Deus é amor [1.° João 4:16) e esse amor se reflete na atração universal que interliga todas as coisas, desde os elétrons em seu giro no interior do átomo, até as galáxias com seus imensos campos gravitacionais através do espaço infinito. E esta concepção não parece envolver nenhum laivo de "panteísmo”, pois a lógica e a razão nos dizem que o Pensamento-Criador atua sem cessar em todos os quadrantes do Universo e, afinal, como disse o apóstoIo Paulo: "Nele vivemos e nos movemos e existimos" (Atos 17:28). ...
Que Iemos na Bíblia? "Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade". (1.° Tim. 2:3/4). Ora, o que Deus quer, fatalmente se reaIiza, porque a Sua Vontade é suprema, não está sujeita às contingências próprias da vontade humana. Eu posso "querer", mas de quantas coisas depende a realização da minha vontade! Assim, o meu "querer" não passa de um "desejo" nem sempre realizáveI, porque sujeito às Iimitações inerentes à minha imperfeição. Mas a vontade de Deus é causa geradora, porquanto Ele é infinito em todos os seus atributos, do contrário não seria perfeito. Portanto, é inadmissível a mais leve restrição à sua soberana vontade, daí o afirmarmos que tudo o que Ele quer necessariamente acontece.
Se Deus é amor, os Espíritos saídos de suas mãos onipotentes são fruto desse trabalho de amor, sendo criados ignorantes e naturalmente imperfeitos, a fim de que, através das experiências da vida, possam elevar-se gradualmente em conhecimento e virtude, para retornarem ao seio do Criador e participarem da Sua glória, no concerto dos Espíritos Puros. Quer Ele transmita o sopro da vida a cada novo ser no instante da concepção [ou no período entre a concepção e o nascimento] como pensam os irmãos evangélicos, quer essa criação tenha sido bem mais remota, como entendemos nós, no que todos concordamos é que saímos das mãos do nosso Pai Celestial envoltos na auréola do Seu amor infinito, pois se "Deus é amor", tudo o que sai das Suas mãos é produto desse amor, que extravasa em catadupas de Iuz através da eternidade dos tempos e da imensidão dos espaços.
Se esse é o quadro que nos pintam a imaginação e a esperança - e não podemos concebê-Io de outra forma - é lícito concluir que esse Ente de afeição e de bondade só pode criar as almas para fazê-las felizes e para que um dia participem da Sua glória, de modo algum para torná-las desgraçadas, ou para as condenar a sofrimentos eternos. Portanto, não nos parece lógico supor que esse Pai amoroso, sendo onisciente, e pois conhecendo de antemão o destino das almas por Ele criadas, sabendo que, segundo a ortodoxia cristã, a esmagadora maioria delas será fatalmente condenada à perdição eterna, mesmo assim continue gerando criaturas tão frágeis, tão suscetíveis de sucumbir às tentações, quando lhe seria mais fácil, uma vez que é onipotente, fazê-Ias mais perfeitas, ou pelo menos mais resistentes ao mal.
Daí o não aceitarmos, nós espíritas, a doutrina das penas eternas”, visto nos parecer incompatível com a suprema bondade e a suprema justiça, qualidades excelsas e essenciais do nosso Criador e Pai.
