a partir de maio 2011

sábado, 28 de abril de 2012

Sobre religião e espiritismo


Adams Auni
Seg, 12 de Dezembro de 2011 
Às vezes nos questionam e nos questionamos se a Doutrina Espirita é religião?

Kardec diz que ela possui aspectos de uma religião, que dependendo da situação e do ponto de vista pode ser vista sim, como religião, mas também não se apresenta com toda a ortodoxia religiosa, logo, também, não pode ser vista como religião.

E agora? Como fica? Na verdade não “fica” e por entender a transitoriedade das coisas, diríamos que “está” em processo de evolução.

A palavra religião vem do latim “religare” que muitos traduzem como uma “religação” a Deus. Nesse sentido ainda é apresentado dentro de uma visão ortodoxa e cartesiana. Ninguém ou coisa alguma está ou ficou em momento algum desligado de Deus. Caso isso fosse absurdamente possível Ele não seria Deus, a inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas.

O “religare” na verdade quer dizer a sua religação com você mesmo, com a sua essência espiritual que em algum momento você se distraiu e precisa acordar para a sua natureza espiritual, com isso, se sentir ligado a Deus. E para isso, em muitos casos, é através de uma “religião” que o indivíduo desenvolve a sua religiosidade e desperta a sua espiritualidade.

Esses processos podem ser objetivos e conscientes e com isso mais rápido, até mesmo usando ou não práticas e rituais como condicionamento (desde uma oração a cerimonias elaboradas) e ou sem objetivo claro e de forma inconsciente, também relacionando-o ou não com a necessidade pessoal de práticas e rituais para isso, porém levará dessa forma mais tempo para o despertamento do “religare” a si mesmo.

Ao tratarmos de consciente e inconsciente remontamos a nossa estrutura, que segundo André Luiz, somos um psicosoma, onde o espírito é essa parte psíquica e o corpo físico é essa “soma” de componentes, presentes na espiral evolutiva do espírito.

Então a questão de “religião” é também uma questão orgânica e não apenas de crença e valores, pois é preciso uma estrutura física cada vez mais sofisticada e elaborada para entender e traduzir esse processo religioso em si mesmo, despertando a própria essência espiritual e promover a sua evolução.

André Luiz, no livro No Mundo Maior, Cap.3, A Casa Mental, 7º edição, 1977, FEB, cita a evolução da estrutura neural no conceito do cérebro Trino, apresentado pelo médico Paul Mac.Lean, sendo o cérebro humano formado basicamente por três partes: reptiliano, límbico, neocortex.

Andre Luiz, nos esclarece que sendo a parte mais “moderna” do cérebro humano, o Neocortex apresenta possibilidades até então impossíveis as demais estruturas. Nos informando que já se utiliza com maior eficácia os “lobos” frontais e temporais e que segundo o autor espiritual, seriam neles que as possibilidades ampliadas do corpo físico para a “espiritualidade”, logo, uma maior “religiosidade”.

O psiquiatra Carl Gustav Jung detalha a psique como uma pequena parcela do consciente tal como uma ilha em um oceano infinito de inconsciente. Nessa estrutura, Jung estabelece: consciente, Ego, inconsciente pessoal e inconsciente coletivo.

Presente no inconsciente coletivo da humanidade, segundo Jung, estão os “arquétipos”. Esses “arquétipos” estariam para formas sem conteúdo. Segundo Jung eles são “vazios em si”. Serão preenchidos pelas experiências de vida de cada um e se manifestam, no psiquismo, através de símbolos ou comportamentos.

Eles constituem possibilidades de o indivíduo agir de uma certa maneira diante de certas situações da vida. Jung afirma que esse conceito surgiu através das observações dos mitos, contos, fábulas universais, pois eles abordam temas e representações específicas que apareceram em diferentes povos de todas as partes do mundo. Portanto temos aqui a base para o dogmatismo religioso, por estar “entranhado” no psiquismo profundo do espírito.

No site “Grupo de Estudos da Doutrina Espirita”, GEDE (http://grupogede@vilabol.com. br), sem nenhuma intenção proselitista, encontra-se um estudo sobre a questão da Doutrina ser ou não ser religião. Participei desse estudo e confesso que para mim e tenho certeza que para muitos já comprometidos com a causa do Espiritismo, ser ou não determinante uma religião não muda em nada o meu comprometimento.

Quem está comprometido está por seus valores e não por dogmas. O próprio Kardec nos diz no livro O que é Espiritismo, que a Doutrina Espírita tem por objetivo ser o “substrato” para todas as religiões quanto a necessidade em cada uma de saber o que é o “Espirito” e a vida espiritual.

Espiritismo, um futuro para as religiões? Percebe-se em Kardec a grande preocupação em estabelecer a “inteligência” suprema de Deus, colocando, mesmo que, de forma cientifica, sobretudo filosófica, a essência de Deus sobre todas as coisas.

Kardec coloca a palavra religião para repudiar a princípio o contexto dogmático e arcaico da igreja católica da época, nos auxilia a entender que o sentido de religião estaria dentro de um processo de crescimento e evolução necessários ao ser, na busca do entendimento de si mesmo, sem a dependência dos sacerdotes e rituais da igreja.

Kardec, a à sua época, reúne ciência, filosofia e religião (como ele entende) e solidifica os laços entre razão e fé.

A ciência não precisa ser apenas uma investigadora do mundo material, pode ser também uma investigadora do mundo espiritual.

O espiritismo faz a crítica da fé, a partir da razão, mas sem ferir-lhe a essência. Em Obras Póstumas Ed.Celd,2002... O espiritismo... Instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai direto a Deus, sem se deter as abas de uma sotaina ou nos degraus de um altar.

