a partir de maio 2011

domingo, 6 de maio de 2012

Espírita, Espirita, Espiritista


Zêus Wantuil
A LEGITIMIDADE vernácula de espiritista (adj. de 2 gên. e subst. de 2 gên.), termo formado de espírito mais o sufixo ista, está fora de toda dúvida. Jamais se lhe contestou a lídima formação e o correto uso, embora, na língua portuguesa, não seja de largo emprego tanto pelos adeptos da Doutrina dos Espíritos, quanto pelos que não na aceitam. Aliás, é interessante observar que, também na França, o spiritiste   criado por Allan Kardec foi pouco usado por este, e até hoje o é raramente pelos franceses em geral. O próprio Codificador lionês, no "Vocabulário Espírita" de sua obra - "O Livro dos Médiuns" (1861), já fazia a seguinte observação a spiritiste: "Ce mot, employé    dans le principe pour désigner les adeptes du spiritisme ,   n'a pas été consacré par l'usage; le mot spirite a prévalu."
Novamente frisamos que espiritista não é, entre os povos de fala portuguesa, uma forma desprezada, mas, sim, de emprego menos freqüente que as outras duas: espírita e espirita.
Há algumas exceções individuais em nosso meio e fora dele. Neste último, pode-se citar Cândido de Figueiredo, que sempre usou espiritista, fato confirmado em sua tradução da obra de Maeterlink – La Mort.
Carlos de Laet, se amiúde empregava espiritista, não abandonou, entretanto, a forma espirita, que não sabemos como ele a pronunciava, visto só ser de hábito, naquele tempo, a acentuação em palavras oxítonas. Na tradução que em 1901 fez do "Espiritismo - Manual Científico e Popular", da autoria do italiano J. José Franco, comprovar-se-á o que deixamos dito.
Jamais condenamos, e nem a nossa insipiência o poderia fazer, o emprego de qualquer dos três vocábulos que vimos estudando conforme poderão certificar-se os que lerem o "Reformador" de dezembro de 1951, no artigo - "Correspondência".
Todavia, de quando em quando recebemos cartas transbordantes de ironia e mordacidade, lastimando que este periódico, a Federação e a maioria dos espiritistas brasileiros usem errada e abusivamente do termo espírita, em vez das únicas formas legítimas - espírita (rí) e espiritista - acrescentam tais missivistas.
Mostraremos que falece razão a estes críticos quanto a espirita (rí), já que espiritista recebeu atrás os necessários esclarecimentos. Mostraremos que de forma alguma poderão eclipsar a pronúncia proparoxítona, uma vez que ela foi aceita, no Brasil principalmente, pelo povo, pela Imprensa profana e espiritista, por ilustres homens de letras e pelas Academias e acadêmicos. Espírita entrou no cerne da Língua, é água que há muito se misturou ao mar...
* * *
Vejamos o que vai pelos Dicionários, Vocabulários, Encielopédias, etc., quanto ao assunto em estudo.
O primeiro volume da 1ª edição (1899) do Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo só registra espiritista. Rui Barbosa, na parte superior da página 556 deste tomo, faz a seguinte anotação: "E espírita? V. vº perispirito", porque na definição de perispirito C. F. usou de espirita. Como o 2º volume desta mesma edição registra no Suplemento - Espiríta (sic), de duas uma: ou ao Mestre brasileiro passou despercebido o Suplemento final, ou ele desejava chamar a atenção para a forma espírita. Chi lo sa?
Cândido de Figueiredo parece ter sido o primeiro a registrar espiríta (sic) em Dicionário português.
A 5ª edição do mesmo Dicionário de Cândido de Figueiredo, revista por Jorge Guimarães Daupiás, especialista em questões de ortografia e lexicologia, e que, segundo Rebelo Gonçalves e Agostinho de Campos, é douto conhecedor de glotologia geral e de filologia portuguesa, registra espírita.
A 6ª edição, atualizada na grafia e copiosamente ampliada, impressa pela Livraria Bertrand, de Lisboa, e elogiada por Júlio Dantas, então presidente da Academia das Ciências de Lisboa e da Conferência Ortográfica de 1945, registra espírita.
