a partir de maio 2011

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ÉTHOS, SINCRETISMO E IDENTIDADE DO ESPIRITISMO BRASILEIRO

Jáder dos Reis Sampaio (1)

I ÉTHOS, SINCRETISMO E IDENTIDADE
 
A Antropologia, face às mudanças culturais em curso no cenário de globalização (Velho, 1997; Offe, 1999) tem redobrado suas atenções com a religião. Offe (1999) entende que diante da globalização cultural, as religiões se tornam um elemento identitário importante, uma instância de um grupo social que, ao lado dos elementos universalizantes da globalização, afirma sua identidade social, em um esforço de manter-se particular. Otávio Velho (1997) constata uma certa pentecostalização da religião, uma erosão do seu caráter racional, substituído pelo carisma das novas designações religiosas em ascensão.
 
Clifford Geertz (1989), antropólogo norte-americano, ficou conhecido por seus estudos de culturas muito diferentes da americana, empregando métodos etnográficos, e por sua abordagem não apenas descritiva, mas interpretativa destas culturas. Ao abordar uma cultura estranha, ele buscava a visão dos “nativos” e como davam sentido ao que faziam.  Encontra-se em seus trabalhos uma preocupação com o éthos [1], a visão de mundo [2] das pessoas nestas sociedades, como um caminho que permite a compreensão mais ampla dos atos considerados ingênuos, primitivos ou irracionais aos olhos dos estrangeiros.
 
Não se confunde éthos ou êthos com ética. O éthos é um termo empregado pela Antropologia para o estudo da moral de uma comunidade ou grupo, não importando se a mesma é ou não justificada racionalmente ou miticamente. A Ética é uma disciplina da Filosofia que estuda a moral, os valores, os costumes e as razões que se emprega para justificá-los. Pode-se dizer que há um éthos espírita (a moral, os valores, os costumes que se observa na comunidade espírita ou em um segmento dela) e uma ética espírita (o pensamento filosófico que justifica a moral, os valores e os costumes). Pode haver algum afastamento entre o éthos e a ética espírita.
 
O sincretismo religioso brasileiro, que é uma mescla de elementos de religiões diferentes, é bastante conhecido e discutido (Sanchis, 2001; Paiva, 1999, 2004), e não se nega a sua presença no movimento espírita, mas há que se fazer algumas ressalvas.
 
Primeiramente há que se acentuar a existência de instituições, identidades e visões de mundo e de homem diferentes entre espíritas, católicos, evangélicos, umbandistas, membros de cultos africanos e de religiões orientais.
 
Em segundo lugar, há algum contato ou trânsito entre estas religiões, seja em sua origem, seja em sua trajetória. Católicos, evangélicos e espíritas são religiões cristãs, no sentido de valorizarem de alguma forma os evangelhos, os ensinos de Jesus Cristo e de seus apóstolos e discípulos. São diferentes manifestações culturais do Cristianismo. O Candomblé tem suas origens no culto africano dos orixás, sendo passível de alguma mimese com elementos do catolicismo, explicada pela imposição do catolicismo aos escravos pelo colonizador português e, posteriormente, pelos donos de escravos brasileiros. A Umbanda é uma religião que se fundou a partir de uma fusão de elementos dos cultos africanos, do Espiritismo, do Catolicismo e dos cultos indígenas (Amorim, 1993), sendo, portanto, fruto de sincretismo.
 
Em terceiro lugar, há uma grande tolerância de trânsito entre religiões em grande parte da sociedade brasileira, tolerância esta que se acentuou nos últimos anos, e que talvez seja um dos elementos do sincretismo religioso. Não é incomum que uma pessoa frequente ou participe de duas ou mais religiões, que faça sínteses próprias das ideias religiosas, que são mais ou menos aceitas nos espaços religiosos.
 
Em quarto lugar, todas as religiões comportam certa variedade de ideias e de práticas, para desespero dos pesquisadores que as procuram demarcar, e essa variedade não necessariamente é fruto de contato com outras religiões, podendo ser resultado de uma dinâmica interna dos próprios membros, envolvendo discussões, jogos de poder, carisma, ou seja, elementos racionais e irracionais. De qualquer forma, pode-se aplicar por aproximação a imagem que Imre Lakatos desenvolveu para a ciência: haveria um “núcleo duro” de valores, ideias e práticas que os membros consideram essencial no processo de identificação e um espaço mais permeável de variações que são aceitas sem que se discuta a identidade dos membros.
 
