a partir de maio 2011

domingo, 6 de maio de 2012

CASOS E COISAS




M. QUINTÃO

   A coisa foi por uma destas lindas manhãs de maio e de sol, este sol grande amigo dos velhos e das creanças.
    E o caso merece contado, por gozado, tal e qual.
    Fui-me ao Figaro da zona, que aos dotes profissionaes accumula os de confrade erudito e fallastraz, além de amigo de todas as ligas, ataduras e pontos falsos da doutrina.
    Boa navalha e optima lingua, sem risco lanhuras á cara dura, ou molle, do freguez.
    O freguez do momento era um irmão quasi glabro e gebo, já chegadiço á madureza dos que sabem que não ha fio piloso que lhe não caia, a não ser ad libitum do Pae.
    Atravez do espelho, olhos piscos e profundos, pareceu-me que elle se deleitava em lubrificar a parenetica do barbeiro, mais afia­da que a respectiva navalha, emquanto este lhe ensaboava os queixos.
    E, vira queixo daqui, dobra geba d’acolá, o dialogo repontou de ponta, para vingar de galho.
    Ora, eu que tenho ouvidos de ouvir, oiço...
    Oiço e conto:
    — Pois é como lhe digo, o homem trepou nas tamanquinhas (a phrase é do barbeiro) e aclarou com laivos de novidade sediça a caligem bolorenta da velha questão.
    — Mas, a verdade é que Kardec e Roustaing jamais turraram, e parece que até tutearam, como bons discipulos do Christo, ao demais educados e conscios de suas responsabilidades.
    — Neste caso, o sururú foi posthumo, armado lá do Espaço, e quem sabe se por Espiritos solertes, á inopia dos mascarados menos solertes, cá de baixo.
    Porque a verdade, transparente, é que não ha mesmo questão alguma fundamental, de molde a infirmar, sequer, a integridade e finalidade da Revelação. O que ha são pontos de vista de foros personalissimos e tam­bem legitimissimos, de vez que, em Espiritismo, não ha dogmas.
 — Mas... o tal omnium consensus?
 — Pura fita colorida e mal synchronisada, meu amigo: esse consenso geral nunca existiu neste mundo de Deus, em e para coisa alguma. Ainda agora, veja que ha muita gente que, não acredita em manifestações, como ha gente que acredita em Deus e desacredita a Deus. Veja quantos prismas religiosos...
 Mais, ainda ha Espiritos desincarnados se desconhecem como taes, e os que taes se reconhecem, não deixam de se manifestar em disparidade de idéas e condições.
    —  E esse Christo, que uns querem de carne e outros de gesso ou de granito ainda é, para muita gente, simples alegoria historica, genuino mytho...
— Neste caso, a verdade...
 —  Não existe em absoluto: o que ha e haverá sempre são parcellas de uma Verdade indefinivel ao indefinito.
 — Relatividade absoluta, então?
 — Perfeitamente: em sciencia, como em philosophia, como em religião.
 — Mas Kardec...
 — Nunca reivindicou fóros de infallibilidade, sempre disse que a doutrina não era delle, mas dos Espiritos, que haveriam de amplia-la pelos evos em fóra. Este o maior dos postulados doutrinarios...
 — Natural,logico, portanto, que do além nos venham mensagens contradictorias. A experiencia demonstra que a simples transposição de plano não basta, tão por só, para nos transformar idéas e convicções preconcebidas. Por isso, no Espaço, sempre haverá kardecistas com muitos rr fortes, dispostos a soprar acendalhas na lareira do doutrinarismo, e roustainguistas benedictinos que appellem para O Christo de sua comprehensão, afim de que todos melhor o sirvam em espirito e verdade, ou seja melhormente attentos ao signal dos tempos ... de exemplificação acima de tudo — res non verba.
 E aquella interpolação de que falam os magos racionalistas?
 —   Interpolar, no sentido etymologico, é intermittir num texto, é interromper ou alterar um texto. Addir a um texto em segunda edição, ou ainda em curso de publicação um adimplemento qualquer pode ser tudo, menos interpolar. De facto, o feito em nada alteia, porque não attinge o cerne da obra, e que, por signal, — nunca é demais repeti-lo — não é de Roustaing, porque é dos Espiritos, talqualmente a de Kardec.
 — Vamos, porém, seu Figaro, escanhoe-me p’ra ahi essa barbicha de uma vez, porque neste discrime ha sempre panno para mangas, e isto de pannos e mangas é coisa mais de algibebes que de barbeiros.
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Que linda manhã de sol! Os sinos de uma egreja tangem longe, convocam os fiéis da sua missa, e eu pensei nos que lá iam  com outro Christo, para concluir que Elle veio mesmo para todos.

        Até para os que não crêem.

Fonte: Reformador – junho, 1936

Mantida ortografia original

http://www.universoespirita.org.brResponsável pela transcrição: Wadi Ibrahim


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