A 10ª edição, com um Prefácio do Dr. Júlio Dantas, registra espirita e espírita. Neste último vocábulo, manda ver espirita.
O notável lexicólogo e gramático brasileiro, Antônio de Morais Silva, não pode ser consultado sobre o assunto que nos ocupa, em razão de haver ele falecido em 1824.
O seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa, aumentado e corrigido constantemente, ainda não apresentava na 7ª edição, de 1878, edição esta revista e dirigida pelo filólogo Francisco Adolfo Coelho, as palavras espírita ou espirita, espiritista ou mesmo espiritismo.
Somente na 8ª ed. (1889-1891), revista e melhorada, aparecem os três últimos termos citados. É interessante um fato que acaso se nos deparou: no exemplar que possuímos (e em outros que tivemos a oportunidade de consultar) está registrado espiríta (sic); mas no exemplar que pertenceu a Rui Barbosa acha-se impresso espírita e não espiríta. Como explicar essa diferença numa mesma edição?
A 10ª edição do Dicionário de Morais, impressa em Portugal, revista e corrigida, segundo o Acordo de 1945, por Augusto Moreno, Cardoso Júnior e José Pedro Machado, registra espirita.
Gonçalves Viana, tanto no seu Vocabulário Ortográfico e Ortoépico da Língua Portuguesa. (1909), como no seu Vocabulário Ortográfico e Remissivo da Língua Portuguesa (1912), registra unicamente espirita (rí).
Até à sua 7ª edição, o Novo Dicionário Enciclopédico Ilustrado da Língua Portuguesa, de Simões da Fonseca, só registrava espiritista. Já a edição de 1926, refundida por João Ribeiro, traz espirita, dizendo adiante: "denominação vulgar de espiritista. É termo arbitrário."
O Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, mais de autoria do Dr. Antônio dos Santos Valente, abalizado latinista, filólogo e helenista, do que de Caldas Aulete, só registra espiritista na 1ª edição (1881). Na 2ª edição (1925), ampliada e atualizada por José T. da Silva Bastos, só aparece espírita. Entretanto, Silva Bastos, no seu Dicionário Etimológico, apenas anota espirita (rí).
A 3ª edição (1948) do Dicionário de Aulete, atrás mencionado, atualizada por Daupiás até à letra A e no restante por sua filha D. Dulce Daupiás, já registra - espirita, paroxitona.
O douto filólogo brasileiro Júlio Nogueira, em sua obra A linguagem usual e a composição (8ª ed., 1952), escreve:
"A palavra espirita é pronunciada ora como esdrúxula ora como grave. Em Portugal parece mais generalizada a pronúncia espiríta (sic), registrada no Vocabulário de Gonçalves Viana o no da Academia das Ciências de Lisboa, impresso em 1940. É realmente a mais natural, dado o caráter popular do termo."
Já no seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (1953), o mesmo autor, Professor Júlio Nogueira, só averba espírita, e nada mais.
O Prof. Otelo de Souza Reis, em sua notável obra Três Palavrinhas (Breviário de Emendas referentes à Linguagem), edicionado em 1931, escreve categoricamente sob o titulo "Espírita, espirita ou espiritista?": "Não adianta discutir o que seria mais correto, desde que, pelo menos no Brasil, uma forma (a primeira) prevaleceu. Realmente, após algum tempo de vacilação, dizemos quase todos espírita."
Augusto Moreno, em seu Dicionário Complementar de Língua Portuguesa, 3ª ed. (1941), somente averba espirita, mas na ed. de 1948 coloca em primeiro lugar espírita, anotando, entretanto, ser melhor espirita.
O grande filólogo e etimólogo Antenor Nascentes, em seu Dicionário de dúvidas e dificuldades do Idioma Nacional (2ª edição, 1944), escreve somente espírita, anotando em seguida: "é proparoxítona."
O Vocabulário ortográfico e ortoépico da Língua Portuguesa, do qual foi relator o filólogo Laudelino Freire, e aprovado em 1931 pela Academia Brasileira de Letras e pela Academia das Ciências de Lisboa, registra apenas espírita e espiritista.
O Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa (1939-1944), organizado por l,audelino Freire, adota a ortografia tornada oficial em 1932. Apesar disso, não averba espírita, e sim espirita.
