Cirso Santiago
Um livro desconcertante sobre a morte diz que seu trauma pode
até ser positivo
| CONCLUSÕES A QUE CHEGOU A AUTORA:
“Muitos órfãos de pais normais criam a imagem de um super pai e ela os guia pela vida em busca do sucesso” “A cultura Ocidental repele a morte como tema de conversa. Falar dela a torna mais suportável” “Homens encaram a morte de um filho de modo diferente das mulheres. Isso pode gerar atritos e, não raro, o divórcio” |
Jill Brooke estudou a biografia de dezenas de pessoas famosas cuja ambição e busca pelo sucesso ela atribui, em parte, à perna na infância de um ou de ambos os pais. |
Alexandre o Grande |
Eleanor Roosevelt |
Napoleão |
Vladmir Lenin |
Eva Peron |
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Rupert Murdoc |
Paul MacCartney |
Bill Clinton |
Em minhas pesquisas encontrei uma matéria da jornalista Tânia Menai, publicada na revista Veja, edição de 2 de maio último, que vale uma reprodução, ainda que em parte, para que os leitores do Correio também possam apreciá-la:
Não há respostas simples sobre como lidar com a morte. Teólogos, filósofos, místicos e consoladores de todos os matizes tentaram ao longo dos séculos aliviar essa carga que se instala sobre os ombros de cada um a partir daquele instante, na infância, em que se descobre a inevitabilidade da morte. A americana Jill Brooke, de 42 anos, fez sua tentativa com o livro Don't Let Death Ruin Your Life (Não deixe a Morte Arruinar a sua Vida).
Órfã de pai desde os 16 anos, criada na religião judaica e dona de uma carreira que inclui credenciais no canal de televisão CNN e no jornal New York Post, há quase três anos Brooke viu a morte passar por perto. Ela perdeu, em virtude de sérias complicações, aquele que seria o seu segundo filho. A tragédia levou Brooke a mergulhar no tema que lhe sacudiu emocionalmente: "A Morte". Ela fez uma longa pesquisa e descobriu que muitos personagens que hoje são lembrados como líderes, vencedores, revolucionários e inovadores tiveram em comum o fato de enfrentar a morte de um ou dos dois pais ainda na infância. "Reagir com bravura diante do inevitável é um traço de caráter muito interessante. Para muitas personalidades pode ter sido essa a alavanca que as impulsionou em busca da glória e das grandes realizações", diz Brooke. E cita, como exemplos históricos, o conquistador macedônio Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), o ex-beatle Paul McCartney, o filósofo Francis Bacon (1561-1626), Napoleão Bonaparte, Simon Bolívar, Eleonor Roosevelt, Eva Perón e homens públicos ambiciosos como Bill Clinton e o magnata da Imprensa Rupert Murdoch. "Perder o pai ou a mãe na infância, felizmente, é uma experiência rara mesmo em tempos de guerra", constatou Jill Brooke. A taxa média nas sociedades ocidentais é de 15%. Nas grandes guerras do século passado, as vítimas militares eram jovens que em sua maioria ainda não tinham sido pais. Sendo raro esse evento ele deixa, segundo Brooke, marcas indeléveis na personalidade de quem passa por ele. E a autora se admira ao ver que os biógrafos de Abraham Linclon não tenham dado o peso certo à orfandade dos maiores presidentes que povo norte-americano já teve. Pois Brooke observa que na primeira linha de uma das biografias desse vulto histórico diz: "Nasci no Kentucky. Minha mãe morreu quando eu tinha 9 anos". Isto deve ter influenciado a personalidade do distinto biografado. As elucubrações de Jill Brooke vão nessa linha para concluir que a morte de um pai é uma variável quase tão significativa quanto a educação, a classe social ou a religião na qual a pessoa foi criada. "Crianças órfãs são forçadas a ser muito introspectivas e a examinar os mistérios da vida trazidos pela morte num período da vida em que seus colegas lidam apenas com as tensões mais brandas, típicas da idade", diz Brooke. Enfim, ela avalia que nem sempre a experiência do enfrentamento da morte é prejudicial. Ao contrário, "A capacidade de tolerância e resistência dessas crianças é enorme e suas perspectivas de vida tendem a ser mais amplas que as pessoas que não passaram por dores ou tristezas profundas", explica a autora.
