"Viver psicologicamente significa imaginar coisas... estar na alma é experimentar a fantasia em todas as realidades". (Hillman)
Carl Gustav Jung, criador da
psicologia analítica e que, ao contrário de Freud, afirmou que a libido
não era apenas um impulso sexual instintivo, mas também uma energia
psíquica geral, dirigida para a vontade de viver, teve, durante o
decorrer de sua vida, experiências psíquicas que "transcenderam os
limites do tempo e do espaço" como gostava de registrar.
A presente abordagem de relatos
sobre algumas das experiências transcendentais de Jung, baseada em obras
consultadas e que serão relacionadas no final deste artigo, não tem a
pretensão de convencer o leitor sobre a teoria da imortalidade da alma
(ou da reencarnação) e, sim, levá-lo ao exercício reflexivo sobre este
importante tema, que conforme a ótica da psicologia clássica, "são
apenas fenômenos psíquicos oriundos de efeitos ilusórios de nossos
processos mentais".
PRIMEIRO RELATO: JUNG E A INFÂNCIA
No fundo sentia-me "dois": o
primeiro, filho de seus pais, que frequentava o colégio, era menos
inteligente, atento, aplicado, decente e asseado que os demais; o outro,
pelo contrário, era adulto, velho, céptico, desconfiado e distante do
mundo dos homens.
Perturbadíssimo, tomei
consciência de que, na realidade, havia em mim duas pessoas diferentes:
uma delas era o menino de colégio que não compreendia matemática e que
se caracterizava pela insegurança; o outro era um homem importante, de
grande autoridade, com quem não se podia brincar - mais poderoso e
influente que aquele industrial. Era velho, que vivia no século XVIII,
usava sapatos de fivela, peruca branca e tinha, como meio de transporte,
uma caleça cujas rodas de trás eram grandes e côncavas e entre as quais
o assento do cocheiro ficava suspenso por meio de molas e correia de
couro.
SEGUNDO RELATO
Observação: Nesse caso
particular, o motivo que o fez recordar foi um incidente na casa de um
colega onde passava um período de férias. O dono da casa chamou-lhe
enérgicamente a atenção, por causa de uma brincadeira com um barco - que
fora proibida -, e que por pouco não terminou em tragédia.
Cabisbaixo, reconheci que fizera
justamente o que fora proibido. A repressão era, pois, merecida. Mas ao
mesmo tempo senti uma raiva de que aquele homem grosseiro, gordo e sem
instrução ousasse insultar-me! E não me sentia apenas como um ser
adulto, mas como uma autoridade, uma pessoa cheia de importância e
dignidade.
O contraste com a realidade era
de tal forma grotesco, que meu furor desapareceu de repente. Surgiu,
então em mim a pergunta: "Mas afinal quem é você para reagir como se
fosse sabe lá o diabo, quem. E é claro que é o outro que está com a
razão. Você é um colegial de doze anos, ao passo que o outro é um pai de
família, um homem rico e poderoso que possui duas casas e vários
cavalos magníficos".
TERCEIRO RELATO
Certo dia, quando habitávamos em
Klein-Hüningen, perto da Basiléia, um fiacre verde, muito velho,
passara diante da nossa casa vindo da floresta negra. Era uma caleça
antiga, como as do século XVIII. Assim que vi, um sentimento de
exaltação se apoderou de mim: "Ah, hei-la! É do meu tempo! - tinha a
impressão de reconhecê-la, era semelhante aquela que me transportaria!
Depois fui invadido por um sentimento estranho, como se eu tivesse sido
roubado ou ludibriado no tocante ao meu amado outrora. O fiacre era um
vestígio daquele tempo! É difícil descrever o que passou comigo e o que
me emocionou tão fortemente: uma espécie de nostalgia? Uma saudade? Uma
reminiscência? Era isso, era exatamente isso!".
QUARTO RELATO
Houve ainda um outro incidente
que me lembrou do século XVIII. Vira, em casa de uma tia, uma estatueta
dessa época, que representava dois personagens em terracota pintada. Um
deles era o velho Dr. Stuckelberger, personalidade famosa da cidade de
Basiléia. A outra figura representava uma de suas pacientes, com os
olhos e a língua de fora. Havia uma lenda a respeito disso. Ora, a
figura do velho doutor tinha sapatos de fivela que reconheci
estranhamente como meus ou semelhantes aos meus. Estava convencido
disso. "Usei esses sapatos". Esta convicção me perturbara de um modo
profundo. "Sim, eram realmente os meus sapatos!". Eu os sentia nos pés e
não podia compreender essa estranha sensação. Como poderia pertencer ao
século XVIII? Acontecia-me, às vezes, datando, escrever 1786 em lugar
de 1886 e isto era sempre seguido de um sentimento de inexplicável
nostalgia.