José Mesquita de Carvalho, membro da Academia Sul-Rio-grandense de Letras, lente de português, latim e literatura, no seu Dicionário Prático da Língua Nacional (1945), registra e define espírita, acrescentando numa "Nota: A forma espírita (proparoxítona) é popular, e deve substituir-se por espiritista. A forma paroxítona espirita é francesa."
O Dicionário de Sinônimos e Locuções da Língua Portuguesa (1950), organizado por Agenor Costa, registra apenas espírita e espiritista.
Francisco Pernandes, o abalizado autor do "Dicionário de Verbos e Regimes", registra apenas espírita e espiritista no seu Dicionário Brasileiro Contemporâneo, 1953.
O Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (9ª ed.), organizado por Hildebrando de Lima e Gustavo Barroso, e revisto por Manuel Bandeira, José Baptista da Luz e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, registra tão-somente espírita e espiritista.
O Vocabulário Ortográfico Brasileiro da Língua   Portuguesa (1953), organizado por Manuel da Cunha Pereira, com a colaboração de Luiz Peixoto Gomes Filho, sob a supervisão do Prof. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, dá preferência a espírita e espiritista.
Apesar de a Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira, impressa em Lisboa, registrar espirita, verificamos que nela se encontra igualmente registrada a prosódia espírita, ao estudar as palavras: médium, perispírito, materialização, Kardec, etc. Tudo isso é natural, já que esta enciclopédia obedeceu à Convenção Ortográfica de 1945, tornada obrigatória em Portugal, e que adota tanto. espírita quanto espirita.
O Dicionário da Língua Portuguesa, de J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo (Editora do Porto), traz: "espirita ou espírita" e também espiritista.
O Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, organizado pela Academia Brasileira de letras, em 1943, e aprovado pela Academia das Ciências de Lisboa, registra espírita, consignando-a como de uso mais generalizado que espirita.
O Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, resultante dos trabalhos da Conferência Interacadêmica Luso-Brasileira de Lisboa (1945), para a unidade da Língua escrita, publicado tanto no Brasil como em Portugal, respectivamente sob os auspícios da Academia Brasileira de letras e da Academia das Ciências de Lisboa, alinha espirita, espírita e espiritista.
A velha Enciclopédia Portuguesa Ilustrada - Dicionário Universal, publicada no Porto, sob a direção de Maximiano Lemos, regista no vol. IV: Espírita, o mesmo que espiritista.
LelloUniversal - Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro, em quatro vols., sob a direção de José Lello e Edgar Lello, Porto, assinala, no vol. II: Espírita ou melhor ESPIRITA.
A Enciclopédia Brasileira Mérito, 1958, vol. 8, traz: Espírita, de espírito.
No estudo do vocábulo Espiritismo, a Enciclopédia Barsa (1964), a Enciclopédia Abril (1972?) e Universo - A Grande Enciclopédia Para Todos (1973 a 1975?), publicadas no Brasil, só escrevem espírita.
A Enciclopédia Mirador Internacional (1975) faz no volume 8 extenso estudo etimológico do versalete ESPIRITISMO. Em certo trecho engana-se ao dizer que espírita é formado sobre o francês spirite, palavra esta, acrescenta a mesma Enciclopédia, paroxítona em Portugal - espirita.
O Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (1975) registra espirita, mandando ver espírita.
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira - Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 1ª edição (7ª impressão), 1975 - registra espírita, e. var. pros.: espirita. Sin. espiritista. Diz exatamente o mesmo o Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos Ilustrado, 7ª ed., 1971.
No versalete Allan Kardec, a Enciclopédia Século XX (1972), da Livraria José Olympio Editora, regista apenas espírita.
A Moderna Enciclopédia do Estudante (Ilustrada) (1970), o Dicionário Enciclopédico Ilustrado FORMAR (1968), a EXPEL - Enciclopédia Objetiva Universal (1971), o Grande Dicionário Enciclopédico Ilustrado SOLAR (1969), o Dicionário e Enciclopédia Koogan-Larousse (1976), o Novo Dicionário Prático da Língua Portuguesa (1976), o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (1979), o Novíssimo Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (1978?), todos editados no Brasil, registram tão-somente espírita e espiritista.
