Sergio F. Aleixo
No francês: L'Esprit de Vérité. Ou seja, literalmente, o Espírito portador da Verdade. Digo isso baseado no fato de que Kardec foi bem rigoroso certa vez, não admitindo a comunicação de um espírito que estendeu essa qualificação a todos os espíritos superiores. Se não, vejamos:
“O espírito que ditou a comunicação acima é, pois, muito absoluto no que concerne à qualificação de santo e não está certo quando diz que os espíritos superiores se dizem simplesmente ‘Espíritos de verdade’, qualificação que não passaria de um orgulho disfarçado sob outro nome, e que poderia induzir em erro, se tomado ao pé da letra, porque nenhum se pode vangloriar de possuir a verdade absoluta, nem a santidade absoluta.
A qualificação de ‘Espírito de verdade’ não pertence senão a um só, e pode ser considerada como nome próprio; está especificada no Evangelho. Aliás, esse Espírito se comunica raramente e apenas em circunstâncias especiais. Devemos pôr-nos em guarda contra os que se adornam indevidamente com esse título: são fáceis de reconhecer, pela prolixidade e pela vulgaridade de sua linguagem”.[1]
Anote-se, portanto, que tal qualificação só não seria orgulho disfarçado no caso especificado por Kardec. Isso confirma que ele acreditava que essa entidade fora mesmo Jesus quando esteve na Terra. Razão pela qual trata Jesus por l’Esprit de vérité no n. 48 de O Livro dos Médiuns, e atribui a presidência da regeneração planetária a Jesus, ou a l’Esprit de Vérité, tanto no n. 7 do cap. I de O Evangelho Segundo o Espiritismo quanto no n. 42 do cap. I de A Gênese, infracitados.
A esta altura, o leitor pergunta: iniciais maiúsculas ou minúsculas? Consta dos prolegômenos de O Livro dos Espíritos: L'ESPRIT DE VÉRITÉ, e da Revista Espírita de Nov/1861, a expressão de Kardec: “[...] mon guide spirituel: l'Esprit de Vérité”.[2]Portanto, maiúsculas. Espírito de Verdade ou da Verdade? No português, às vezes, os substantivos devem ser determinados por artigos. Um amigo de verdade será sempre um amigo da verdade? Certo que são coisas distintas. O que se quer, pois, não é dizer que o Espírito é de Verdade, mas da Verdade, por ser portador desta. Acresça-se a isso o publicado após a morte de Kardec em Obras Póstumas. Aos 25-03-1856, seu guia espiritual lhe diz: “Para ti, chamar-me-ei A Verdade (La Vérité)”. Aos 12-06-1856, o comunicado a Kardec sobre sua missão é assinado pelo Espírito Verdade (Esprit Vérité).
Então, o que há é Kardec publicando: l'Esprit de Vérité, e escritos não publicados por ele que consignam: La Vérité; Esprit Vérité e também l'Esprit de Vérité. A prevalência absoluta é para esta última forma, de iniciais maiúsculas. Muito rara é a grafia kardeciana mista: o Espírito da verdade, com “v” minúsculo; 1866, na Revista, e 1861, no Livro dos Médiuns, como vimos, em concordância com o latim da Vulgata. Segundo Kardec, “está especificada no Evangelho”. E de fato o Evangelium Secundum Joannem, XIV, 17, e XV, 26, registra Spiritum veritatis, e em XVI, 13, Spiritus veritatis.[3] Logo, o Espírito da Verdade, nunca o Espírito Verdade. O mesmo no grego, tò pneuma tês alêtheias, literalmente: o Espírito da Verdade, ou, para o Prof. Pastorino, o Espírito verdadeiro;[4] mas em tempo algum o Espírito Verdade.[5]
No final de contas, é o grande espírito que, no dizer de Kardec, preside o espiritismo e a regeneração planetária. Basta conferir o n. 48 de O Livro dos Médiuns; o n. 7 do cap. I de O Evangelho Segundo o Espiritismo e o n. 42 do cap. I de A Gênese:
“[...] enquanto uns atribuem todas as comunicações ao Diabo, que pode fazer bons ditados para tentá-los, outros pensam que Jesus é o único a se manifestar e que pode fazer maus ditados para experimentá-los. [...] Quando lhes advertimos com os casos de identificação, que atestam a presença de parentes, amigos ou conhecidos pelas comunicações escritas, visuais e outras, respondem que é sempre o mesmo espírito: o Diabo, segundo uns, o Cristo, segundo outros, que tomam aquelas formas. Mas não dizem por que razão os outros espíritos não podem comunicar-se, com que fim o espírito da Verdade[6] viria nos enganar sob falsas aparências, abusar de uma pobre mãe ao fingir-se o filho por ela chorado. A razão se recusa a admitir que o Espírito mais santo de todos venha a representar semelhante comédia. Além disso, negar a possibilidade de qualquer outra comunicação não é tirar do espiritismo o que ele tem de mais agradável: a consolação dos aflitos? Declaramos simplesmente que semelhante sistema é irracional e não pode resistir a um exame sério”.
“Ele [o espiritismo] é, portanto, obra do Cristo, que o preside, assim como preside ao que igualmente anunciou: a regeneração que se opera e que prepara o Reino de Deus sobre a terra”.[7]
“[...] o espiritismo realiza todas as promessas do Cristo em relação ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside o grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda está, dessa forma, realizada porque, de fato, ele é o verdadeiro Consolador”.[8]
[1] Revista Espírita. Jul/1866. Qualificação de santo aplicada a certos espíritos. 2.ª ed., F.E.B., 2007.
[2] F.E.B., 3.ª ed., 2007, p. 512.
[3] Biblia Sacra, Vulgatæ Editionis, Parisiis, 1838, p. 826/28.
[4] Sabedoria do Evangelho, 8.º Vol., p. 15. Diz Pastorino a propósito de João, XIV, 16-17: “Esse advogado é dito, logo a seguir, o Espírito verdadeiro (tò pneuma tês alêtheias). Ainda aqui afastamo-nos da tradição, que apresenta a tradução literal: ‘o Espírito da Verdade’.”
[5] Cf. adiante Silvino Canuto Abreu, rustenista.
[6] No francês: l’Esprit de vérité; um erro, portanto, que na 18.ª ed., L.A.K.E., 1994, p. 55, tradução de Herculano Pires, esteja minúsculo para “espírito” e maiúsculo para “Verdade”, em vez do contrário. Já na 22.ª ed., L.A.K.E., 2002, p. 45, está maiúsculo para “Espírito”, mas não minúsculo para “verdade”, como deveria ser neste caso. Guillon Ribeiro, para a F.E.B., traduz “Espírito da Verdade”, embora, não faça como Herculano Pires que, acertadamente, opta sempre, em todos os casos, pela forma determinada: “da”.
[7] Trad.: J. Herculano Pires. 59.ª ed., L.A.K.E., 2003.
[8] Trad.: Albertina Escudeiro Sêco. 2.ª ed., Léon Denis Gráfica e Editora, 2008.
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IMAGENS DA DOCUMENTAÇÃO LATINA NA ÍNTEGRA




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