Comprovando a existência do espírito, pensava Kardec, o espiritismo reforçaria a posição das religiões dando-lhes uma base factual e a imortalidade não seria mais apenas um pressuposto de fé.

Através do Espiritismo, Kardec torna natural o sobrenatural, “dessacralizando” a comunicação com o mundo espiritual.

O espiritismo democratiza a religião, a racionaliza, reconduzindo-a para o patamar do cotidiano.

Assim, a religião é uma forma de ser e estar no mundo que não se pode simplesmente deixar de lado, porque constitui parte integrante da nossa consciência.

Mudar isso demanda um processo doloroso e tem que ser muito lentamente e conscientemente, para cumprir o objetivo de crescimento e evolução.

O Espiritismo consola os corações como uma religião, esclarece as mentes ávidas de respostas com sua filosofia racional e esclarece o sobrenatural pela luz da razão e da ciência demonstrando que tudo esta sob as mesmas leis físicas.

No livro “Obras Póstumas, Ed.Celd, 2002 – capítulo: Das manifestações dos Espíritos”: ... Se, ao contrário, a possibilidade dos mesmos fatos for demonstrada como efeitos das leis naturais, já não haverá cabimento para que alguém os repila, nem repila a religião que os proclame.

O Espiritismo, que se funda no conhecimento de leis até agora incompreendidas, não vem destruir os fatos religiosos, porém sancioná-los, dando-lhes uma explicação racional...

Por isto, a Doutrina Espírita, sem ser uma religião, conduz essencialmente as idéias religiosas, desenvolvendo-as naqueles que não as tem e fortificando- as naqueles em que vacilam.

Recobrando a lucidez dos iludidos diante dos ditames teológicos e do obstrucionismo clerical, traduzindo o sobrenatural para o natural, da mesma forma que ilustres cientistas traduzem a matéria em energia.

A moral espírita, a primeira vista pode apresentar-se “pouco” amorosa e com certa “sisudez” em suas palavras e expressões.

Obras complementares como de Leon Denis, Emanuel, Andre Luiz, Joanna de Angelis, Maria Dolores e outros carinhosos mentores, auxiliam o entendimento no desdobrar dos objetivos do codificador, trazendo-nos o lenitivo para conteúdos atávicos que carregamos e insistirmos em perpetuar.

Evoluir o conceito cartesiano de causa e efeito, que embora não seja exatamente o que a Doutrina Espirita expressa em seus propósitos, ainda é dessa forma que muitos “espíritas” a entendem, aplicando uma carga de determinismo que não deveria.

O espírito não existe e não se expressa de forma determinística, mas sim em forma probalística.

Dependerá de nós mesmos a interpretá-la a luz da fé raciocinada e evolutiva, na busca de atender nossas necessidades pessoais.

O psicólogo Abraham Maslow apresenta a pirâmide das necessidades em 5 níveis: fisiológicas, manutenção dessas necessidades, necessidade de socialização, necessidade do bem estar e necessidade para a auto-realização.

Na representação hierárquica, no vértice está o “responsável” por toda a pirâmide e os abaixo dele teriam responsabilidades com os níveis acima. Se transferirmos esses pontos para as nossas buscas e anseios em uma religião, teríamos na base as nossas necessidades mais “básicas” e chegando no vértice da pirâmide a nossa realização pessoal, autoconhecimento e o altruísmo.“Essas necessidades estariam correlacionadas e presentes na religião, seja ela qual for, como o conjunto de preceitos e necessidades para se sentir em comunhão com Deus, encontrando cada um, o nível correspondente ao propósito pessoal.”

Espelhando-se na pirâmide de Maslow, dentro de uma religião, será possível ter identificações nos entendimentos de base plenamente satisfeito e seguir rumo ao vértice.

Passar por esse estágio, prosseguir na busca rumo a “iluminação espiritual” e estar mais relacionado com os valores do autoconhecimento. Se ajustando em suas buscas, apresentando-se plenamente ciente de sua condição de “viajante impermanente”, logo, a religião que atender as suas necessidades é a melhor.

“Para cada proposta religiosa o indivíduo dela retira o que lhe sustenta a fé.” Essa necessidade atendida é individual, íntimo, pessoal e está ligada a “dependência e satisfação”.

Nos entendemos que para cada nível de necessidade estariam inseridas pirâmides pessoais com um micro cosmos de necessidades a ser atendido e em alguns casos elas estariam invertidas. São etapas em si mesmo.

Permanecer “estacionado” depende de cada um no movimento “religioso”, nos processos de auto-realização e relação com a essência divina.
A escalada é depurativa, é exercício do desapego.

Somos seres preponderantemente emocionais, nossas estruturas bioquímicas são ligadas e desligadas pelas emoções que produzimos e realizamos em nós mesmos. Esses processos bioquímicos são tão fortes que dependemos desse processo para o nosso equilíbrio, sobrevivência, cura e saúde.

Possibilidade de realizar processos mentais, que a medida que evoluí o espirito, o corpo evolui também e cada vez mais elaborados os corpos, mais elevados as possibilidades de pensamentos também elevados.

Podemos inferir que a cada nível de “religiosidade na religião” ocorra de igual forma um processo bioquímico diferente. Cada um em si mesmo estabelece em que nível está mais “confortável” a se relacionar com Deus.

Dependerá da busca pessoal aceitar apenas o “confortável” ou se desafiar ao “desconforto”, prosseguir e estar mais íntimo de Deus.

A hierarquia da pirâmide de Maslow em sua escala de necessidades transpõe a medida da necessidade em cada um de sua busca pessoal.

O seu universo íntimo precisa ser motivado, administrado e direcionado para o alto é a religiosidade que toda e boa religião precisa desenvolver, caso contrário será mais um proselitismo vazio de esperança e consolo e cheio de dogmas.

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