Crianças com aura azul e crianças cristais, duas novidades. Como a pedagogia espírita vê essa questão?
Uma
das novidades dessa primeira década do terceiro milénio é o anúncio de
uma geração de crianças chamadas "índigo". Há ainda uma outra
classificação, a das crianças "cristal". A onda veio dos Estados Unidos a
partir de um livro de Lee Carroll e Jan Tober The índigo Children, the
new kids have arríved, publicado no Brasil, pela Editora Butterfly, sob o
titulo de Crianças índigo.
Entre
tantas, é uma temática incluída nessa corrente híbrida de pensamento
chamada New Age (Nova Era), que mistura orientalismos, misticismos
vários, espiritualismo ocidental, psicologismos vagos, e, às vezes,
Espiritismo, na sua forma norte-americana de spiritualism. O que
caracteriza o pensamento New Age é justamente o anúncio de novos
tempos para a humanidade, de maior espiritualidade, de aumento de
consciência, de iluminação coletiva.
Como
não existe uma filosofia consistente e unificadora para esse movimento,
nele se abrigam todos os tipos de reflexões e propostas, desde algumas
razoavelmente sensatas e certas músicas bonitas e relaxantes, até
ideias místicas, mesmo supersticiosas. O que falta é justamente um eixo
de racionalidade e o que sobra, para atrapalhar, é o mercado em torno do
tema.
A identificação de possíveis crianças especiais suscita discriminações e proporcionam um estímulo à vaidade
Temos hoje uma indústria de espiritualidade light,
que vende em pílulas de livros de auto-ajuda, um conforto
inconsistente, uma religiosidade descomprometida, porque muito
superficial e feita para consumo rápido e descartável. Essa tendência
se tornou de tal forma predominante - porque dá dinheiro - que ela
contagia inclusive as grandes religiões e afeta em cheio o mercado
editorial espírita.
O
leitor-consumidor quer leituras rápidas, fáceis, que possam dar
receitas prontas e flexíveis para dar alívio às suas múltiplas
angústias. Nada que comprometa muito, nada que o faça raciocinar em
demasia, nada que o obrigue a tomar atitudes éticas mais firmes. A
espiritualidade também se tornou produto de mercado.
A
questão das crianças índigo se insere nesse contexto. Segundo os
autores que trabalham o tema, há crianças especiais nascendo no mundo
para preparar a Nova Era, suas auras azuis justificam o nome de crianças
índigo. São questionadoras, contestadoras, corajosas para construir um
novo mundo. Mas há também as crianças cristais, essas mais evoluídas
ainda, que são introspectivas, sensíveis, iluminadas.
Segundo os autores, esses seres precisam de atenção especial, de uma nova educação e de espaço para se desenvolverem livremente.
Meias-verdades e equívocos
A
questão, tanto com o movimento da Nova Era quanto com esse tema
específico das crianças índigos, é que há algumas verdades intuídas em
meio a uma grande confusão de conceitos e incoerências perigosas.
Já
no século 19 o Espiritismo anunciava novos tempos para a humanidade e
dizia que a mudança se daria, sobretudo, pela encarnação de Espíritos
mais conscientes, que já viriam aptos a construir e a vivenciar um novo
mundo.
Há também um postulado adotado por Allan Kardec que, conforme se dá o progresso dos mundos, o período de infância vai ficando mais curto e os Espíritos reencarnam cada vez mais lúcidos e rapidamente amadurecem dentro dos propósitos que os trouxeram à nova existência.
Há também um postulado adotado por Allan Kardec que, conforme se dá o progresso dos mundos, o período de infância vai ficando mais curto e os Espíritos reencarnam cada vez mais lúcidos e rapidamente amadurecem dentro dos propósitos que os trouxeram à nova existência.
Entretanto,
uma das características do pensamento espírita é o despojamento de toda
e qualquer linguagem mística e mítica, uma certa racionalização da
espiritualidade, dentro de um entendimento lógico do mundo e da vida. Se
uma nova geração está surgindo - e certamente está, pois basta conviver
com as crianças atuais, para observar a sua vivacidade, a sua
capacidade de desenvolvimento e a sua sensibilidade - é um fato natural,
faz parte da lei do progresso coletivo e é inclusive parcialmente
explicável pela maior quantidade de estímulos que as crianças recebem
hoje desde cedo.
O
perigo de classificarmos essas crianças é considerá-las seres
privilegiados - pois o pior é que apenas algumas crianças são tidas como
índigo ou cristais-, criando castas, de que os pais de orgulham e
sobre as quais projetam seus desejos de grandeza. A identificação de
possíveis crianças especiais é altamente problemática e mesmo
prejudicial, porque suscita discriminações, classificações
desvantajosas para outras, que não sejam assim consideradas, e para elas
próprias, proporcionando um estímulo à vaidade.