Mais uma consideração: há uma dinâmica da identidade dos profitentes, que reconhecem, ou não, outra pessoa como membro, e nesta dinâmica há uma espécie de regulação da pertença.
 
II A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO ESPIRITISMO
 
Apesar da recusa de grande parte do movimento espírita em aceitar o termo kardecismo, este é amplamente usado e de alguma forma compreendido pela população brasileira como elemento de distinção entre o Espiritismo e outras religiões, especialmente das demais religiões e cultos chamados “de possessão” de origem afrobrasileira. O termo kardecismo, ainda que impreciso, demonstra a centralidade e a influência que o autor francês tem sobre o movimento espírita brasileiro.
 
Na França do século XIX, a criação da palavra Espiritismo se deu como forma de distinguir a construção doutrinária que se fazia a partir do diálogo com os espíritos, de outro movimento social preexistente, o chamado “espiritualismo moderno” (Wallace, 2003), fruto do mediunismo e da pesquisa psíquica em terras anglo-saxãs. Kardec desenvolveu ideias, práticas e uma ética que traziam alguns elementos conflituosos com os espiritualistas modernos, tais como a doutrina da reencarnação e a mediunidade gratuita.
 
A obra de Kardec, especialmente seus livros, tem diferentes enfoques temáticos. “O Livro dos Espíritos” traz uma rápida apresentação das pesquisas que fundamentaram a crença na existência dos espíritos, e se constitui em um tratado filosófico e uma apresentação ampla e sistemática de uma cosmologia, ontologia e ética espíritas. “O Livro dos Médiuns” tem por objeto a mediunidade, sua teoria, pesquisa e prática. “O Evangelho Segundo o Espiritismo” por sua vez, é o desenvolvimento de uma ética e de uma hermenêutica evangélica baseada nos conceitos espíritas.
 
Kardec discute intensamente a questão do caráter do Espiritismo, e chega a fazer uma tipologia de espíritas em O Livro dos Médiuns: os “espíritas sem o saberem”, os “espíritas experimentadores”, os “espíritas imperfeitos”, os “espíritas cristãos”ou “verdadeiros espíritas” e os “espíritas exaltados”. Na Revista Espírita de setembro de 1869 foi publicada uma correspondência de Kardec na qual ele propõe uma aproximação entre espíritas e espiritualistas modernos.
“(...) Só se conhecem na América os argumentos contra a reencarnação. Quando as demonstrações em favor desse princípio ali se tornarem populares, o Espiritismo e o Espiritualismo não tardarão a se confundir e se tornarão, por sua fusão, na Filosofia natural adotada por todos.” (Kardec (1869), p. 195).
Nos primeiros anos do trabalho de Kardec, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas afastou do Espiritismo o caráter religioso, proibiu estatutariamente a discussão de questões religiosas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e convidou os membros das mais diversas religiões ao estudo dos fenômenos e da literatura espírita. Não obstante, ainda na década de 60, dois ou três dos livros da codificação foram publicados no Index Prohibitorum, o que deixa clara a relação que o catolicismo da época adotou quanto ao espiritismo.
 
Os primeiros registros do Espiritismo no Brasil têm por personagem Luiz Olympio Telles de Menezes, na Bahia, com a publicação do periódico “O Eco de Além Túmulo”.  Neles se observa a influência do catolicismo no texto do autor, o que gerou um comentário do então editor da Revista Espírita na França:
“Outras passagens, referindo-se a questão religiosa, dão-nos ocasião para algumas reflexões críticas. (...) Para nós o Espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa determinada. (...)” (Desliens, 1869).
O comentário do editor não se deveu a comentários evangélicos, tão comuns nos textos da própria Revista Espírita, mas a uma verdadeira declaração de filiação ao catolicismo feita por Telles de Menezes, como se pode ler abaixo [3]:
“Catholico, como somos, de nascimento e de crença, d’o que  assás  nos-congratulàmos,  dirigindo  ào Supremo Creador uma fervorósa préce, para que, em nossa humildade,  possàmos sempre glorificar sua Infinita Bondade, não podemos ser indifferentes ás feições characteristicas d’o Spiritismo ’n-o Brazil.
 
