a partir de maio 2011

sábado, 30 de março de 2013

Deus nos livre!

por Milton Rubens Medran Moreira 


Circulou na Internet, numa das listas de debates de que participo, um texto com o título de “Deus nos livre de um Brasil Evangélico”. O artigo vinha assinado por Ricardo Gondim, um sujeito que eu não sabia quem era. Fui ao Google e fiquei sabendo: Trata-se de um ex-pastor evangélico, que, lá pelas tantas, resolveu deixar o movimento. O motivo da ruptura, segundo declarou na oportunidade, era que não admitia pertencer a “qualquer tradição, escola ou cânone” que cerceassem sua “capacidade de arrazoar”, ou que lhe impusessem a “obediência servil”. Dissera, ainda, que passaria a admitir unicamente “a consciência” como capaz de “chancelar” sua vida. Um ato de coragem para quem, até então, estivera engessado pelos dogmas bíblicos e aprisionado a algumas ideias retrógradas que seguem fazendo a cabeça de quantidade cada vez maior de gente, neste país já profetizado como “coração do mundo” e que está, mesmo, se transformando em “pátria dos evangélicos”.
                O Brasil evangélico
No artigo que agora caiu na rede, Gondim, já fora do movimento, diz ver com muita apreensão esse avanço evangélico no país. Pergunta: Como seriam, num Brasil evangélico, tratados um Ney Matogrosso, Caetano Veloso ou Maria Gadu? Que destino teriam poesias sensuais como “Carinhoso”, de Pixinguinha, ou “Tatuagem”, de Chico? Nas Universidades, teoriza o autor, seria proscrito Darwin, se proibiria a leitura de Nietzsche e de Derrida. A política, a exemplo do que já ocorre com a bancada evangélica, seria dominada pelo fisiologismo. A cultura morreria, porque manifestações folclóricas como a do bumba-meu-boi e do frevo não caberiam dentro do estado teocrático evangélico.
                       
               Vai passar...
                Alguns companheiros debatedores fizeram comentários com o mesmo tipo de preocupação. Aqui no meu cantinho, fiquei quieto, mas pensei: Bobagem! Isso não vai acontecer no Brasil. O Ocidente cristão está imunizado contra o estado teocrático. A História não volta para trás, malgrado as iniciativas nesse sentido. Elas produzem efeito nas camadas mais carentes social e culturalmente, porque adotam um formato compatível com a sociedade de consumo. O apelo de que você aceita “Jesus como único Senhor e Salvador” e, a partir daí, a fortuna, o amor, o poder, a saúde e tudo o mais que deseja deste mundo lhe caem aos pés, tem se mostrado eficiente. Multidões são, assim, arrebanhadas. Ambiente ideal para políticos oportunistas.
                  Mas, isso vai passar. Há uma parte boa da sociedade, com forte poder de reação. É a que protesta, por exemplo, contra a eleição de um deputado pastor à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Mas, esse marketing religioso tende a enfraquecer ao natural. Como dizia o velho Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos o tempo todo”.
                  Laicismo e humanismo
                  O progresso das ideias e dos costumes é uma coisa avassaladora. Há uns 30 anos, quando passou a se intensificar essa onda pentecostalista no Brasil, as crentes andavam com saias pelas canelas e cabelos descendo à cintura. Agora, que as Igrejas comandam televisões e patrocinam grandes shows musicais, seus hábitos também se secularizam, tragados pela modernidade. A tendência da sociedade moderna, e, logo, do Estado, é a total laicização. Está aí o novo Papa dizendo, da sacada de seus aposentos: “Bom dia”, “bom almoço”, no lugar de “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. É a sociedade laica, e não as religiões, que pautam os costumes e o comportamento de nosso tempo. Se as religiões quiserem sobreviver, terão que se dobrar à laicidade dos costumes, das ideias, do discurso e também da moral. Esta se aprimora na medida em que se liberta do sagrado, da revelação, e é reconhecida como naturalmente humana e universalmente válida. É nesse contexto que uma espiritualidade fundada na razão e no livre-pensamento desbravará caminhos.
                 Espiritualistas livre-pensadores e humanistas, não temamos. O futuro nos pertence!
http://www.espiritbook.com.br/

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