|
ARTIGO: Proposta de Pietro Ubaldi ao Congresso Pan-americano
FONTE: RIE – Herculano Pires – novembro de 1963
A mensagem que Pietro Ubaldi enviou ao VI Congresso Espírita Pan-americano, realizado neste mês em Buenos Aires, vem causando estranheza nos meios doutrinários. Depois de discorrer sobre a estagnação das religiões, o autor de “A Grande Síntese” chega as seguintes conclusões:
1) O Espiritismo estacionou na teoria da reencarnação e na prática mediúnica.
2) Não possuindo “um sistema conceptual completo”, não pode ele ser levado a sério pela cultura atual.
3) A filosofia espírita é limitada, não oferece uma visão do Todo e “não abrange todos os momentos da lei de Deus”.
4) O Espiritismo não construiu uma “teologia espírito-científica, que explique o que a católica não explica”.
5) O Espiritismo corre o perigo de ficar parado no nível Allan Kardec, como o catolicismo ficou no nível São Tomaz e o protestantismo no nível Bíblia.
Diante dessa situação, propõe Ubaldi a adoção, pelo Espiritismo, dos livros de sua autoria, abrangendo a “série italiana” e a “série brasileira”. E explica “Trata-se de um produto realizado de uma forma que permite que ele caiba dentro do Espiritismo, porque atingido por inspiração, que é por ele julgada a mais alta forma de mediunidade, aquela consciente, controlada pela razão”. E logo mais afirma: “Só assim o Espiritismo poderá avançar paralelo à ciência e exigir atenção de parte dos materialistas, porque usa a forma mental e os métodos racionais dele. Só assim o Espiritismo poderá sair do trilho dos costumeiros conceitos que se repetem nas sessões mediúnicas, e colocar-se no nível do mais adiantado pensamento moderno, penetrando no terreno da filosofia e da ciência e situando-se na sua altura”.
A redação e a tradução dessa mensagem de Ubaldi, como se vê, por estes pequenos trechos, estão muito abaixo do texto de suas obras mais inspiradas, que pertencem à “série italiana”. Por outro lado verifica-se que faltou a Ubaldi a percepção necessária para capturar o processo espírita em suas verdadeiras dimensões. O admirável médium de “A Grande Síntese” revela absoluta falta de acuidade e de compreensão da realidade espírita no mundo de hoje, onde o Espiritismo vem cumprindo serenamente a sua finalidade. A sua critica ao Espiritismo, resumida nos cinco pontos acima, coincide com a dos adeptos menos instruídos na doutrina, e pode ser respondida, ponto por ponto, por qualquer adepto de inteligência e cultura mediana, que conheça a Doutrina Espírita. Por outro lado, o oferecimento de suas obras ao Espiritismo revela desconhecimento da natureza da nossa doutrina e das exigências metodológicas para a aceitação da proposta, que não cobre essas exigências.
Ubaldi desenvolveu suas faculdades mediúnicas à margem do Espiritismo. Seu primeiro livro “A Grande Síntese” apresenta curioso paralelismo com o Espiritismo, o que lhe valeu a simpatia e a amizade dos espíritas brasileiros. Na Itália ou no Brasil, porém, Ubaldi recusou-se sempre a integrar-se no movimento espírita, filiando-se na península à corrente Ultrafânia, do Prof. Trespioli, que pretende haver superado a concepção espírita. Em seu livro “As Noures”, Ubaldi nos oferece a concepção ultrafânica da mediunidade na qual enquadra o seu caso pessoal. É uma pretensiosa concepção de mediunidade cósmica, fugindo à naturalidade e simplicidade das comunicações espirituais ente espíritos desencarnados e médiuns. As pretensões de Ubaldi o transformaram, de simples médium, em autor messiânico, agora arvorado em reformador do Espiritismo.
Respondemos aos itens da sua critica da seguinte maneira:
1) O Espiritismo é uma doutrina evolucionista, como o provam as suas obras fundamentais e o seu imenso desenvolvimento em apenas cem anos de existência.
2) O sistema conceptual espírita é completo e sua síntese está em “O Livros dos Espíritos”
3) A filosofia espírita não pode abranger o Todo e muito menos “todos os momentos da lei de Deus”, porque isso não está ao alcance de nenhuma elaboração mental, no plano relativo da vida terrena
4) A teologia espírita é limitada às possibilidades atuais do conhecimento de Deus, segundo ensina Allan Kardec, e essas possibilidades não admitem ainda a criação na Terra de uma teologia-científica, nem dentro nem fora do Espiritismo.
5) O “nível Allan Kardec” não é o do Espiritismo, mas sim o “nível Espírito da Verdade”, de quem Kardec, segundo dizia, foi um “simples secretário”.
Encontrando-se, pois, nesse plano de revelação constante e progressiva, que é o da manifestação do Espírito da Verdade, - segundo o próprio Kardec adverte – o Espiritismo está livre dos perigos da estagnação dogmática. Se pelo contrário, adotasse as obras de Ubaldi para completá-la, o Espiritismo cairia imediatamente no dogmatismo. Para cumprir sua missão, em todos os campos da atividade humana, o Espiritismo tem de manter-se como Ciência do Espírito (que investiga o elemento inteligente do Universo, paralelamente com a Ciência da Matéria, que investiga o elemento material); como Filosofia livre, “sem os prejuízos do espírito de sistema”, segundo expressão feliz de Kardec; e como Religião em Espírito e Verdade, de acordo com o anúncio do Cristo à Mulher Samaritana.
Não sabemos ainda como o Congresso de Buenos Aires recebeu a proposta de Ubaldi. De nossa parte, não obstante o respeito que votamos ao médium e sua obra, altamente inspirada, além da que apresentamos nestas linhas. Se Ubaldi tivesse lido “o Livro dos Espíritos”, certamente jamais faria a proposta que fez. Mesmo porque a sua obra, como a de Flammarion, a de Delanne, a de Denis, a de Bozzano e tantas outras, longe de completar o Espiritismo, apenas procura desenvolver alguns dos grandes temas que o Espiritismo levantou e sustenta no mundo moderno.
Nenhum comentário:
Postar um comentário