Sabemos de escritos que trazem indicações do como se parecem esses “ambientes espirituais”. Dante descreve os infernos de forma semelhante a modernas descrições do Umbral. Swedenborg e escritos mórmons também versam sobre isso (a propósito, não os li, mas repito HCM e Edith Fiori). A Codificação em si é lacônica, senão omissa, quanto esse aspecto.
A partir da década de 40 tivemos, notadamente por Chico Xavier, uma enxurrada de livros mediúnicos tratando com detalhes surpreendentes as condições de “mundos ou planos espirituais”. O Movimento Espírita brasileiro consumiu com avidez esses relatos e, por assim dizer, habitou-se a tomá-los por expressão da verdade e extensão da Codificação – obras subsidiárias.
Superada essa etapa de assimilação de Nosso Lar e quetais, uma segunda invasão de relatos ainda mais exóticos e estarrecedores falam até de reprodução de espíritos no Plano Espiritual.
O que ressalta dessa literatura é uma impressionante “materialidade” desses ambientes, com uma vida tão semelhante à da Terra que nos perguntamos se reencarnar na Crosta ainda é necessário. Lá temos refeitórios, moeda, meios de transporte, vestuário, núpcias, banhos e, por que não, instalações sanitárias. Ocorre-me agora que nunca vi escolha dos governantes pelo voto. Nesse ponto há uma meritocracia perfeita que impede as más escolhas da espiritada comum: são eleitos por instâncias superiores os que de fato merecem. Sem margem para erro e decepções.
É difícil usar a Codificação como medida para tudo isso porque ela traz princípios gerais os quais, por esforço lógico próprio, tentamos aplicar ao que se publica. Claro que a Codificação foi sintética e deixou as balizas de seus princípios, ainda que a prudência do Codificador tenha reservado espaço para revelações futuras, já que seu caráter é progressivo.
A vulgarização dessas obras é tamanha que dificulta a aplicação do princípio da concordância universal do ensino dos espíritos. Que médiuns e que espírito podemos garantir não serem fascinados ou pseudo-sábios?
Partindo da premissa que os espíritos escritores – repórteres do mundo espiritual- sejam honestos em suas narrativas, como será que eles percebem o que vivenciam por lá?
Ora, quanto menos espiritualizados, tanto mais condicionados às condições terrenas, mais deformam ao seu modo o que “vêem”. Importa refletirmos que a realidade é captada dentro das possibilidades perceptivas de cada um. Um campo florido é visto pelo daltônico dum modo distinto do individuo sem essa limitação, já a abelha, que enxerga a luz polarizada, vê detalhes que escapam a este último. Todos viram o mesmo campo e cada um o viu diferente. Podemos, a rigor, dizer que algum deles falseou a verdade? A constatação da realidade se forma na consciência que a percebe. Não queremos dizer que a realidade, em si, é subjetiva, apenas que temos limitações para abrangê-la em sua totalidade.
Imaginemos agora André Luiz, carioca desencarnado lá pelos anos 30. Passa um tempo meio enlouquecido numa aflitiva condição, alcança um estágio de recuperação do equilíbrio. Curioso e espantado com tudo que vê, interpreta cada objeto ou fato por possíveis comparações com o que conhecera na sua última encarnação. Uma distorção natural face seus condicionamentos.
Até aí vai bem, quer dizer, nem tão mal. Eis que ele se atreve a levar suas visões e impressões aos encarnados... Imaginemos nós tentando descrever cidades, aparelhos, automóveis, etc. a uma tribo isolada no interior da Amazônia! Um prédio de apartamentos? Diremos que são como ocas sobrepostas, certo? É errado, mas o melhor possível tendo em vista a falta de elementos para melhor analogia. O carro seria como uma canoa que se move sem remos no seco (se for no Rio de Janeiro, às vezes em meio da água). Um celular...sei lá, esse nem tentaria explicar.
É preciso mais prudência e espírito crítico com essa literatura mediúnica, permeada de fantasias e delírios, mas também é preciso certa complacência de reconhecer as limitações desses espíritos que se esforçam para nos trazer informações, nem sempre tão corretas. Devemos compreender os fatores limitantes de individualidades como nós no mesmo nível de adiantamento moral e intelectual.
São aproximações das realidades possíveis e coexistentes. Um grupo de entidades que vibram e sintonizam numa determinada faixa atua sobre os fluidos espirituais e compõe uma série de edificações, utensílios, equipamentos e formas de interagir (regras sociais). Tudo isso válido para aquele seu momento particular, adequado às suas condições e, certamente, transformável tão logo esse conjunto de consciências se modifique em esclarecimento.
De todo jeito me parece muito difícil justificar moeda como valor de troca. Seria de supor uma autoridade monetária, um sistema de regulação da emissão, vigiar o risco de inflação (já pensaram se a cotação do bônus-hora cair, que perigo?). Empréstimos, ainda que amigáveis e sem juros, como o que Lísias teria prestado a André Luiz, seria dispormos da possibilidade de quitar débitos (de todo tipo) alheios. Fica um tanto semelhante à doutrina que embasava a venda das indulgências, não acham? Vamos convocar Lutero para defender o Espiritismo? E como acomodar com isso a questão do mérito individual?
Enfim, creio que há muito de “verdade” em André Luiz, mas que seu trabalho merecia uma boa revisão do Autor, a essa altura menos deslumbrado e mais cônscio das minúcias do mundo em que vive. Uma boa lista de erratas e notas de rodapés aproximaria suas reportagens da racionalidade que O Espiritismo pede.
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