Marcelo Henrique Pereira (*)
Toda tentativa de analisar o personagem Jesus sob a ótica
espírita principia pelo questionamento de Kardec aos Espíritos, aposto
no item 625, de O Livro dos Espíritos, sobre o modelo ou
guia para a Humanidade planetária. A resposta, na competente tradução do
Professor Herculano Pires é "Vede Jesus". Obviamente, não
estamos falando de Jesus Cristo, o mito inventado pela religião cristã
oficial (Catolicismo) e reproduzido por todas as que lhe sucederam no
tempo, um ser meio homem meio divino, filho único (?) de Deus ou
integrante do dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito
Santo), como apregoam as liturgias.
Falamos do homem, cujos registros físicos (históricos) são mínimos, mas
que teria vivido há pouco mais de dois mil anos, no Oriente Médio, dono
de uma filosofia de vida própria e que marcou a história humana ao ponto
de dividi-la entre antes e depois de sua passagem. Jesus de Nazaré, este
o seu nome. Mas é este o Jesus apresentado nas instituições espíritas? É
este o Jesus referenciado nas obras pós-kardecianas, sobretudo aquelas
de origem mediúnica? Cremos que não! Há uma diferença muito grande entre
a realidade e a imagem que foi construída - muito fortemente em função
da influência das religiões sobre o arquétipo coletivo.
Alguns dos problemas mais graves na abordagem "espírita" de Jesus já
principiam pela gravidez de Maria (dita Santíssima pela tradição
religiosa e, portanto, submetida a uma gestação sem ato sexual, sob a
interferência do Espírito Santo), o que levou à consideração de que o
carpinteiro seria um agênere, posto que detentor de um corpo não-físico,
mas fluídico, porquanto não teria ele suportado as dores e lacerações a
que foi submetido, na paixão e crucificação.
Tais teorias nunca seriam concordes à Filosofia Espírita, porque
representariam a negação dos mínimos princípios ou fundamentos básicos
espiritistas. Maria e José, tidos como pais de Jesus, tiveram um
relacionamento normal - como o de qualquer casal - e Jesus, inclusive,
teve vários irmãos, sendo o primogênito da prole (vide a passagem "Quem
são minha mãe e meus irmãos", a propósito). De uma gestação, portanto,
natural e "normal", decorreu um corpo físico muito parecido com o nosso,
guardadas as proporções decorrentes do distanciamento temporal entre os
nossos dias e os de dois milênios atrás.
Como a fábula cristã enquadra situações aparentemente sobrenaturais
(como diversas passagens evangélicas relacionadas aos feitos de Jesus e,
também, todo o tétrico relato das torturas a que teria sido submetido
desde sua prisão, no Horto das Oliveiras até sua crucificação no Gólgota),
muitas delas teriam sido construídas e moldadas pelos doutores da
Igreja, interessados na construção de um super-homem, mítico e até
mitológico, dotado de superpoderes ilimitados.
Jesus foi um homem "normal" e "comum", em relação às suas
características físicas. Sua distinção em relação aos demais homens
(daquele tempo e até hoje), evidentemente, pertence ao plano moral, das
virtudes e das características egressas de sua evolutividade espiritual.
Seu principal traço é o de uma moralidade bem acima da média da
população terrena de todos os tempos conhecidos, daí porque os Espíritos
o teriam sugerido como referência (não a única, fique bem claro) para a
esteira de progresso espiritual compatível com este orbe.
Mas, ainda que distante da maioria dos homens em termos de moralidade,
não deixou de "participar" da vida encarnada como a grande maioria de
nós. Sentiu dores, sofreu decepções, alegrou-se com situações
favoráveis, teve amigos e relacionou-se SIM sexualmente com uma mulher -
provavelmente Maria de Magdala, de cuja relação teria nascido uma
criança, como, aliás, vários escritores - entre os quais, mais
presentemente, Dan Brown - já referenciaram.
Incrível é que, em muitas instituições espíritas, que deveriam se pautar
pela "fé raciocinada", pelo exame lógico de todas as situações e
circunstâncias e pela abordagem livre e baseada nos princípios
espíritas, se verifique um certo ar "pudico" quando o assunto vem à
baila, como se uma (muito) provável experiência conjugal e sexual de
Jesus de Nazaré pudesse diminuir o alcance de sua missão e papel perante
os homens. Uma abstinência da simbiose energético-sexual não seria, nem
de longe, "natural" e oportuna. Ademais, todos nós que, sob a esteira da
dicção espiritual contida no item sublinhado da obra pioneira, nos
espelhamos em Jesus para a construção de nossa senda evolutiva, ao
buscarmos conhecer melhor o intercâmbio das relações humanas, sabemos
que a sexualidade é um vértice de aprendizado espiritual e, antes de
tudo, uma necessidade humana, rumo ao equilíbrio.
Mas há os que, não tão ingenuamente, pensam o contrário e tentam
"importar" para o Espiritismo visões que pertencem aos dogmas das
igrejas. Estes ainda não se tornaram espíritas!
