a partir de maio 2011

terça-feira, 3 de julho de 2012

Primeiro Encontro de Léon Denis com Kardec



 Eduardo Carvalho Monteiro*



Havia apenas três anos que Léon Denis se iniciara no Espiritismo
quando, em 1867, Allan Kardec aceitou um convite para pronunciar uma
conferência em Tours. Léon Denis teve então a oportunidade de se entrevistar
com o Codificador na quinta de Leandre Rebondin, que hospedava o casal Rivail,
conforme descreve o próprio Denis:
Alugáramos para recebê-lo e ouvi-lo, uma sala na rua Paul Louis
Courrier e pedíramos a necessária autorização à Prefeitura pois, durante o
Império, uma severa lei proibia qualquer reunião de mais de vinte pessoas.
Acontece que no momento fixado para essa assembléia fomos informados de que
o nosso pedido fora indeferido. Encarregaram-me então de permanecer no local a
fim de avisar os convidados de que deviam dirigir-se a Spirito-Villa, a casa do
senhor Rebondin, na rua Sentier, onde a reunião se iria realizar no jardim. Éramos
aproximadamente trezentos ouvintes, em pé, apertados de encontro às arvores.
Sob a claridade das estrelas, a voz doce e grave de Allan Kardec fazia-se ouvir;
podia-se ver a sua fisionomia, iluminada por uma pequena lâmpada colocada
sobre uma mesa no centro do jardim, proporcionando um aspecto fantástico.
Foram-lhe postas várias perguntas e ele respondia com bondade, sorridente... As
flores do senhor Rebondin ficaram destruídas, mas o importante foi o sucesso
daquela noite...lembrança perpétua e indelével. Falou-nos sobre a obsessão e
várias questões lhe foram postas, às quais respondeu sempre bondosamente.
Terminada a reunião, todos levaram inefáveis recordações desse memorável
encontro.

No seu artigo “História do Desenvolvimento do Espiritismo em Tours”, Denis
completa a informação dos seus contactos com o mestre de Lyon: Eu vi-o mais
duas vezes depois da sua viagem a Tours: na sua residência na rua Saint-Anne,
em Paris, e pela última vez em Bonneval, na quinta Petit Bois, onde os espíritas
do Eure-et-Loire e Loire-et-Cher estavam reunidos para ouvir os seus discursos e
confraternizarem. No ano seguinte, em 1869, morria ele subitamente pela ruptura
de um aneurisma.
A rua Sentier, em Spirito-Villa, tornou-se um lugar importante e histórico
para o Espiritismo, pois foi onde aconteceu a primeira conferência espírita à luz
das estrelas, e onde se deu o primeiro dos três encontros que Léon Denis teve
com Allan Kardec.
Esta importância histórica levou-nos a conhecer o local no ano 2000. O
que era uma quinta, em cujo jardim puderam instalar-se 300 pessoas, conforme
relata Denis, foi dividida em lotes ainda naquela época, e hoje abriga casas
centenárias muito bem cuidadas pelos seus moradores. Uma pequena rua só para
peões, dá entrada a Spirito-Villa, a qual percorremos emocionados. Escolhemos
uma casa com um vasto jardim, que imaginámos ser uma parte daquele pisado
por Allan Kardec para a sua conferência e, com um pouco de receio, tocámos à
campainha. Um jovem atendeu e, falando em inglês, pedimos para fotografar o
jardim da sua casa, já que éramos pesquisadores e escritores brasileiros e ali, há
mais de 130 anos, dera-se um acontecimento muito importante para nós.
Confessamos que tínhamos receio de sermos mal recebidos, perante a inusitada
história contada. Porém, para surpresa nossa, o jovem André, muito gentil,
franqueou-nos a entrada e foi chamar a sua simpática avó, Madame Madeleine
Renaud que, além da sua amizade, nos ofereceu uma cópia dos documentos da
propriedade, datados de 1840 e autenticados com o selo em branco de Napoleão.
Não há dúvida que um documento como este pode não representar quase nada
para a história do Espiritismo, mas a fidalguia e a amizade com que aquela família
de Tours nos recebeu e confiou nos motivos pelos quais dois desconhecidos, que
não falavam a sua língua, lhes bateram à porta, foi quase tão emocionante como
pisarmos aquela terra em que sabíamos que dois gigantes do pensamento
humano tinham deixado as suas marcas há mais de cem anos. Foi, pois, com os
olhos nublados e a recordar a descrição de Léon Denis do seu encontro com o
mestre, que passámos alguns minutos naquele jardim, fazendo uma sentida prece
e tentando transportar a nossa mente para o distante ano de 1868, para ouvir os
ecos das palavras do mestre sob a luz da lamparina e tendo por tecto a abóbada
celeste. Parecia que a terra ainda guardava a doçura das cerejas caídas aos pés
de Amélie Boudet e que o farfalhar das folhas secas, denunciando a chegada do
jovem Léon Denis atrasado para o início da reunião, ainda era ouvido pela nossa
fantasista audição. E o mesmo sentimento bucólico que Denis viu naquela cena,
ele no-lo emprestou, e a nossa imaginação voou alto, muito alto...
Aos privilegiados trezentos ouvintes daquela memorável conferência,
somara-se mais um...
*escritor, jornalista e biógrafo espírita
www.geb-portugal.org

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