M. QUINTÃO
Confrade anonymo:
Aqui tenho, e só agora posso responder, sua amavel cartinha de 7 de outubro proximo passado.
Com uma calligraphia tão bonita que até me parece de antanho — hoje é tudo motorizado — não havia porque esconder-se...
Modestia ? Acanhamento? — Mas olhe que isto de anonymatos, entre espiritistas, é escalracho do bravo....
E mestranças tambem não as ha.
Mestres em Israel, Nicodemos impenitentes, é o que somos todos, mais ou menos, em petição de graças e de... miseria.
A ninguem chameis mestre, disse o Divino Mestre.
Magister vester unus est Christus.
Porque, pois, não proscrever estes salamaléques e deixa-los aos que ainda são do mundo e estão no mundo pelo mundo?
Adjectivos! Quem poderia medir a tensão da sua toxidade subtil!
Imagine o confrade assim uma nobiliarchia de barões do Espiritismo...
Horresco referens!
*
Mas, vamos ao assumpto, para dizer lhe que o confrade errou na porta.
E, como não somos mestre e muito menos philologo, ha que por nossa vez bater á porta dos visinhos, que são, no caso, o saudoso João Ribeiro e Hemeterio dos Santos.
O primeiro já nos dizia no “Reformador” de 15 de janeiro de 1903, a proposito da graphia Spiritismo ou Espiritismo, o seguinte:
“Entendo, antes de tudo, que se deveria dizer espiritista, que é o unico derivado regular de Espiritismo”.
O segundo, no exemplar de 15 de março seguinte, depois de considerações attinentes á indole e evolução da linguagem, asserta:
“Os factos da lingua nos autorisam a escrever espirito, espiritismo e espirita, etc.”
Como vê, a questão é velha e resolvida.
Quanto a possivel confusão de genero, nos parece procedente, pois fica implicitamente resolvida pelo artigo.
Assim dizemos o espirita, a espirita e já se sabe se é masculino ou feminino.
Tambem dizemos o medium, a medium, e toda gente logo vê se nos referimos a homem ou mulher.
Que o Espirito não tem sexo, isso tambem é verdade, mas não assim quando incarnado.
Pensamos, pois, com João Ribeiro, que a rigor deveriamos dizer espiritista e não espírita, espiríta; mas, nestas questões de ortoépia, tambem não ha como desattender a que o uso faz lei.
De resto, convenhamos: o essencial é que sejamos identificados menos de nome que de facto, ou mais por actos que por palavras.
Espíritas, espiritas ou espiritistas, sejamos ou procuremos ser antes de tudo, christãos.
Isto é que ....
*
Mas, já agora, tambem não terminaremos sem umas achegas ao latinorio.
E’ que o confrade esfusia-me de lá com um salutem plena decit e obriga-me a mim, que não posso ver defunto sem chorar, a dizer-lhe que entre nós o latinorio é considerado contrabando por uns tantos levitas do Alcorão, como se não tiveramos peccados mais feios a expurgar.
E nós não temos mesmo necessidade de escandalisar essa boa gente, com aggravo de responsabilidades para ella e para nós.
Fonte: Reformador – novembro, 1936
Responsável pela transcrição: Wadi Ibrahim
(mantida a ortografia original)
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