Na primeira communicação, que obtivemos, nota-se que o Spirito, que se-manifestou, começou por dar um testemunho não equivoco d’a sublimidade d’a Religião Catholica, porquanto, procurando  nós  verificar a identidade d’o Spirito, que se-annunciava Anjo de Deos, pedimos que se-dignasse de ractificar o, que de-clarára ser, jurando em nome de Deos: esse elevado Spirito jurou,   immediatamente, pel-o Sagrado nome de Maria Santíssima, e por Deos Todo Poderoso, ser, effectivamente, o Anjo de Deos.
 
Diversos communicações temos recebido, e em todas ellas os dogmas d’a nossa Santa Religião são sempre respeitados e confirmados por conselhos, explicações e até exemplos dados por modo tão singular e extraordinario que impossivel é à nós referil-os; apenas podemos render o testemunho de nossa ampla convicção e inabalavel crença:  e à todas essas manifestações preside o Anjo de Deos, que de sua identidade sempre dá as mais sublimes próvas.”(Menezes, 1869).
Ainda assim, Telles de Menezes teve que defender seu direito à prática espírita e sofreu sanções de autoridades católicas, que no Brasil tinham influência não apenas espiritual, mas secular.
 
Na corte, os livros de Kardec foram importados em francês, lidos pelos que dominavam este idioma e posteriormente traduzidos para o português, possivelmente a partir de 1860 (Abreu, 1981).
 
O caráter doutrinário amplo gerou inúmeros debates entre os membros da primeira geração de espíritas brasileiros (Abreu, 1981) que se identificavam alguns com os escritos de caráter mais filosófico-científico e outros com as publicações de caráter mais evangélico-religioso. Houve disputas nas primeiras instituições, criação de rótulos com o caráter um tanto pejorativo como os “espiritistas puros” (que aceitavam “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”, apenas), os “científicos” (que desejavam o desenvolvimento do Espiritismo como ciência experimental) e os “místicos” (que valorizavam o estudo do evangelho e a prática da caridade).
 
Foram trazidos e estudados também os livros organizados por J. B. Roustaing, e os seus “Os Quatro Evangelhos” eram discutidos em diversos núcleos espíritas. Como Roustaing defende teses conflituosas com o pensamento kardequiano, o adjetivo roustainguista ou roustanista, atribuído a muitos dos membros da Federação Espírita Brasileira, passou a ser outro elemento importante na construção da identidade do movimento espírita brasileiro. Até nos dias de hoje se discute (talvez, com menos virulência) se o pensamento roustanista pode ou não ser considerado espírita, mas a influência de “Os Quatro Evangelhos” é bem pequena e já não é mais uma polêmica acalorada, embora ainda apareça pontualmente na mídia espírita.
 
A perseguição policial aos médiuns de diversas religiões e a legislação contra as práticas mediúnicas, bem recuperada por Giumbelli (1997), parece ter aproximado os membros do movimento espírita, que passaram a pleitear o direito à livre-associação e a criticar a associação da imagem do Espiritismo ao charlatanismo e a práticas de estelionato pelo poder público. Como a legislação não distinguia Espiritismo de Cultos Africanos e Afro-brasileiros, e obviamente a sociedade brasileira não fazia qualquer associação entre Catolicismo e Espiritismo, ela contribuiu para uma difusão e mesmo para algum sincretismo entre Espiritismo, Umbanda, Candomblé, e outros “cultos de possessão” [4].
 
Na Europa, o movimento espírita realizava congressos espíritas e espiritualistas, e houve algum intercâmbio no final do século XIX e início do século XX entre espíritas e, por exemplo, os teosofistas e esoteristas, que aproximavam práticas mediúnicas a doutrinas orientais. Este intercâmbio também aconteceu no Brasil, mas sua história é pouco documentada. Autores como Edgard Armond apresentam uma influência de origem oriental em seus escritos.
 