VERBO - Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, impressa em Lisboa, ao fazer, no vol. 7 (1974), o estudo de ESPIRITISMO, onde ora escreve espírita, ora espirita (ri), declara: "O Espiritismo, portanto, tal como o entendem e vivem os que hoje se dizem "espiritistas" (ou, no Brasil, "espíritas") compreende (...)”.
No Dicionário Prático Ilustrado, publicado sob a direção de Jaime de Séguier, edição atualizada e aumentada por José Lello e Edgar Lello, Porto, 1977, assim é colocada a questão: Espirita ou Espírita, s. e adj. 2 gén. V. Espiritista.
Ainda poderíamos arrolar multas outras obras, entre enciclopédias e dicionários, que verbetam o mesmo vocábulo. O leitor sabe disso, e a ele caberá estender a pesquisa, para chegar à conclusão insofismável de que espírita (proparoxítona) é a pronúncia que se firmou no falar e no escrever dos brasileiros.
* * *
É quase impossível, senão impossível mesmo, saber como certos escritores de nomeada, entre os antigos, pronunciavam espirita, em virtude de eles não acentuarem as palavras esdrúxulas, e nem a isso se ligava importância. Neles, portanto, infelizmente não nos podemos basear para formar doutrina. Eis, a seguir, alguns destes casos no meio profano:
EÇA DE QUEIRÕS parece ter preferido espiritista, conforme se conclui de Notas Contemporâneas, ed. 1909, em sua crônica "Espiritismo", págs. 279 e 280: "desejou que eu o acompanhasse ao Centro Espiritista, em Paris"; "O Centro Espiritista, em Paris, é na redação da Revista Espiritista (creio que os adeptos vernáculos dizem espirita)"; "A capela espiritista era também num terceiro andar."
COELHO NETO, em O Paraíso, 1ª ed., 1898 (Rio de Janeiro), pág. 9 e 21 ed. definitiva de 1926, pág. 19, escreve espirita, mas não se sabe como ele a pronunciava: "em pouco tempo tornou-se o mais convencido espirita".
MACHADO DE ASSIS escrevia pequenas crônicas na "Gazeta de Noticias", sob o título A Semana, crônicas que, reunidas, foram publicadas post mortem com o mesmo título, em 1910. Vê-se que este grandioso romancista preferia espirita a espiritista, mas, quanto ao modo por que ele pronunciava a primeira forma, nada sabemos dizer. Nas páginas 11, 12, 269, 271 do livro A Semana, 1ª edição, encontramos os exemplos com espirita: "Assim se diz na igreja espirita"; "A regra espirita, porém, de auxiliar por palavras, gestos e pensamentos a desencarnação"; "Só o que eu não sei, é se os sacerdotes espiritas"; "porque o princípio espirita não é o mesmo da transmigração"; cada espirita, em se desencarnando"; "assistindo a uma sessão da Associação Espirita, rua Conde d'Eu"; "É ponto que entende com a própria doutrina esprita"; "escrevem-se e publicam-se inúmeros livros, folhetos, revistas e jornais espiritas. Aqui na cidade há uma folha espirita ou mais".
Na pág. 166 depara-se-nos o trecho: "mas andar de carro não é condição para ser espiritista".
Em todos esses exemplos, tornamos a frisar, permanece oculta a pronúncia de espirita, usado pelo autor.
JOÃO DO RIO (Paulo Barreto), em sua obra As Religiões do Rio, ed. de 1906, usou sempre e só espirita, mas a falta de acentuação nas palavras proparoxítonas, naquele tempo, impede-nos de conhecer-lhe a pronúncia. Eis os exemplos colhidos às páginas 215, 216 e 219 - "lavra o desespero das comunicações espiritas"; "se o Fígaro dava para Paris cem mil espiritas"; "Os primeiros espiritas brasileiros apareceram no Ceará", "Sem as visitas do irmão Samuel, ninguém diria uma sessão espirita".
CONSTÂNCIO ALVES, então da Academia Brasileira de Letras, em uma de suas crônicas semanais no "Jornal do Comércio", em 14-12-1911, só escreveu espirita, mas, no que diz respeito à pronúncia desta palavra, cai-se nos casos anteriores.