Alega-se em defesa da eternidade das penas que a gravidade da falta é diretamente proporcionaI à importância da pessoa ofendida, e que assim uma ofensa dirigida a um ser infinito como Deus seria também infinita, implicando uma punição igualmente infinita. Mas esse argumento é especioso, porque sendo o homem um ser finito, de modo algum poderia cometer uma ofensa infinita, de sorte que a ofensa não guarda relação com a pessoa do ofendido, mas com a capacidade do ofensor. Nas próprias normas do nosso Direito Penai (arts. 22 a 24], observa-se a “inimputabilidade“ do delinqüente por circunstâncias de idade, perturbação de sentidos ou alienação mental. Perguntamos: pode alguém de bom senso e no pleno domínio das suas faculdades sentir-se ofendido pelas diatribes que lhe dirija um ébrio ou um alienado mental? Pode um adulto consciente sentir-se atingido pelas injúrias que lhe dirija uma criança de tenra idade? Não existe aí uma tal desproporção de maturidade intelectual suficiente para elidir qualquer possibilidade de agravo? E não é infinitamente maior a desproporção que existe entre o Ser Supremo e a minha insignificante pessoa, do que a existente entre mim e uma criancinha que mal começa a ensaiar seus próprios passos? Então como posso eu, Espírito imperfeito, assim criado por EIe e que mal engatinha em sua peregrinação pelos caminhos do aperfeiçoamento moraI, como posso ofender o Todo Poderoso ao ponto de merecer uma condenação a penas severas e inextinguíveis, por deslizes resultantes da imperfeição inerente à minha própria natureza humana? Não estaria aí a severidade da pena em brutal desproporção com a gravidade da falta?
E o pior é que, enquanto Jesus nos veio ensinar a amar os nossos inimigos, a perdoar indefinidamente as ofensas, a ver no Pai Celestial um ser compassivo e misericordioso, sempre pronto a acolher um filho que se transvia [ver parábola do Filho Pródígo] esse Deus que a ortodoxia cristã nos impinge é de uma severidade extrema, cominando penas que nenhum tribunal humano subscreveria, e ainda por cima irremissíveis, de nada adiantando, após a morte, o arrependimento dos por essa forma condenados.
Ora, nós sabemos que a experiência na carne, por prolongada que seja, não passa de um instante fugaz em face da eternidade. Então temos de forçosamente concluir que a condenação a uma eternidade de sofrimentos por faltas cometidas durante tão breve tempo, não se coaduna com a idéia de um Deus justo, misericordioso e infinitamente bom. E se Deus perdoa ao culpado que se arrepende de seus erros no curso da vida terrena, por que não poderá fazê-lo em relação aos que se arrependem depois da morte? De que serviria, então a "pregação do Evangelho aos mortos, a que alude o apóstolo Pedro em sua epístola? [1.' Pedro 4:6). Pergunta-se: Depois da morte o ser conserva a sua individualidade ou não? Pode pensar. sentir, raciocinar? Pode arrepender-se de seus erros? Se se arrepende, por que não pode ser perdoado? Que Deus misericordioso é esse, que só perdoa as faltas de seus filhos durante a vida terrena, que é um átimo, e não perdoa durante a vida espiritual que dura a eternidade? Se Deus criou os homens para a Sua glória (Isaías 43:7), por que condenará a penas eternas aqueles que o invocarem? (Joel J 2:32]. Onde estão os fundamentos da ideia de que Deus só atende aos pecadores durante a vida corpórea? Como entender "a minha ira não durará eternamente" [Jer. 3:12], se as almas são condenadas pela eternidade? Como pode alguém "amar a Deus sobre todas as coisas" (Deut. 6:5]. se entender que esse Deus é um tirano, que condena o pecador a penas eternas e não lhe perdoará após a morte, por mais que se arrependa? Um tal Deus não poderia ser amado, mas apenas temido (SaImo 89:7).
O próprio Jesus foi pregar aos Espíritos em prisão [1.' Pedro 3:19). Por que foi Ele pregar, se os mortos não se arrependem? Observe-se que não se trata da expressão "mortos em delitos e pecados", pois logo o versículo seguinte esclarece: "Os quais noutro tempo foram desobedientes, quando a Ionganimidade de Deus esperava, nos dias de Noé". Portanto, Espíritos que haviam vivido na Terra ao tempo de Noé e a quem Deus concedeu nova oportunidade, através da pregação de Jesus. E se o destino dos mortos é irremissível, por que se batizavam por eles os primitivos cristãos? (1.° Cor. 15:29).
Retirado do livro: O espiritismo e a Igreja reformada. Autor: Jayme Andrade
Nenhum comentário:
Postar um comentário