a partir de maio 2011

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ciência ou Religião: de que lado você está?


Ely Edison Matos
 
                É impressionante que o século XXI se inicie com tanta gente respondendo a pergunta acima de forma absoluta, escolhendo uma ou outra. Demonstram desconhecer tanto sobre ciência quanto sobre religião ou, pelo menos, apóiam sua resposta em conceitos que já estão caducando.
                O movimento de aproximação dos conceitos científicos e religiosos foi iniciado há muito tempo. Allan Kardec teve oportunidade de anotar o relevante papel da Doutrina Espírita neste processo (ESE, cap. I, it. 8). No entanto, a revolução é de grandes proporções, e a resistência também é grande.
                Acompanhando alguns órgãos de imprensa nas últimas semanas, em suas reportagens e artigos assinados, percebemos como, de forma sutil, o pensamento materialista ainda se faz presente. Seja na defesa dos chamados “direitos individuais”, no caso do aborto e da eutanásia, seja na defesa dos “avanços científicos”, no caso da clonagem e das experiências com embriões, seja na crítica contumaz à “pureza doutrinária” desta ou daquela religião.
                Nossa preocupação procede, se consideramos que a imprensa é formadora de opinião. Não é raro encontrarmos aqueles que não pensaram sobre um tema, repetirem idéias veiculadas nas revistas ou jornais como se fosse sua própria opinião. Os exemplos que citamos são temas que demandam grande discussão e seriedade, e não considerações superficiais como as que temos lido; mas infelizmente são poucos os que se animam a isso. Mesmo no meio espírita, são muitos os que preferem seguir a “maioria” a pensar com o próprio cérebro.
                Após o nazismo, Albert Einstein, repensando a relação entre ciência e religião, afirma em 1941, a célebre frase: "Uma ciência sem religião é paralítica, uma religião sem ciência é cega". Ao apresentar o duplo caráter da revelação espírita, ao mesmo tempo divina – religiosa - e científica, no cap. I de “A Gênese” (infelizmente ignorado por muitos espíritas), Allan Kardec coloca o Espiritismo como o traço de união entre uma e outra.
                Cabe à ciência a revelação das leis do mundo material e à religião a revelação das leis do mundo moral. A Doutrina Espírita estende o campo de observação de ambas. Mostra à ciência que o “material” não se resume a este mundo físico, que o mundo espiritual também é composto por matéria, e que a matéria sofre sempre a ação do ser inteligente, o Espírito. Ao desprezar o Espírito, nas suas equações e pesquisas, a ciência se torna paralítica. Mostra à religião, que a “moral” não está restrita à mutável interpretação humana, quase sempre dogmática, mas que também é regida por leis, as leis divinas, que devem ser estudadas e analisadas racionalmente. Ao desprezar a razão, em seus postulados, a religião se torna cega.
                Nesta época de transição em que vivemos, a Doutrina Espírita é chamada, através de seus profitentes, a opinar cada vez mais. O desenvolvimento científico é impressionante em todas as áreas, dando ao homem um poder que não possuía há poucos anos. As instituições religiosas também passam por transições e precisam buscar o equilíbrio entre fidelidade doutrinária e estagnação. Temas polêmicos estão na pauta do dia, e se a discussão continuar polarizada entre cientistas e religiosos, ambos com uma visão extremamente parcial – por desconhecerem, não aceitarem ou deturparem a realidade do Espírito – as conseqüências para a sociedade serão muito sérias. Corremos o risco de sair da ditadura da fé para a ditadura da razão.
                Por isso o espírita precisa estudar, manter-se atualizado, analisar e questionar dentro de seu grupo, a fim de que suas opiniões e argumentos não careçam de fundamentação, quando questionado.
Lembremos que mesmo no meio espírita enfrentamos tais desafios. Mantendo, através da Internet, contato com as idéias de espíritas espalhados por todo o Brasil e mesmo do exterior, notamos que a velha discussão entre “científicos” e “místicos”, travada nos primórdios do movimento espírita brasileiro, continua acesa em muitos corações e em muitas casas espíritas. Não são poucas as casas que adotaram apenas o aspecto religioso, onde as palestras se dedicam tão-somente aos chamados “estudos evangélicos” e as reuniões mediúnicas se tornaram verdadeiros cultos exteriores. Ignoram os estudos das obras básicas, seus dirigentes assumem papéis de sacerdotes e criam estranhos rituais. Por outro lado, encontramos também aqueles que pregam a volta absoluta ao método científico usado por Kardec na codificação, por julgarem que o “evangelismo igrejeiro” está predominando no movimento espírita. Propõem a adoção de termos científicos “atuais” em substituição aos termos doutrinários e a continuidade da pesquisa sistemática dos fenômenos mediúnicos.
                O maior erro, no entanto, continua sendo o pensamento absolutista, no sentido de que “todos devem fazer como faço”, “todos devem pensar como penso”. A Doutrina Espírita, por sua abrangência, é capaz de abrigar as várias correntes de pensamento, sem que haja contradição. A religião nos oferece finalidades, a ciência nos oferta os meios. A religião nos aponta o caminho, a ciência faz nossos pés caminharem. A religião consola nossa ignorância, a ciência esclarece nossa ignorância.
Cabe, pois, ao espírita um cuidado redobrado. Entre Ciência e Religião, fiquemos com as duas.

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