QUINTO RELATO: O JUNG ADULTO E OS SONHOS
Recentemente, observei em mim
mesmo uma série de sonhos que, com toda a probabilidade, descrevem o
processo da reencarnação de um morto de minhas relações. Era mesmo
possível seguir, com uma probabilidade não totalmente negligenciavel,
certos aspectos dessa reencarnação até a realidade empírica. Mas como
nunca mais tive ocasião de encontrar ou tomar conhecimento de algo
semelhante, fiquei sem a menor possibilidade de estabelecer uma
comparação. Minha observação é, pois, objetiva e isolada. Quero somente
mencionar a sua existência, mas não o seu conteúdo. Devo confessar, no
entanto, que a partir dessa experiência observo com a maior boa vontade o
problema da reencarnação, sem, no entanto, defender com segurança uma
opinião precisa.
SEXTO RELATO: A APARIÇÃO DO ESPÍRITO DE UM AMIGO
Uma noite, estava deitado,
acordado, pensando na morte súbita de um amigo cujo funeral tinha
ocorrido no dia anterior... de repente, senti que ele estava no quarto.
Pareceu-me que estava de pé ao lado de minha cama e me pedia que fosse
com ele. Eu o segui em minha imaginação. Ele me levou para fora da casa,
pelo jardim até a rua e finalmente até a sua casa. Subiu em um
banquinho e mostrou-me o segundo dos cinco livros encadernados de
vermelho da segunda prateleira a partir do alto. Essa experiência
pareceu-me tão curiosa que, na manhã seguinte, fui até a sua viúva e
perguntei se podia procurar uma coisa na biblioteca de meu amigo.
Evidentemente havia um banquinho diante da estante, como em minha visão,
e mesmo antes de chegar perto vi os livros encadernados de vermelho. O
título do segundo volume era: "O legado dos mortos".
AS CONCLUSÕES DE JUNG SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA
Em 1956, respondendo ao senhor H. J. Barret, dos Estados Unidos, escreve Jung sobre sua crença na imortalidade da alma:
"Ainda que
meu tempo seja escasso e minha idade avançada um fato real, tenho gosto
em responder às suas perguntas. Não são fáceis como, por exemplo, a
primeira: se eu acredito numa sobrevivência pessoal após a morte. Não
poderia dizer que acredito nela, pois não tenho o dom da fé. Só posso
dizer que sei alguma coisa ou não, como tentarei expor a seguir.
1. Sei
que a psique possui certas qualidades que transcendem os limites do
tempo e do espaço. Em outras palavras, a psique pode tornar elásticas
essas categorias, ou seja, 100 milhas podem ser reduzidas a uma jarda, e
um ano a poucos segundos. Isto é um fato do qual temos todas as provas
necessárias. Além disso, há certos fenômenos pós-mortem que eu não
consigo reduzir a ilusões subjetivas. Por isso, sei que a psique pode
funcionar com o empecilho das categorias de espaço e tempo. Ergo ela
própria a um ser transcendental e, por isso, relativamente não espacial e
"eterna". Isto não significa que eu tenha qualquer tipo de certeza
quanto à natureza transcendental da psique. A psique pode ser qualquer
coisa.
2. Não há razão alguma para supor que todos os chamados fenômenos psíquicos sejam efeitos ilusórios de nossos processos mentais.
3. Não
acho que todos os relatos dos chamados fenômenos miraculosos (como
precognição, telepatia, conhecimento supranormal, etc.) sejam duvidosos.
Sei de muitos casos em que não paira a mínima dúvida sobre sua
veracidade.
4. Não
acho que as chamadas mensagens pessoais dos mortos devam ser rechaçadas
in globo como ilusões. Immanuel Kant disse certa vez que duvidava de
toda história individual sobre fantasmas, etc., mas se tomadas em
conjunto, havia algo nelas. Eu examino minuciosamente o meu material
empírico e devo dizer que, entre muitas suposições arbitrárias, há casos
que me fazem titubear. Tomei como regra aplicar a sábia frase de
Multatuli: "Não existe nada que seja totalmente verdadeiro, nem mesmo
esta frase".
Psicanalista Clínico e Interdimensional
LIVROS CONSULTADOS
Argollo, Djama. JUNG E A MEDIUNIDADEJung, Gustav, Carl. PSICOLOGIA E RELIGIÃO
Richter, Lorena. REFLEXÕES CLÍNICAS SOBRE A TEMÁTICA DA RELIGIÃO
http://www.partidaechegada.com/

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