JOÃO RIBEIRO, numa consulta de ortografia feita por l,eopoldo Cirne, então presidente da Federação Espírita Brasileira, escreveu ("Reformador",1903, págs. 22 e 23): "Entendo, antes de tudo, que se deveria dizer espiritista, que é o único derivado regular de espiritismo." E respondendo se se deveria escrever spirita ou espirita (não se usava, então, acentuar!), ensinou: "Quanto à orthographia da palavra, é preferível dizer espirita (porque sempre se diz e se escreve assim a palavra radical, espirito)." Como vêem os leitores, conservamos a ortografia antiga, nesta última frase, para que fique bem demonstrada a falta de acentuação nos vocábulos esdrúxulos ou proparoxítonos.
Sem nos referirmos à pronúncia, espirita empregaram de preferência Antônio da Silva Neto, redator do segundo jornal espiritista no Brasil, Bezerra de Menezes, Siqueira Dias e muitos outros ilustres espiritistas de primeira linha, cujos nomes encheriam pelo menos uma página deste periódico. Luís Olímpio Teles de Menezes, pioneiro entre os pioneiros do Espiritismo no Brasil, em 1869, utilizava-se muito de espirítico como adjetivo ("Doutrina espíritica", "Associação Espirítica"), mas também usou espirita, adjetiva e substantivamente. O ilustre Iatinista Antônio de Castro Lopes muitas vezes escreveu, em "Reformador" e em "O País", ora espirita, ora espiritista. Alexandre José de Meio Morais, outro pioneiro do Espiritismo em nossa pátria, empregou unicamente espiritista e em dois lugares apenas de sua obra - "Deus, a natureza, a criação...", dada a lume no ano de 1877.
Alongarmo-nos na lista de escritores e articulistas, adeptos ou não do Espiritismo, que, antes de 1940 pelo menos, escreveram espirita (por espírita, não sabemos), tornar-se-ia fastidioso e desnecessário, já que eles, como vimos ressaltando, não acentuavam as proparoxítonas.
Os modernos escritores brasileiros usam espírita, ou espiritista. Não sabemos se o mesmo é geral na terra lusitana, apesar de Aquilino Ribeiro, um dos grandes romancistas portugueses, pronunciar a palavra com acentuação grave, conforme se verifica em sua obra Aldeia (Terra, Gente e Bichos), edição de 1946, págs. 73 e 75: "rememorava as tardes celestiais do Centro Espirita Coração de Maria"; "Mercê desta sizânia (sic), entrou o marasmo com a doutrina espirita".
É falso, repetimos, o dizer-se que espírita seja tão-somente usado entre os adeptos da Doutrina dos Espíritos no Brasil. Podemos quase afirmar que todos os escritores profanos brasileiros, dentro e fora de nossas Academias, têm preferência por espírita. Esta preferência é também geral entre cultos sacerdotes católicos brasileiros, em suas páginas antiespiritistas. É o caso, por exemplo, do Monsenhor Dr. Emílio José Salim, Vice-Reitor da Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo e Diretor das Faculdades Católicas de Campinas, o qual, no 2º volume de sua obra Ciência e Religião, quase que só faz uso de espírita, e poucas vezes de espiritista. Estes dois termos são os únicos encontrados na tradução (2ª edição, 1945) que o professor e escritor português Eduardo Pinheiro realizou da obra The Unseen World, do Cardeal Lépicier, tradução publicada no Porto (Portugal).
Há, porém, raríssimas exceções, e só merecem citados os padres Pascoal Lacroix e Bueno de Sequeira, porque tentaram justificar (nota 439) o emprego de espirita (ri) numa obra por eles escrita de parceria - "O Espiritismo à luz da razão", edição 1941. Escreveram eles, talvez baseados no filólogo português Sá Nogueira, que espirita (rí) é forma sincopada (perda de uma sílaba), como semínima, formicida, que vieram de semi-mínima, formicicida.
Espirita (rí), contudo, dizemos nós, não é forma sincopada, pois nunca existiu espiritita (?) em português, da qual se originaria aquela.
