Há momentos de euforia e entusiasmo no trabalho, seja ele qual for. Quando surge, porém, o desânimo, o abatimento, o intenso desalento, a única compensação mesmo é o pagamento pelo trabalho feito. Vive-se em função do bem-dito dia em que ele virá. E quando vem extremamente modesto, parco e irrisório, nasce um sentimento de dupla tristeza, até de revolta. Quando não há outra alternativa, ao menos no momento, empurra-se o dia-a-dia com a barriga. Vai-se vivendo, ao Deus dará, esperando, esperando, esperando... Se o trabalho não é remunerado, aí fica difícil manter a perseverança e a paciência, pois na grande maioria das vezes, as pessoas estão no lugar errado.
Há os que, por orgulho, por uma questão cultural mesmo, preferem ser um péssimo advogado do que um bom mecânico. Não sabem batalhar por um espaço de trabalho onde possam manifestar as suas verdadeiras aptidões, cuja natureza, amiúde, desconhecem.
A escolha da profissão, então, é crucial. A opção quase sempre é pragmática. Varia em função do valor de troca, de seu poder de venda, do resultado financeiro que irá trazer, mais nada. O resultado de tudo isso é a tristeza, a frustração, pois o trabalho ocupa grande parte de nossa vida. E ocupar o nosso tempo com uma atividade que não nos oferece prazer é um suicídio diário, uma tortura tenaz. Estamos falando do trabalho profissional, remunerado, recompensado pelo salário.
Mas e o trabalho não remunerado? Não nos referimos ao trabalho caseiro, principalmente o das mulheres que, mesmo trabalhando “fora”, suportam o ônus de uma dupla jornada diária de trabalho. Queremos nos reportar ao trabalho por um ideal superior, voltado para o bem comum. O estudo e a divulgação do Espiritismo é um ideal. Um verdadeiro ideal superior. Não tanto pelo conteúdo filosófico. Mas notadamente pelo fato de as atividades chamadas doutrinárias não serem remuneradas. O médium não cobra o passe ou a mensagem que psicografa. Nem o orador a conferência que profere.
O trabalho no movimento espírita é gratuito, feito de bom grado. É, portanto, um ideal superior, porque está acima da mesquinhez e do interesse. Pois aí reside a grande dificuldade em se trabalhar pelo Espiritismo. Se não há remuneração, qual então a compensação? Qual o pagamento, qual a recompensa?
IDEALISMO ESPÍRITA
Há os que trabalham visando um lugarzinho lá no Nosso Lar ou em alguma comunidade de Espíritos. Imaginam que estão acumulando créditos, promovendo um empréstimo de bônus-horas em seu íntimo, numa barganha mesquinha com a espiritualidade. Esquecem-se daquela milenar máxima de Jesus de Nazaré, “ignore a tua mão esquerda o que faz a tua direita”.
Quantos não doaram horas e horas de seu tempo, de seu lazer, a fim de garantir um lugar ao sol, bem ao lado de seus guias espirituais, ou do lado direito de Deus, de preferência, bem pertinho do Cristo? Trabalham e trabalham e trabalham, imaginando que estarão se garantindo quando houver, dizem, a separação entre os bodes e as ovelhas, entre o joio e o trigo. Têm medo de ficarem para trás, de não conseguirem se adaptar à Era de Aquários, como os esotéricos e místicos costumam exclamar, com os olhos piscando e as mãos bem abertas, como um iogue em noite de gala.
Há os que trabalham movidos pela vaidade, pelo exercício do poder, pela extrema necessidade de se sentirem exaltados. Querem sentir o seu ego cheio de graça e de esplendor. Outros, sem o saber, visam o preenchimento de um vazio indefinível. Não suportam a si mesmos, não possuem vida interior, querem se sentir preenchidos ao ponto de se tornarem workaholics, viciados pelo trabalho, deixando de lado à família, os filhos, a esposa, os amigos. Ou então se dedicam a determinado trabalho por estarem momentaneamente com problemas econômicos, afetivos, existenciais. Na medida em que se reciclam, se reestruturam, deixam de lado o trabalho, ou desaparecem talvez para nunca mais voltar.
Não podemos esquecer também o interesse mercantil que invade diversas mentes. Lucram com a boa vontade, desviam verbas e recursos adquiridos com muito esforço pelo voluntariado de determinada instituição através de atividades beneficentes. São verdadeiros abutres, sanguessugas que se aproveitam da boa vontade alheia.
Vários são os motivos que levam as pessoas a se dedicarem ao Espiritismo. Difícil mesmo (e fácil ao mesmo tempo) é o exercício de atividades doutrinárias sem visar uma contrapartida material. Isso exige desprendimento, uma equilibrada combinação entre a razão e o sentimento. A sinceridade, o altruísmo, quando associados a uma visão equilibrada de si mesmo e do mundo, produz o indivíduo idealista. É disso que o Espiritismo precisa de pessoas idealistas, em todos os seus níveis de atuação.