No início do século há notícias de pessoas ou grupos que discordaram de algumas das ideias espíritas e que fundaram núcleos próprios. Um caso exemplar é o do movimento religioso que passou a se denominar “Racionalismo Cristão”. Criado no início do século XX por Luiz de Mattos, um espírita insatisfeito com as condutas do movimento, ele fundou o Centro Redentor e editou os livros que passaram a ser utilizados pelos adeptos da nova designação. A literatura do Racionalismo Cristão não deixa dúvidas quanto à pretensão de criação de uma nova doutrina:
“Luiz de Mattos não apenas descobriu (a) o espiritismo científico como também fundou e codificou uma nova filosofia baseada nos verdadeiros princípios cristãos.” (A Vida Fora da Matéria, p. 43) (b).
 
(a) Descobrir nesta frase não tem o sentido de criar, mas de encontrar. Ele procurou o Espiritismo em decorrência de uma enfermidade familiar.
(b) A Vida fora da Matéria foi encontrado na internet em 
http://www.inf.ufg.br/~hadn/rc/pdf/avida.pdf e encontra-se sem autoria, ou com autoria omitida. Parece ser um livro coletivo atribuído ao Racionalismo Cristão.
Outras designações foram criadas a partir de pessoas que, discordando de elementos importantes da visão de mundo ou do éthos espírita vigente, decidiram criar algo novo, geralmente agregando elementos de outras fontes, filosóficas, científicas ou religiosas. É o que se constata na Projeciologia criada por Waldo Vieira, na Metafísica de Gasparetto, na Renovação Cristã do interior de São Paulo ou nos grupos orientados pela obra de Ramatis.
 
A existência de um corpo de doutrina e um éthos não eximiram o movimento espírita de debatê-los continuadamente. A identidade do Espiritismo é uma questão permanente e está em pauta neste momento em que o movimento brasileiro se mobilizou conjuntamente com o movimento  espírita  de  outros  países  na  constituição  do Conselho Espírita Internacional.
 
A delimitação de uma identidade espírita está presente, por exemplo, na obra de Deolindo Amorim (Amorim, 1947, 1993), publicada originalmente nos anos 40 a 70. Nela se pretende demarcar fronteiras do pensamento e da prática entre o Espiritismo e as demais religiões que aceitam a sobrevivência da alma humana, em prática no Brasil. Esta singularidade da identidade tem sido institucionalmente reforçada por eventos promovidos pelos órgãos federativos e por recomendações escritas, como a recente comunicação do Conselho Federativo Nacional (Conselho Federativo Nacional, 2006).
 
Se existe sincretismo, este não é incentivado nem aceito pelas instituições federativas e associativas, que, bem ou mal, representam um coletivo de instituições espíritas. Considerando a possível influência católica na constituição do Espiritismo Brasileiro, pergunta-se: o que se pode denominar como sendo o éthos espírita?
 
III ÉTHOS E VISÃO DE HOMEM NA OBRA KARDEQUIANA.
 
A fonte mais influente para o entendimento do movimento espírita brasileiro em geral (Cavalcanti, 1983) em nossos dias, ainda é a obra de Allan Kardec, em que pese a grande penetração e influência do trabalho do médium mineiro Francisco Cândido Xavier (Maior, 2003) e o surgimento abundante de literatura espírita.  Focalizou-se a análise em Kardec, por se entender que a obra de Chico Xavier possui poucos pontos de litígio com o pensamento kardequiano [5].
 
O Espiritismo é um corpo de doutrina codificado inicialmente por Allan Kardec (pseudônimo do Prof. Hippolite Léon Denizard Rivail [6]), na França da segunda metade do século XIX, que trata da “natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal” (Kardec (1980), p. 50). Apesar de, em suas origens, ter se dedicado à observação de fenômenos mediúnicos, a interlocução com seus agentes possibilitou o desenvolvimento de uma visão de mundo complexa e lançou bases para a proposição de uma doutrina social espírita.
 
Foge ao objetivo deste trabalho fazer uma análise detalhada da cosmologia espírita, que já foi objeto de outros autores de dentro e de fora do universo espírita (Giumbelli, 1998; Cavalcanti, 1983). Deter-se-á na visão de homem, em seu éthos, pontos que são fundamentais para o entendimento da visão de mundo compartilhada pelos espíritas.
 
Em toda a obra kardequiana se encontra uma preocupação com a construção de uma ética racional, calcada nos princípios espíritas. O ser humano é apreendido como um ser espiritual, que encarnou no mundo em busca de evolução. A vida de relação, portanto, possui um significado transcendente e tem um sentido que só pode ser plenamente apreendido se for considerada a finalidade do homem, que é o seu aperfeiçoamento interior, o seu desenvolvimento intelectual e moral.
 
