V - A força do preconceito
De todas as forças que oprimem o Espiritismo,
a que mais o tem prejudicado é a "força do preconceito".
Desde o primeiro vestígio com que o
"amor próprio" maculou a alma humana, o preconceito procurou fazer
dela um títere, e lhe vai sugando a seiva da vida.
Tudo tem passado e vem passando, mas o
preconceito é o esbirro teimoso que faz mais vítimas no campo das lutas
incruentas, que as metralhas nos campos de Marte.
Estas matam o corpo, aquele mata a alma.
Mas de todas as artimanhas que o
preconceito tem usado para entravar a marcha do progresso humano é, sem dúvida,
a religiosa que vem há tempo solapando todas as bases da moral e destruindo o
cimento da Fé que os arautos da Espiritualidade preparam para o reerguimento
das consciências oprimidas.
Quando Moisés subiu ao Sinai deixou o povo
com Aarão à espera dos mandamentos que deveriam orientar as gentes para os
altos surtos do amor, e quando voltou encontrou os israelitas adorando o
bezerro de ouro fundido das jóias que cada um possuía. Impossível a Moisés
fazer prevalecer os preceitos do decálogo. O Deus Espírito não podia ser aceito
por um povo bruto e material, havia necessidade de um "deus de ouro".
Passaram-se os tempos e o preconceito, a
despeito das novas verdades e grandes descobertas que têm transformado a face
do mundo, continua a exercer o seu poder nas consciências.
A força do preconceito, para muitos, tem
mais poder que a verdade. É este um dos motivos que impede a marcha ascensional
do Espiritismo entre nós.
Sem dúvida, o preconceito é o fundamento
de todas as idéias preconcebidas, que têm tentado abater a Verdade em suas
múltiplas manifestações, mas o preconceito passará, também, porque a falsidade
não pode prevalecer.
VI - A preexistência e o subconsciente
A doutrina da preexistência do espírito
está em intima relação com a da sobrevivência ao corpo.
A lei das vidas sucessivas vem em apoio a
esta verdade consoladora e luminosa.
A vida não começa no berço e não termina
no túmulo.
É nas vidas múltiplas na Terra e em outros
mundos que adquirimos, conhecimentos e vamos nos libertando da ignorância que
nos prende à infância do espírito.
É no perispírito que se gravam todas as
imagens fornecidas à mente pelo mundo exterior, ele é o repositório de todas as
aquisições, de todos os conhecimentos adquiridos, de tudo o que aprendemos,
vimos, ouvimos e sentimos através das existências que percorremos..
Está, portanto, no perispírito a sede
exclusiva da subconsciência.
A aceitação da subconsciência, em
determinadas condições, implica, portanto, a aceitação da preexistência e da sobrevivência
espiritual, bem como a reencarnação dos espíritos.
Quer isto dizer que os materialistas e os
espiritualistas que não aceitam a reencarnação, não podem invocar a teoria do
subconsciente para explicar fenômenos que estão na esfera do animismo; assim
não explicam, porque não aceitam a doutrina das vidas múltiplas, a razão de ser
da precocidade ou os "meninos prodígios", que tanto os maravilha.
De fato, como dar provas de conhecimentos
que se não se adquiriu na Terra, se a alma começa e termina com o corpo ou se a
alma, como dizem o Catolicismo e o Protestantismo foi criada com o corpo?
Como proclamar a "teoria do inconsciente"
- com "aquisições anteriores." se se tem certeza que o indivíduo, com
quem ou em quem se observa os fenômenos, nenhuma aquisição tem de tudo a que
disse e dos altos conhecimentos que manifestou?
Um indivíduo, por exemplo, em estado de
transe, de sonambulismo, fala do que não estudou, trata de assuntos altamente
científicos ou filosóficos que não estão ao seu alcance em estado normal,
quando não há aí interferência de um Espírito, uma outra personalidade, não há
dúvida que a "teoria do subconsciente" ai é manifesta, mas sem dúvida
alguma, também essa teoria não é um derivativo materialista e sim está
intimamente ligada aos princípios espíritas da preexistência e vidas
sucessivas.
O corpo humano nada pode; a espírito sim,
quando mais ou menos livre. dum. organismo denso e grosseiro que constitui o
seu invólucro na Terra, pode dominar esse invólucro, e ler, remontando à
corrente do passado, uma a uma, as páginas da sua existência integral, cujas
ações e idéias desfilam ao longo do trajeto de suas encarnações.
Inventem teorias e forças, e todas elas
passarão aos clarões vivificantes da Verdade que orientará as almas para os
destinos felizes que as esperam.
VII - Espírito - força e matéria
Não negamos a existência da força, como
não negamos as propriedades da matéria, mas não nos é possível admitir que a
uma ou a outra fossem concedidos os atributos que só ao Espírito foi permitido
gozar.
Espírito, força, matéria, eis, pois, a
trindade real, indefectível que se apresenta aos olhos humanos e cujo estudo
reclama a sua atenção.
Por que querer fazer abstração de um, que
é causa preponderante da manifestação das outras, quando no nosso modo de
julgar tudo o que se apresenta no cenário da vida não pode renunciar o fator
inteligente com as suas prerrogativas industriais, científicas e artísticas?
