição, isto é, na volta da alma à vida espiritual, à vida do
espaço.
Daí a moral e o ensino que atraíam numerosos prosélitos em
torno dos discípulos do Cristo, porque nada continham que se não
pudesse aliar a certas doutrinas pregadas no Templo e nas sinagogas.
Com Paulo e depois dele, novas correntes se formam e surgem
doutrinas confusas no seio das comunidades cristãs. Sucessivamente,
a predestinação e a graça, a divindade do Cristo, a queda e a
redenção, a crença em Satanás e no inferno, serão lançados nos
espíritos e virão alterar a pureza e a simplicidade ao ensinamento
do filho de Maria.
Esse estado de coisas vai continuar e se agravar, ao mesmo
tempo em que convulsões políticas e sociais hão de agitar a infância
do mundo cristão.
Os primeiros Evangelhos nos transportam à época perturbada
em que a Judéia, sublevada contra os romanos, assiste à ruína de
Jerusalém e à dispersão do povo judeu (ano 70). Foi no meio do
sangue e das lágrimas que eles foram escritos, e as esperanças que
traduzem parecem irromper de um abismo de dores, enquanto nas
almas contristadas desperta o ideal novo, a aspiração de um mundo
3 Ver notas complementares nºs 2, 3 e 4, no fim do volume.
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melhor, denominado “reino dos céus”, em que serão reparadas
todas as injustiças do presente.
Nessa época, todos os apóstolos haviam morrido, com exceção
de João e Filipe; o vínculo que unia os cristãos era bem fraco ainda.
Formavam grupos isolados entre si e que tomavam o nome de
igrejas (ecclesia, assembléia), cada qual dirigido por um bispo ou
vigilante escolhido eletivamente.
Cada igreja estava entregue às próprias inspirações; apenas tinha
para se dirigir uma tradição incerta, fixada em alguns manuscritos,
que resumiam mais ou menos fielmente os atos e as palavras
de Jesus e que cada bispo interpretava a seu talante.
Acrescentemos a estas tão grandes dificuldades as que provinham
da fragilidade dos pergaminhos, numa época em que a imprensa
era desconhecida; a falta de inteligência de certos copistas,
todos os males que podem fazer nascer à ausência de direção e de
crítica, e facilmente compreenderemos que a unidade de crença e
de doutrina não tenha podido manter-se em tempos assim tormentosos.
Os três Evangelhos sinóticos4 acham-se fortemente impregnados
do pensamento judeu-cristão, dos apóstolos, mas já o evangelho
de João se inspira em influência diferente. Nele se encontra um
reflexo da filosofia grega, rejuvenescida pelas doutrinas da escola
de Alexandria.
Em fins do século 1, os discípulos dos grandes filósofos gregos
tinham aberto escolas em todas as cidades importantes do Oriente.
Os cristãos estavam em contato com eles e freqüentes discussões se
travavam entre os partidários das diversas doutrinas. Os cristãos,
arrebanhados nas classes inferiores da população, pouco letrados
em sua maior parte, estavam mal preparados para essas lutas do
4 São assim designados os de Marcos, Lucas e Mateus.
Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo 26
pensamento. Por outro lado, os teoristas gregos sentiram-se impressionados
pela grandeza e elevação moral do Cristianismo. Daí
uma aproximação, uma penetração das doutrinas, que se produziu
em certos pontos. O Cristianismo nascente sofria pouco a pouco as
influências gregas, que o levava a fazer do Cristo o verbo, o Logos
de Platão.

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