Todavia, por trás de tudo isso, há um componente imprescindível: a paixão. Sem paixão não há trabalho, não existe ideal. O que há é indolência, mesquinharia, futilidade. A paixão move montanhas, muito mais do que a fé. Pois a fé é cega. Já a paixão, ainda que míope ou hipermetrope, é realizadora, construtiva, empreendedora. É ela que nos move.
Quantos não doaram horas e horas de seu tempo, de seu lazer, a fim de garantir um lugar ao sol, bem ao lado de seus guias espirituais, ou do lado direito de Deus, de preferência, bem pertinho do Cristo? Trabalham e trabalham e trabalham, imaginando que estarão se garantindo quando houver, dizem, a separação entre os bodes e as ovelhas, entre o joio e o trigo. Têm medo de ficarem para trás, de não conseguirem se adaptar à Era de Aquários, como os esotéricos e místicos costumam exclamar, com os olhos piscando e as mãos bem abertas, como um iogue em noite de gala.
Há os que trabalham movidos pela vaidade, pelo exercício do poder, pela extrema necessidade de se sentirem exaltados. Querem sentir o seu ego cheio de graça e de esplendor. Outros, sem o saber, visam o preenchimento de um vazio indefinível. Não suportam a si mesmos, não possuem vida interior, querem se sentir preenchidos ao ponto de se tornarem workaholics, viciados pelo trabalho, deixando de lado à família, os filhos, a esposa, os amigos. Ou então se dedicam a determinado trabalho por estarem momentaneamente com problemas econômicos, afetivos, existenciais. Na medida em que se reciclam, se reestruturam, deixam de lado o trabalho, ou desaparecem talvez para nunca mais voltar.
Não podemos esquecer também o interesse mercantil que invade diversas mentes. Lucram com a boa vontade, desviam verbas e recursos adquiridos com muito esforço pelo voluntariado de determinada instituição através de atividades beneficentes. São verdadeiros abutres, sanguessugas que se aproveitam da boa vontade alheia.
Vários são os motivos que levam as pessoas a se dedicarem ao Espiritismo. Difícil mesmo (e fácil ao mesmo tempo) é o exercício de atividades doutrinárias sem visar uma contrapartida material. Isso exige desprendimento, uma equilibrada combinação entre a razão e o sentimento. A sinceridade, o altruísmo, quando associados a uma visão equilibrada de si mesmo e do mundo, produz o indivíduo idealista. É disso que o Espiritismo precisa de pessoas idealistas, em todos os seus níveis de atuação.
Todavia, por trás de tudo isso, há um componente imprescindível: a paixão. Sem paixão não há trabalho, não existe ideal. O que há é indolência, mesquinharia, futilidade. A paixão move montanhas, muito mais do que a fé. Pois a fé é cega. Já a paixão, ainda que míope ou hipermetrope, é realizadora, construtiva, empreendedora. É ela que nos move.
O EXEMPLO DE PORTEIRO
Foi com paixão, com amor, pois no trabalho esses dois sentimentos se confundem, que Allan Kardec elaborou o Espiritismo. Não fosse esse ideal apaixonado pela filosofia espírita e Léon Denis teria capitulado devido a sua debilitada saúde. O último livro que escreveu O Gênio Céltico e o Mundo Invisível (1927) foi totalmente ditado a sua secretária, Claire Baumard. Afora os gravíssimos problemas em seu organismo, Denis estava já completamente cego.
Nem o grande Jorge Luis Borges, também cego, teve tanta dificuldade de lançar um livro quanto o Druida de Lorena. Na história do Espiritismo temos exemplos os mais diversos. Muitos intelectuais, médiuns e lideranças espíritas passaram extremas dificuldades materiais durante o exercício de seu ideal. Mirem-se no exemplo de Chico Xavier, de Angeli Torterolli, de Jerônimo Mendonça, de Jésus Gonçalves.
Alguns se perderam pelos caminhos da desesperança e da revolta surda, sofrida. Muitos venceram os obstáculos. Um dos exemplos mais impressionantes é o do filósofo portenho Manuel S. Porteiro (1881-1936). No livro El Pensamiento Vivo de Porteiro - Homenage al Fundador de la Sociologia Espirita, recém-lançado pelo escritor venezuelano Jon Aizpurua, o pensamento dessa grande alma é descrita de uma forma singela, como singela e simples foi a vida de Porteiro.
De origem humilde, até os 18 anos não sabia ler nem escrever. Amargou muitas dificuldades financeiras. Durante anos ganhou a vida como trabalhador braçal de baixa qualificação profissional. Conseguiu superar os enormes obstáculos materiais e adquiriu, com um esforço hercúleo, uma cultura geral e espírita notáveis. Escreveu uma obra monumental, Espiritismo Dialético, ainda desconhecida no Brasil. Lançou livros, redigiu artigos, proferiu conferências, ministrou cursos, dirigiu instituições espíritas.
Porteiro deixou um rastro de luz e conhecimento que não ficou restrito ao seu querido país, Argentina. Mesmo com a saúde debilitada — chegou a ter uma das pernas amputada — não esmoreceu, não abandonou o seu ideal. A vida de Porteiro é um exemplo vivo de que é possível superar todas as dificuldades materiais que a vida e a sociedade nos impõe, em prol de um ideal superior.