Na
obra de Lee Carrol e Jan Tober, há problemas ainda maiores. É que a
identificação de tais crianças baseia-se em critérios muito subjetivos e
mesmo erróneos. Vemos crianças consideradas índigo estopendo o rosto da
mãe sendo prepotentes, humilhando e agredindo outras pessoas,
inclusive seus pais. Ora, segundo qualquer avaliação sensata, tais
tendências não revelam um espírito superior. Pode ser até um ser
desenvolvido intelectualmente, mas o orgulho e a arrogância mostram um
déficit moral, que os pais têm a responsabilidade de ajudar a corrigir,
com amor e diálogo, é claro, sem repressões e punições.
Todas as crianças são únicas, cada uma tem seu histórico reencarnatorio, traz seus talentos específicos a serem trabalhados na presente existência, está num degrau diferente de evolução espiritual
Outros
critérios apontados - como os citados por Tereza Guerra, no livro dela:
Crianças índigo - Uma geração de ponte com outras dimensões, publicado
pela Editora Madras-carecem comple-tamente de qualquer cientificidade e
de qualquer possibilidade de comprovação. São pseudocientí-ficos.
Vejamos três desses critérios. Diz a autora, Tereza: "Esses indivíduos
são, simplesmente, novas expressões com características que vocês não
possuem:
1. Uma vibração mais elevada;2. Uma organização que invalida certos atributos provenientes dos astros que, habitualmente, afetam os humanos;3. Um dispositivo biológico específico, que lhes permite manejannelhor as impurezas fabricadas pêlos próprios humanos do planeta"
Já
conseguiram algum meio de medir a elevação da vibração de cada um? E
que organização e dispositivo biológico são esses? Alguma mutação
genética; comprovada? Estamos diante de uma geração de mutantes;
superiores a nós? Como se vê, são afirmativas gratuitas, inconsistentes e
problemáticas.
O que diz a Pedagogia Espírita ?
Essa
discussão mostra muito bem por que insistimos em falarem uma Pedagogia
Espírita, termo criado por J. Herculano Pires, e não em uma Pedagogia
Espiritualista ou Nova Pedagogia ou Pedagogia do Amor-como algumas
pessoas sugerem no sentido de descaracterizá-la de um suposto aspecto
sectário. Quem compreende bem o Espiritismo sabe que ele tem um caráter
universalista e não se fecha em fanatismo e sectarismo. E o que faz
parte principalmente de sua proposta é o método de abordagem da
realidade, de maneira científica, racional, sem abdicar da visão
espiritual. Ou seja, Kardec nos indica critérios de tocar o real, de
maneira a termos mais segurança em nosso modo de conhecer.
Assim, a pedagogia espírita é uma pedagogia que assume a reencarnação, a espiritualidade como dimensão real e necessária do ser humano, mas não abandona o eixo de racionalidade científica, desenvolvido na história do Ocidente, desde a civilização grega. Não podemos nos lançar a um misticismo medieval, deixando de lado as âncoras da pesquisa e da razão.
Assim, a pedagogia espírita é uma pedagogia que assume a reencarnação, a espiritualidade como dimensão real e necessária do ser humano, mas não abandona o eixo de racionalidade científica, desenvolvido na história do Ocidente, desde a civilização grega. Não podemos nos lançar a um misticismo medieval, deixando de lado as âncoras da pesquisa e da razão.
Portanto, dentro dessa abordagem, podemos afirmar que a pedagogia espírita trabalha com um critério democrático, racional, de considerar todas as crianças iguais e, ao mesmo tempo, singulares, rejeitando classificações restritivas ou discriminatórias.
Todas as crianças são iguais, essencialmente divinas, espíritos em evolução, com infinitas potencialidades a serem desenvolvidas. Todas precisam de amor, diálogo, educação libertadora, que permita seu pleno desabrochar. Todas devem ser respeitadas e ajudadas a cumprir seu destino evolutivo.
Todas as crianças são únicas, cada uma tem seu histórico reencarnatorio, cada uma traz talentos específicos a serem trabalhados na presente existência, cada uma está num degrau diferente de evolução espiritual - que é difícil avaliar, pois não há métodos de medir evolução espiritual a não ser observar o exemplo de um ser humano ao longo de sua existência e, ainda assim, muitos se enganam nessa avaliação, tomando falsos profetas por missionários.
Cabe-nos observar atentamente cada indivíduo, conhecer de perto suas tendências e jamais abdicar da função de educar, o que não significa modelar de fora, mas ajudar o ser a se autoconstruir.
Revista Universo Espírita (n. 40) - 2007 - Pág. 58
http://www.partidaechegada.com


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