Os mesmos autores escrevem, depois, em contradição com o que disseram acima, que espirita (ri) nos veio do francês spirite, "cuja pronúncia - acrescentam - prevalece em português, nos termos dessa origem. cf. Martiníca, dominíco (frade de S. Domingos), etc."
Ora, se espirita (ri) velo pelo francês, cheira a galicismo e, portanto, não seria bom português. Além disso, chamamos a atenção para dominíco, que, apesar de Cândido de Figueiredo tê-lo assim registrado, deve ser lido proparoxitonicamente: domínico.
* * *
Um dos maiores filólogos brasileiros, o saudoso Doutor JOSÉ, DE SÁ NUNES, respeitado e admirado aquém e além-mar, Doutor em Filologia Portuguesa, agraciado em 1945 pela Academia das Ciências de Lisboa com as "Palmas de Ouro", relator do Acordo Ortográfico de 1943 e co-relator do de 1945, organizador e revisor dos Vocabulários daí resultantes, estudou conscienciosamente a questão. Se o fez bem em sua obra Aprendei a Língua Nacional (Volume I, 1938, pág. 144 e vol. II, 1940, pág. 128), fê-lo melhor em cartas endereçadas ao organizador deste trabalho.
Eis alguns trechos de uma destas cartas, datada de 7-5-1953, que ele escreveu do próprio punho e que autorizou a publicar:
"Atendendo ao seu pedido de anteontem, feito em carta que venho de ler, digo-lhe que no "Pequeno Vocabulário Ortográfico" de 1943 registrei "espírita" seguido de "espirita", e no "Vocabulário Ortográfico Resumido" consignei separadamente as duas formas ou prosódias, porque ambas são usadas tanto aqui quanto em Portugal: aqui se usa mais a primeira, e lá a segunda. Mas a legitima forma, incontestável, é espiritista, que está perfeitamente em harmonia com "espiritismo". A argumentação de Sá Nogueira não me convence, porque nunca existiu a palavra "espiritita", da qual seria "espirita" a forma haplológica. Ele não fala em "espiritista", como, por engano, o senhor escreveu. Ao sufixo "ismo" corresponde o sufixo "ista", e não "ita". A meu ver, “espírita" é forma afrancesada ("spirite"), e a esse respeito algo escrevi na página 128 do meu livro "Aprendei a Língua Nacional", vol. II.
"O francês não podia dar “espírita”, sim "espirita", como de facto deu. A prosódia "espírita" é analógica: usa-se por analogia com "espírito".
"Em conclusão: "espirita" é forma afrancesada; "espírita" é forma analógica; e "espiritista" é a forma genuinamente vernácula, formada do substantivo "espírito" com o sufixo "ista", como "espiritismo" se formou de  "espírito" mais “ismo”.
Sempre ao dispor fica o servidor atento
José de Sá Nunes."
De outra carta, datada de 14-5-1953, apenas registraremos o trecho que mais se prende ao assunto em pauta, e que é, em suma, confirmação do que ficou dito acima:
"O "spirite" francês provém do latim "spiritus, e em nossa língua deve ser "espiritista". A forma "espirita" é tradução ao pé da letra da forma francesa, pelo que se considera galicismo; e "espírita" existe por analogia com "espírito", e não tomado do francês spirite", porque a acentuação tónica absolutamente o não permite."
À vista de tudo isso que estudamos, com o propósito de fazer alguma luz, achamos que cada um tem a liberdade de usar a forma que lhe aprouver, até mesmo espiritismista, se a quiserem inventar. Deixem, pois, Portugal com espirita, e o Brasil com espírita, e nos entrelacemos mais e mais como espiritistas.
Com pouquíssimas exceções, contadas a dedo, nos meios da Federação Espirita Brasileira sempre prevaleceu a pronúncia esdrúxula (espírita), mas só depois do Acordo Ortográfico de 1943 passou o "Reformador" a sistematicamente acentuar a referida palavra.
Espírita e espiritista são as únicas formas que este órgão continua a consignar. Neste pé ficará, e de espirita (rí) só se utilizará quando necessidade houver de se conjugar o verbo espiritar.
REFORMADOR, JANEIRO, 1980
Transcrição de Mônica V. T. Trajano

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