O pensamento kardequiano tem, em um de seus pilares, a existência de Deus e a defesa da justiça divina. Neste ponto, as diferenças sociais são explicadas por uma teoria complexa, que envolve os efeitos da ação de um homem imperfeito no mundo [7] que tem liberdade de ação, mas se torna responsável por seus atos, vindo a sofrer na existência em que se encontra, ou nas existências futuras, as consequências do que faz [8]. Com esta perspectiva existencial ampliada pela reencarnação e pela noção de evolução, o sofrimento que o indivíduo é incapaz de evitar não é visto como um mal em si, mas como uma experiência pela qual passa o espírito para a compreensão das leis universais e para a sua transformação.
 
Apesar de justificar o sofrimento em um plano divino [9], o Espiritismo não propõe que, no plano dos homens, se justifiquem as grandes assimetrias sociais [10], o que fez com que essa doutrina fosse identificada com o pensamento dos reformadores sociais da Europa do século XIX.
 
Enquanto ser-no-mundo, espírito encarnado, é um dever ético do espírita o seu autoconhecimento [11], o seu autodesenvolvimento intelectual e moral [12] e a sua ação humanitária, “sem distinção de raças, nem de crenças” (Kardec (1978a), p. 423), seja como membro da sociedade ou como membro de uma instituição.
 
Uma das consequências do pensamento espírita para as transformações sociais é o entendimento de que as mudanças sociais estão condicionadas às transformações éticas dos indivíduos. Esta posição não se confunde, porém, com o individualismo à moda Smithiana, uma vez que o indivíduo em Kardec é considerado, quando evoluído, um “homem de bem”, que:
Encontra satisfação nos benefícios que espalha, nos serviços que presta, no fazer ditosos os outros, nas lágrimas que enxuga, nas consolações que prodigaliza aos aflitos. Seu primeiro impulso é para pensar nos outros antes de pensar em si, é para cuidar dos interesses dos outros antes do seu próprio interesse. O egoísta, ao contrário, calcula os proventos e as perdas decorrentes de toda ação generosa. (Kardec (1978b), p. 285).
Calcando-se na ética cristã, Kardec propõe como valores a benevolência para com todos, o respeito às convicções sinceras, a prática da caridade, a indulgência com as fraquezas do outro, a discrição com os defeitos alheios, a humildade, o desligamento dos bens materiais e das riquezas, o tratamento com bondade e benevolência aos que se tem sob mando, o cumprimento consciencioso dos deveres enquanto subordinado e o respeito aos direitos dos semelhantes (Kardec (1978b), p.  284-287). Uma vez identificada a proposta ética espírita à proposta cristã (Kardec (1978b), p. 287), o escritor francês reconhece o caráter conflituoso desse projeto individual com os impulsos e desejos humanos, ao escrever:
Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más. (Kardec (1978b), p. 288).
Como consequência, há duas arenas privilegiadas para a ação social espírita: o cotidiano, uma vez que a proposta ética espírita propõe a transformação do homem na sociedade, e o centro espírita, que possui, pelo menos, um triplo caráter, o de espaço privilegiado para a comunicação com os espíritos, o de lugar dedicado, mas não exclusivo, de estudo da doutrina, e o de exercício da caridade em sua dupla dimensão [13]: moral e material.
 
Na obra kardequiana, as recomendações referentes à gestão da obra social espírita são pontuais, especialmente se este conceito for circunscrito ao de assistência ou promoção social (caridade material).
 
Em O Evangelho segundo o Espiritismo”, encontram-se alguns textos que influenciaram a organização da obra social espírita brasileira. Kardec empregou uma máxima em referência a um dogma da igreja (fora da igreja não há salvação), que foi profundamente assimilada pelo movimento espírita brasileiro: fora da caridade não há salvação. Ele se funda no princípio da igualdade dos homens e da liberdade de consciência. Esta noção de caridade, entretanto, é ampla. Como já foi visto, ela não se circunscreve a atividades assistenciais.
 