* * *
Toda tentativa de analisar o personagem Jesus sob a ótica espírita principia pelo questionamento de Kardec aos Espíritos, aposto no item 625, de O Livro dos Espíritos, sobre o modelo ou guia para a Humanidade planetária. A resposta, na competente tradução do Professor Herculano Pires é "Vede Jesus". Obviamente, não estamos falando de Jesus Cristo, o mito inventado pela religião cristã oficial (Catolicismo) e reproduzido por todas as que lhe sucederam no tempo, um ser meio homem meio divino, filho único (?) de Deus ou integrante do dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), como apregoam as liturgias.
Falamos do homem, cujos registros físicos (históricos) são mínimos, mas que teria vivido há pouco mais de dois mil anos, no Oriente Médio, dono de uma filosofia de vida própria e que marcou a história humana ao ponto de dividi-la entre antes e depois de sua passagem. Jesus de Nazaré, este o seu nome. Mas é este o Jesus apresentado nas instituições espíritas? É este o Jesus referenciado nas obras pós-kardecianas, sobretudo aquelas de origem mediúnica? Cremos que não! Há uma diferença muito grande entre a realidade e a imagem que foi construída - muito fortemente em função da influência das religiões sobre o arquétipo coletivo.
Alguns dos problemas mais graves na abordagem "espírita" de Jesus já principiam pela gravidez de Maria (dita Santíssima pela tradição religiosa e, portanto, submetida a uma gestação sem ato sexual, sob a interferência do Espírito Santo), o que levou à consideração de que o carpinteiro seria um agênere, posto que detentor de um corpo não-físico, mas fluídico, porquanto não teria ele suportado as dores e lacerações a que foi submetido, na paixão e crucificação.
Tais teorias nunca seriam concordes à Filosofia Espírita, porque representariam a negação dos mínimos princípios ou fundamentos básicos espiritistas. Maria e José, tidos como pais de Jesus, tiveram um relacionamento normal - como o de qualquer casal - e Jesus, inclusive, teve vários irmãos, sendo o primogênito da prole (vide a passagem "Quem são minha mãe e meus irmãos", a propósito). De uma gestação, portanto, natural e "normal", decorreu um corpo físico muito parecido com o nosso, guardadas as proporções decorrentes do distanciamento temporal entre os nossos dias e os de dois milênios atrás.
Como a fábula cristã enquadra situações aparentemente sobrenaturais (como diversas passagens evangélicas relacionadas aos feitos de Jesus e, também, todo o tétrico relato das torturas a que teria sido submetido desde sua prisão, no Horto das Oliveiras até sua crucificação no Gólgota), muitas delas teriam sido construídas e moldadas pelos doutores da Igreja, interessados na construção de um super-homem, mítico e até mitológico, dotado de superpoderes ilimitados.
Jesus foi um homem "normal" e "comum", em relação às suas características físicas. Sua distinção em relação aos demais homens (daquele tempo e até hoje), evidentemente, pertence ao plano moral, das virtudes e das características egressas de sua evolutividade espiritual. Seu principal traço é o de uma moralidade bem acima da média da população terrena de todos os tempos conhecidos, daí porque os Espíritos o teriam sugerido como referência (não a única, fique bem claro) para a esteira de progresso espiritual compatível com este orbe.
Mas, ainda que distante da maioria dos homens em termos de moralidade, não deixou de "participar" da vida encarnada como a grande maioria de nós. Sentiu dores, sofreu decepções, alegrou-se com situações favoráveis, teve amigos e relacionou-se SIM sexualmente com uma mulher - provavelmente Maria de Magdala, de cuja relação teria nascido uma criança, como, aliás, vários escritores - entre os quais, mais presentemente, Dan Brown - já referenciaram.
Incrível é que, em muitas instituições espíritas, que deveriam se pautar pela "fé raciocinada", pelo exame lógico de todas as situações e circunstâncias e pela abordagem livre e baseada nos princípios espíritas, se verifique um certo ar "pudico" quando o assunto vem à baila, como se uma (muito) provável experiência conjugal e sexual de Jesus de Nazaré pudesse diminuir o alcance de sua missão e papel perante os homens. Uma abstinência da simbiose energético-sexual não seria, nem de longe, "natural" e oportuna. Ademais, todos nós que, sob a esteira da dicção espiritual contida no item sublinhado da obra pioneira, nos espelhamos em Jesus para a construção de nossa senda evolutiva, ao buscarmos conhecer melhor o intercâmbio das relações humanas, sabemos que a sexualidade é um vértice de aprendizado espiritual e, antes de tudo, uma necessidade humana, rumo ao equilíbrio.
Mas há os que, não tão ingenuamente, pensam o contrário e tentam "importar" para o Espiritismo visões que pertencem aos dogmas das igrejas. Estes ainda não se tornaram espíritas!
* * *
(*) Marcelo Henrique,
Doutorando em Direito e Assessor Administrativo
da Associação Brasileira de
Divulgadores do Espiritismo - ABRADE.
A ERA DO ESPÍRITO
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