Uma pesquisa da Universidade Columbia sugere que as crianças que passaram pelo trauma da morte de parentes próximos podem ser classificadas em dois grupos. No primeiro, ficam as que realmente se vergam ao peso da dor. Elas se entregam. Suas frágeis estruturas emocionais são destruídas pela fatalidade e elas via de regra, não se tornam adultos normais. Num segundo grupo estão aquelas que a experiência da morte a seu redor imuniza para as dificuldades da vida, tornando-as mais equipadas para perseguir objetivos extraordinários, para o bem ou para o mal. Brooke lembra que os ditadores Adolf Hitler, Josef Stalin ou o sérvio Slobodan Milosevic, que está sendo julgado pelos seus crimes e que teve pai e mãe suicidas, foram órfãos que poderiam ser classificados num terceiro grupo - dos que se deixaram consumir pela amargura da perda e, por isso, tornaram-se frios e indiferentes ao sofrimento dos outros.
"Não podemos generalizar, mas as experiências- padrão na infância geram um tipo de comportamento futuro que podemos agora começar a entender", diz ela. "Uma das conseqüências mais comuns para essas crianças é o fato de desenvolverem mais aguçadamente do que outras o raciocínio abstrato."
Abstraindo o ambiente social e o período histórico dos personagens cuja biografia estudou, Jill Brooke encontrou em diversos artistas órfãos a mesma obsessão pelo ente querido perdido. Quando a mãe de Paul MacCartney morreu, o pai deu-lhe um violão para aliviar seu sofrimento. Mais tarde ele compôs a famosa canção Let it Be, em que a mãe é personagem sempre presente lhe trazendo proteção e sabedoria. No caso de John Lennon, que também perdeu a mãe muito cedo, as letras de suas músicas foram chamuscadas pela raiva e revolta pelo isolamento. Mas o motivo, segundo a pesquisadora, é outro. Lennon foi abandonado pela mãe e criado pelos tios. Outro exemplo de grandeza motivada em parte pelo amor à mãe perdida na infância, é o escultor e pintor italiano Michelangelo, autor de obras eternas, como o teto da Capela Sistina e a escultura de Davi, em Florença.
São inúmeros os fatores que definem se uma experiência traumática de morte na família vai formar ou deformar a personalidade da criança. Como era de esperar, a pesquisa de Brooke mostra que o pior efeito vem de lares em que a morte de um dos pais ou de ambos joga as crianças na pobreza. "Sem um mecanismo de apoio que garanta a qualidade de vida e mesmo padrão econômico, as crianças vão sofrer mais do que deveriam", diz ela. A morte dos pais é algo doloroso, mas o suicídio de um parente jovem ou a perda de um filho são considerados em todos os círculos as formas mais agonizantes e debilitantes de luto. No primeiro caso, segundo Brooke, a melhor tábua de salvação é a terapia. E eu aduzo: em ambos os casos a psicologia, pelo lado científico e a Doutrina Espírita, pelo lado religioso-assistencial, são excelentes tábuas de apoio. Além de violar a ordem natural das coisas, a perda de um filho costuma aumentar o atrito entre os casais, culminando, muitas vezes, em divórcio. Isso porque homens e mulheres vivenciam o luto de forma diferente. As mulheres fazem amizades mais baseadas na emoção. Já os homens tendem se agrupar em torno de atividades comuns, como os esportes. O homem, na opinião de Brooke, compartilha menos suas emoções. Por isso tem maior dificuldade de lidar com a agonia da perda de um filho. Esse comportamento pode levar a mulher a achar que o marido não está sofrendo tanto quanto ela. "É vital que o casal lembre que está no mesmo barco. Mesmo que os dois estejam remando em velocidades diferentes, ambos devem remar na mesma direção" - aconselha a autora.
(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 368 de Setembro de 2001
http://www.espirito.org.br
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