Ao tratar do tema da desigualdade das riquezas, o espírito Fénelon defende que as riquezas sejam usadas em benefício mais amplo, considerando o emprego altruísta dos bens como um imperativo ético [14].
A beneficência é apenas um modo de empregar-se a riqueza; ela dá alívio à miséria presente; aplaca a fome, preserva o frio e proporciona abrigo ao que não o tem. Dever, porém, igualmente imperioso e meritório é o de prevenir a miséria. Tal, sobretudo, a missão das grandes fortunas, missão a ser cumprida mediante os trabalhos de todo gênero que com elas se podem executar.  (Kardec (1978b), p. 275).
O emprego da riqueza em atividades beneficentes é uma constante nas diversas atividades espíritas brasileiras, como se verá nos estudos realizados por antropólogos, mas o tema da prevenção da miséria não foi igualmente desenvolvido nestas organizações, que se focalizaram em atividades de beneficência.
 
Há diversas mensagens transcritas por Kardec que incentivam o espírita a atuar em benefício de determinados públicos: criminosos (Kardec (1978b), p. 200-201), leprosos e mendigos (Kardec (1978b), p.228), miseráveis (Kardec (1978b), p.233-234), órfãos (Kardec (1978b), p. 240), necessitados de diferentes opiniões, crenças e partidos (Kardec (1978b), p. 241) e famílias (Kardec (1978b), p. 233-234).
 
De uma forma geral, condena-se a esmola que humilha, mas se incentiva a beneficência silenciosa, ações de reconhecimento como a “. . . de uma boa palavra,  de uma carícia, de um sorriso amistoso.” (Kardec (1978b), p. 240), visitação a instituições asilares e realização de trabalhos em benefício de terceiros, como a confecção de roupas.
 
Um dos princípios apresentados por Kardec (que se baseia na crítica do orgulho) repousa na ideia de dar sem esperar retribuição. A realização das atividades é sempre sem promoção individual:
Silêncio.  (...) Não o digas a ninguém. Falava assim Jesus. (Kardec (1978b), p. 223).
Um dos ditados espirituais que influenciou os leitores brasileiros de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” é um relato do espírito Cárita, que conduz o leitor a uma visita a uma comunidade de miseráveis, para, a seguir, apresentar um grupo de senhoras que trabalham para auxiliar famílias durante o inverno europeu e que costuram, confeccionam roupas para socorrê-las. (Kardec (1978b), p. 233-234).
 
O espírito São Vicente de Paulo entende que a obra que ele realizou enquanto encarnado é uma das que “mais hão de contribuir para o alívio dos semelhantes”.
 
Como se pode observar, as obras mais conhecidas de Kardec tratam da ação social em uma perspectiva individual, quando muito, grupal. Kardec (1978c) escreve sobre a instituição espírita em um projeto publicado na Revue Spirite de 1868 e incorporado posteriormente no livro “Obras Póstumas”. Neste trabalho, ele trata da obra assistencial como uma das “instituições acessórias”, e propõe a organização de um dispensário (para consultas médicas gratuitas) “sob a direção de um médico diplomado”, uma caixa de socorros e previdência, um asilo. Por fontes de recursos, ele sugere uma “caixa geral” e donativos.
 
A caixa geral seria mantida por associados de uma organização espírita, que fariam contribuições e participariam com cotas. Mas ele propõe que os recursos sejam capitalizados e transformados, com o tempo, em uma “renda perpétua”, objeto de uma contabilidade rigorosa, cujas despesas seriam ordenadas pelos membros de uma comissão central e fiscalizadas por comissários designados para este fim, em assembleias gerais ou em congressos.
Proporcionalmente, com os recursos deste capital é que a comissão proverá às diversas despesas proveitosas ao desenvolvimento da Doutrina, sem que jamais faça dele aplicação pessoal, nem fonte de especulação para qualquer de seus membros. (Kardec (1978c), p.374).
Em síntese, estes são os elementos do ethos kardequiano e de sua visão de homem:
 
Quadro 1:  Síntese do ethos e visão de mundo da obra kardequiana.


Elementos de Análise Cultural


Obra Kardequiana


Visão de Mundo

a) Calcada na existência de Deus e na Justiça Divina.
b) Noção ampliada de mundo e de sociedade (mundo físico e mundo dos espíritos).