Nem o grande Jorge Luis Borges, também cego, teve tanta dificuldade de lançar um livro quanto o Druida de Lorena. Na história do Espiritismo temos exemplos os mais diversos. Muitos intelectuais, médiuns e lideranças espíritas passaram extremas dificuldades materiais durante o exercício de seu ideal. Mirem-se no exemplo de Chico Xavier, de Angeli Torterolli, de Jerônimo Mendonça, de Jésus Gonçalves.
Alguns se perderam pelos caminhos da desesperança e da revolta surda, sofrida. Muitos venceram os obstáculos. Um dos exemplos mais impressionantes é o do filósofo portenho Manuel S. Porteiro (1881-1936). No livro El Pensamiento Vivo de Porteiro - Homenage al Fundador de la Sociologia Espirita, recém-lançado pelo escritor venezuelano Jon Aizpurua, o pensamento dessa grande alma é descrita de uma forma singela, como singela e simples foi a vida de Porteiro.
De origem humilde, até os 18 anos não sabia ler nem escrever. Amargou muitas dificuldades financeiras. Durante anos ganhou a vida como trabalhador braçal de baixa qualificação profissional. Conseguiu superar os enormes obstáculos materiais e adquiriu, com um esforço hercúleo, uma cultura geral e espírita notáveis. Escreveu uma obra monumental, Espiritismo Dialético, ainda desconhecida no Brasil. Lançou livros, redigiu artigos, proferiu conferências, ministrou cursos, dirigiu instituições espíritas.
Porteiro deixou um rastro de luz e conhecimento que não ficou restrito ao seu querido país, Argentina. Mesmo com a saúde debilitada — chegou a ter uma das pernas amputada — não esmoreceu, não abandonou o seu ideal. A vida de Porteiro é um exemplo vivo de que é possível superar todas as dificuldades materiais que a vida e a sociedade nos impõe, em prol de um ideal superior.
CAMINHO SEM VOLTA
Há momentos em que nos sentimos de mãos amarradas, ineptos, indolentes, muito pequenos diante da grandeza de nossa tarefa, pois a divulgação espírita é uma tarefa grandiosa, que exige uma enorme dose de virilidade interior, moral, de desprendimento implacável e decisivo.
Existem espíritas dos mais variados matizes. Do mais simples ao mais complexo. Do mais humilde ao mais arrogante. Do modesto ao exaltado. O verdadeiro espírita, segundo a expressão kardequiana, não se mostra como um modelo acabado de virtude. Aceita as suas contradições, percebe suas limitações e vícios morais, arraigados ou não. E parte em busca de si mesmo, num processo transformador que não tem retorno.
A definição de Kardec aproxima essa categoria de espírita à do homem de bem, tornando-lhe um super-homem moral, quase inacessível a nós, pobres imortais. Entretanto, sem entrar no campo puramente ético, o que mais chama atenção na conceituação kardequiana do verdadeiro espírita é o aspecto afetivo, bem mais do que o comportamental.
O Espiritismo lhe toca o coração, inebria suas emoções, faz vibrar suas energias interiores. Abre-se, portanto, uma fenda em sua alma, abrindo-lhe a mente para formas mais arrojadas de percepção. Na medida em que a intuição e as emoções se juntam à formulações racionais, com um projeto existencial, político e cultural fundamentado no humanismo, no bem-comum, o que temos é o idealismo espírita forjado no cadinho kardequiano. É um caminho que não tem mais volta...
Artigo publicado originalmente no jornal Abertura, de Santos, em setembro de 1998.
Existem espíritas dos mais variados matizes. Do mais simples ao mais complexo. Do mais humilde ao mais arrogante. Do modesto ao exaltado. O verdadeiro espírita, segundo a expressão kardequiana, não se mostra como um modelo acabado de virtude. Aceita as suas contradições, percebe suas limitações e vícios morais, arraigados ou não. E parte em busca de si mesmo, num processo transformador que não tem retorno.
A definição de Kardec aproxima essa categoria de espírita à do homem de bem, tornando-lhe um super-homem moral, quase inacessível a nós, pobres imortais. Entretanto, sem entrar no campo puramente ético, o que mais chama atenção na conceituação kardequiana do verdadeiro espírita é o aspecto afetivo, bem mais do que o comportamental.
O Espiritismo lhe toca o coração, inebria suas emoções, faz vibrar suas energias interiores. Abre-se, portanto, uma fenda em sua alma, abrindo-lhe a mente para formas mais arrojadas de percepção. Na medida em que a intuição e as emoções se juntam à formulações racionais, com um projeto existencial, político e cultural fundamentado no humanismo, no bem-comum, o que temos é o idealismo espírita forjado no cadinho kardequiano. É um caminho que não tem mais volta...
Artigo publicado originalmente no jornal Abertura, de Santos, em setembro de 1998.
Fonte Original desta Postagem
PENSE
"Pensamento Social Espírita"
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