Diante de uma simples cadeira construída de
tábua nós reconhecemos uma entidade operante, uma inteligência e nem nos
lembramos da matéria e da força que se lhe acham adstritas; entretanto, em face
de coisas de muito maior valor e difícil execução que uma cadeira, negamos a
ação espiritual e nos perdemos no labirinto das teorias abstratas que não falam
ao sentimento, nem ao raciocínio!
Os fatos nada mais são que caracteres:
eles representam a palavra escrita das nossas aptidões, produtos do grau de inteligência
com que o Criador nos galardoou; e, quando esses fatos se manifestam de forma
que não podem ser produtos humanos, é que existem seres imperceptíveis aos
nossos limitadíssimos sentidos carnais que os engendraram para denunciarem aos
homens a existência de um mundo extracorpóreo, cujos Espíritos vivem, sentem,
amam e odeiam, e têm vontade própria, inteligência e liberdade de ação.
O homem não precisa fazer conjeturas,
refundir os elementos esparsos das filosofias incongruentes, idéias que se
chocam e se destroem para explicar as causas dos Fatos Espíritas que vêm
valorizar a Moral e dar novo incremento à ciência, porque as teorias
negativistas são como os castelos de cartas que caem ao mais leve sopro.
Mas, então, perguntar-nos-á o leitor: o
Espiritismo atribui aos Espíritos, às Almas dos que impropriamente chamamos
mortos todos os fenômenos psíquicos atualmente observados em todo o mundo? O Espiritismo
diz que todos os fenômenos são produzidos pelos Espíritos, não só
desencarnados, que constituem o mundo supra-sensível, mas também pelos
encarnados que vivem na Terra.
Aos primeiros deu-se o nome de fenômenos espíritas,
porque são produzidos pelas "almas dos mortos"; aos segundos,
anímicos, porque são produzidos pelas "almas dos vivos". Mas é sempre
a alma, o espírito, o autor das manifestações.
Desça o homem do pedestal em que
falsamente se colocou, e reconhecerá as suas aptidões, compreenderá a sua existência
independente do corpo carnal e sua sobrevivência à morte desse corpo,
instrumento que é da sua manifestação na Terra.
Para que fazer dos agentes causa, quando
nós sabemos, perfeitamente, que para todos os atos da vida não podemos
dispensar os intermediários da nossa vontade que a ela se acham subordinados?
Estamos nos tempos em que o raciocínio,
como atributo da inteligência, precisa ser aplicado para o discernimento do que
estudamos.
As palavras vãs nada explicam e ainda têm
o inconveniente de levar a desorientação àqueles que nos lêem, e que nos ouvem,
pois aceitam-nas às mais das vezes por subserviência, outras para fazer favor,
mas não por compreenderem e se convencerem do que dissemos.
Os fatos ai estão e vão se repetindo como
tem acontecido em todas as épocas.
Verifiquem os fatos, mas estudem-nos em
suas múltiplas fases que hão de encontrar neles este lema: Espiritismo.
VIII - Ciência bastarda
A inteligência foi doada às almas para a
conquista de seu progresso e de sua felicidade.
Rude no começo, cultivada depois e, por
fim esclarecida, vai ela se enaltecendo, crescendo em todos os conhecimentos,
até que em alto surto desvende horizontes amplos e se ponha em relação com a
natureza das coisas criadas.
Algemada a um amontoado de dogmas,
cerceada pelos mistérios, condenada à escravidão, presa aos estreitos círculos
do convencionalismo, a inteligência é como um pássaro enclausurado a quem se
fura os olhos: canta, trina as suas chorosas melodias, que não são mais que
repetir os anseios de liberdade, as reminiscências das alturas, onde em vôos altivos
expandia seu gênio livre em busca de outras terras e outros céus, outros ares,
outras paragens onde admirava as magnificências do Cosmos.
Querer delimitar a inteligência é
paralisar o seu progresso, é condená-la ao desespero, à loucura, à morte!
Qual a sábio, o escriba que se julga de
posse de todo o poder, de toda a crença, de toda a sabedoria, de toda a
verdade?
Qual dos humanos é o mais inteligente, o
mais rico de conhecimentos, o mais consciente dos seus dons, da sua tarefa, do
seu dever?
E aquele que paira nas alturas, como
ilustrou ele a inteligência, como adquiriu conhecimentos, compenetrou-se dos
seus dons e obteve a noção do cumprimento do dever?
Estas qualidades, verdadeiros ornamentos
da alma, tê-las-ia ele tirado dos dogmas, aprendido na abstração dos mistérios,
encontrado no convencionalismo do sectarismo religioso ou cientifico?
O que é a ciência de hoje senão e glória
adquirida pelos mártires da fé e da sabedoria?
O que será a ciência de amanhã senão os
louros que se vão colhendo no meio dos combates do pensamento, sustentado pelos
mártires da fé e da sabedoria?
Na história da humanidade e seu progresso
incessante para a Luz, salientam-se as grandes perseguições e os repetidos
ataques do oficialismo cientifico e religioso, contra as descobertas e contra
os missionários que, enfrentando o obscurantismo comodista, embora com
sacrifício da própria vida, têm abatido as barreiras da ignorância, fazendo
repercutir no mundo o retinir do camartelo do progresso, abrindo assim, às
inteligências, novas veredas promissoras dos altos destinos que nos esperam.
A inteligência não pode estacionar. Tudo
caminha, tudo evolui em busca de luzes mais claras, de felicidades mais
estáveis e verdadeiras.
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