Visão de Homem


a) Espírito encarnado, dotado de liberdade de escolha, mas responsável por suas ações


Éthos: Fundamentos

a) Propõe a construção de uma ética racional baseada em uma leitura dos princípios valorativos cristãos.


Éthos: Valores

a) Benevolência para com as outras pessoas.
b) Respeito às convicções sinceras.
c) Humildade.
d) Cumprimento consciencioso dos deveres.
e) Desligamento dos bens materiais.


Éthos: Imperativos

a) Autoconhecimento.
b) Autodesenvolvimento moral e intelectual.
c) Ação humanitária.

Fonte: Kardec (1978a,b,c, 1980). Quadro reproduzido de Sampaio (2004).
 
IV DISCUSSÃO
 
Entendendo o éthos como um elemento importante na dinâmica da construção da identidade e, portanto, da regulação da pertença, o movimento espírita se vê ante novos desafios.
 
Como se constatou, a história do movimento espírita brasileiro apresenta cisões e rupturas que têm por base a concepção de doutrina espírita e um confronto identitário e do éthos espírita. O projeto majoritário, representado institucionalmente pela Federação Espírita Brasileira e a grande maioria dos centros espíritas brasileiros têm por centro um éthos depreendido da obra de Allan Kardec, especialmente dos seus escritos cristãos, que envolve um fundamento racional, valores muito identificados com determinado conjunto de valores cristãos e alguns imperativos éticos voltados ao desenvolvimento pessoal e ação humanitária.
 
As novas propostas que surgem, seja pela multiplicação de editoras de temas espiritualistas interessadas no segmento espírita da população, seja pela tensão entre movimento espírita e movimentos sócio-políticos, seja pela ampla difusão de ideias associadas ao espiritismo, como a comunicação dos espíritos, a reencarnação e outras, pela grande mídia, acenam para debates sobre o éthos, a ética e a identidade espírita.
 
Novas fontes de sincretismos têm surgido, como o nascimento de um éthos da prosperidade, distinto do éthos neopentecostal (da Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo), com influência da mediunidade new age anglo-saxã, profissionalizada e passível de ser usada comercialmente. Os estudos de Sandra Stoll apontam para uma ética da prosperidade, na observação de campo que ela fez com Gasparetto.  O futuro, entretanto, mostrou que o núcleo identitário do movimento espírita não tem aceitado suas propostas e ele próprio autodenominou-se metafísico, rompendo, assim, com a desconfortável identidade espírita.
 
Outro movimento seria uma neo-umbandização do espiritismo, fruto do trabalho de médiuns oriundos ou de passagem pelo movimento espírita, mas que se colocam em defesa do sincretismo da racionalidade espírita com o mito africano, projeto de difícil realização por sua inconsistência essencial.
 
Uma terceira proposta com efeitos identitários e éticos, é uma espécie de revivescência de um segmento do movimento francês do século XIX, que inspirado em Flammarion desejava que o espiritismo se reduzisse a uma ciência experimental (no sentido que era empregado por Comte e os positivistas clássicos), negando a teoria e doutrina proposta por Kardec para desenvolver um novo programa de pesquisas. Começar do zero, seja replicando o método de Kardec em meio aos médiuns atuais ou abandonando a terminologia espírita para sustentar algumas ideias  espíritas como a reencarnação e a comunicabilidade dos espíritos com base exclusivamente empíricas, negando ou suspendendo as investigações que se fizeram com base no diálogo com os espíritos, granjeia adeptos, mas igualmente não ressoa nas instituições espíritas, nem tem produzido um conhecimento que sustente uma nova forma institucional para o espiritismo.
 
Outra proposta de ruptura que afeta a identidade do movimento é a do espiritismo laico, que põe em questão os princípios éticos e o éthos espírita construído a partir do pensamento cristão, ao conceber que o espiritismo não é uma religião. Pela complexidade do tema, não é possível desenvolvê-lo com propriedade neste texto, mas ele tem por base a obra de Porteiro, espírita argentino que buscou uma articulação entre o pensamento espírita e as propostas sociais do início do século XX. Mesmo sendo voto vencido no Congresso Internacional Espírita de 1934, ele se tornou um porta-voz deste sincretismo político-doutrinário na América Latina, com maior ou menor penetração no movimento que se identifica com o espiritismo, especialmente nos países de língua espanhola.
 
Diante de tantas tensões, um conhecimento substantivo do pensamento de Kardec é uma necessidade inadiável ao movimento espírita atual. Esta análise envolve tanto a racionalidade da doutrina espírita quanto seu caráter ético, para que os grupos que se identificam como espíritas possam se posicionar ante as novas propostas e as novas velhas propostas para o movimento.
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[1] Segundo o Houaiss, éthos é o “conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região”. Geertz (1989), como hermeneuta das culturas, reserva ao éthos as dimensões morais e estéticas de um sistema cultural que permite a seus membros “interpretar a sua experiência e organizar a cultura”. O Houaiss distingue éthos de êthos atribuindo a esta última palavra a moral de um indivíduo, seu caráter.
 
[2] Segundo o Houaiss, cosmovisão ou visão de mundo é a concepção do mundo. Geertz (1989) reserva à visão de mundo ou cosmovisão os aspectos cognitivos da interpretação da experiência dos membros de uma comunidade ou sociedade.
 
[3] Manteve-se a grafia da época da publicação do texto.
 
[4] Os antropólogos entendem por cultos de possessão às práticas nas quais se aceita culturalmente que houve uma “invasão de uma pessoa por um espírito (Pimentel, 2005). Rigorosamente, esta definição deixaria o Espiritismo de fora (os espíritas não aceitam a ideia de invasões espirituais de corpos, mas de influências mais ou menos acentuadas), mas como eles normalmente incluem o Espiritismo nesta designação, far-se-á uma concessão.
 
[5] Esta posição não é unânime, pois é questionada pelo estudo de Lewgoy (2001) que advoga uma tese alternativa.  Ele, entretanto, baseou-se mais no mito Chico Xavier, construído por seus biógrafos, que em sua obra propriamente dita.
 
[6] Sobre os diferentes registros do nome de Rivail, ver Martins, J. Barros, S. (1999).
 
[7] Kardec (1978a), p. 376.
 
[8] Kardec (1978a), p. 459.
 
[9] Kardec (1978b), p. 102.
 
[10] Kardec (1978a), p. 377.
 
[11] Kardec (1978a), p. 423-426.
 
[12] Kardec (1978a), p. 363.
 
[13] Kardec (1978b), p. 226-229.
 
[14] Entende-se como imperativo ético, uma necessidade ou dever irresistíveis para que o homem e a humanidade atinjam seu fim: a evolução, o aperfeiçoamento individuais e coletivos.
 
REFERÊNCIAS
 
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Resumo - Art. N. 020201
 
J. Est. Esp. 2, 020201 (2014).
 
Resumo: Éthos e visão de mundo são dois conceitos de destaque na obra de Clifford Geertz, importantes no debate da construção e reconstrução da identidade frente a fenômenos de sincretismo em movimentos religiosos. Partindo deles, discute-se a proposta Kardequiana de éthos do espiritismo e sua inserção histórica no Brasil, a partir do século XIX. Aponta-se nesta trajetória os conflitos internos do movimento espírita e as novas instituições filosófico-religiosas que surgiram deles. As tensões entre tendências oriundas do positivismo na cultura brasileira e do cristianismo se reproduzem na história do movimento espírita brasileiro. O autor propõe um quadro para a síntese do éthos e da visão de mundo encontradas na obra de Kardec e discute quatro novos pontos de tensão contemporâneos apontados ou não por autores da antropologia, desafiando a identidade do espiritismo no Brasil.
 
Abstract: Ethos and worldview are two important concepts in Clifford Geertz anthropology. They are useful for the discussion about construction and reconstruction of identities in the phenomenon of religious syncretism. Here, based on these two concepts, the Kardec’s proposal for spiritist ethos and its historical trajectory in Brazil from XIX century are discussed. This work focus on the conflicts within the spiritist movement and points out the new philosophical and religious institutions originated from them. The author proposes a synthetic frame to analyse the concepts of ethos and worldview in Kardec’s books and discusses contemporary conflict themes in Brazilian spiritist movement, identified or not by anthropologists, that are posing challenges to the understanding of the Brazilian spiritist identity.  
 
© 2014 - Autor(es)
 
Palavras-Chave: Éthos, Espiritismo, Visão de Mundo.
KeyWords:  Ethos, Spiritism, Worldview.

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