a partir de maio 2011

domingo, 18 de março de 2012

A PRECE


A prece deve ser uma expansão íntima da alma para com Deus, um colóquio
solitário, uma meditação sempre útil, muitas vezes fecunda. É, por excelência, o
refúgio dos aflitos, dos corações magoados. Nas horas de acabrunhamento, de
pesar íntimo e de desespero, quem não achou na prece a calma, o reconforto e o
alivio a seus males? Um diálogo misterioso se estabelece entre a alma sofredora e
a potência evocada. A alma expõe suas angústias, seus desânimos; implora
socorro, apoio, Indulgência. E, então, no santuário da consciência, uma voz secreta
responde: é a voz dAquele donde dimana toda a força para as lutas deste
mundo, todo o bálsamo para as nossas feridas, toda a luz para as nossas
incertezas. E essa voz consola, reanima, persuade; traz-nos a coragem, a submissão,
a resignação estóicas. E, então, erguemo-nos menos tristes, menos
atormentados; um raio de sol divino luziu em nossa alma, fez despontar nela a
esperança.
Há homens que desdenham a prece, que a consideram banal e ridícula. Esses
jamais oraram, ou, talvez, nunca tenham sabido orar. Ah! sem dúvida, se só se
trata de padre-nossos proferidos sem convicção, de responsos tão vãos quanto
Intermináveis, de todas essas orações classificadas e numeradas que os lábios
balbuciam, mas nas quais o coração não toma parte, pode-se compreender tais
críticas; porém, nisso não consiste a prece. A prece é uma elevação acima de
todas as coisas terrestres, um ardente apelo às potências superiores, um Impulso,
um vôo para as regiões que não são perturbadas pelos murmúrios, pelas
agitações do mundo material, e onde o ser bebe as Inspirações que lhe são
necessárias. Quanto maior for seu alcance, tanto mais sincero é seu apelo, tanto
mais distintas e esclarecidas se revelam as harmonias, as vozes, as belezas dos
mundos superiores. É como que uma janela que se abre para o Invisível, para o
infinito, e pela qual ela percebe mil impressões consoladoras e sublimes. Impregna-
se, embriaga-se e retempera-se nessas impressões, como num banho fluidico
e regenerador.
Nos colóquios da alma com a Potência Suprema a linguagem não deve ser
preparada ou organizada com antecedência; sobretudo, não deve ser uma
fórmula, cujo tamanho é proporcional ao seu importe monetário, pois isso seria
uma profanação e quase um sacrilégio. A linguagem da prece deve variar
segundo as necessidades, segundo o estado do Espírito humano. É um grito, um
lamento, uma efusão, um cântico de amor, um manifesto de adoração, ou um
exame de seus atos, um Inventário moral que se faz sob a vista de Deus, ou ainda
um simples pensamento, uma lembrança, um olhar erguido para o céu.
Não há horas para a prece. Sem dúvida, é conveniente elevar-se o coração a
Deus no começo e no fim do dia. Mas, se não vos sentirdes motivados, não oreis;
é melhor não fazer nenhuma prece do que orar somente com os lábios. Em
compensação, quando sentirdes vossa alma enternecida, agitada por um
sentimento profundo, pelo espetáculo do infinito, deveis fazer a prece, mesmo que
seja à beira dos oceanos, sob a claridade do dia, ou debaixo da cúpula brilhante
das noites; no meio dos campos e dos bosques sombreados, no silêncio das
florestas, pouco importa; é grande e boa toda causa que, produzindo lágrimas em

nossos olhos ou dobrando os nossos joelhos, faz também emergir em nosso
coração um hino de amor, um brado de admiração para com a Potência Eterna
que guia os nossos passos por entre os abismos.
Seria um erro julgar que tudo podemos obter pela prece, que sua eficácia
Implique em desviar as provações inerentes à vida. A lei de imutável justiça não se
curva aos nossos caprichos. Os males que desejaríamos afastar de nós são,
muitas vezes, a condição necessária do nosso progresso. Se fossem suprimidos,
o efeito disso seria tornar estéril a nossa vida. De outro modo, como poderia Deus
atender a todos os desejos que os homens exprimem nas suas preces? A maior
parte destes seria incapaz de discernir o que convém, o que é proveitoso. Alguns
pedem a fortuna, ignorando que esta, dando um vasto campo às suas paixões,
seria uma desgraça para eles.
Na prece que diariamente dirige ao Eterno, o sábio não pede que o seu destino
seja feliz; não deseja que a dor, as decepções, os revezes lhe sejam afastados.
Não! O que ele implora é o conhecimento da Lei para poder melhor cumpri-la; o
que ele solicita é o auxílio do Altissimo, o socorro dos Espíritos benévolos, a fim
de suportar dignamente os maus dias. E os bons Espíritos respondem ao seu
apelo. Não procuram desviar o curso da justiça ou entravar a execução dos
decretos divinos. Sensíveis aos sofrimentos humanos, que conheceram e
suportaram, eles trazem a seus irmãos da Terra a inspiração que os sustém
contra as influências materiais; favorecem esses nobres e salutares pensamentos,
esses Impulsos do coração que, levando-os para altas regiões, os libertam das
tentações e das armadilhas da carne. A prece do sábio, feita com recolhimento
profundo, isolada de toda preocupação egoísta, desperta essa Intuição do dever,
esse superior sentimento do verdadeiro, do bem e do justo, que o guiam através
das dificuldades da existência e o mantêm em comunicação íntima com a grande
harmonia universal.
Mas, a Potência Soberana não só representa a justiça; é também a bondade,
imensa, infinita e caritativa. Ora, por que não obteríamos por nossas preces tudo o
que a bondade pode conciliar com a justiça? Podemos pedir apoio e socorro nas
ocasiões de angústia, mas somente Deus pode saber o que é mais conveniente
para nós e, na falta daquilo que lhe pedimos, enviar-nos-á proteção fluídica e
resignação.
*
Logo que uma pedra fende as águas, vê-se-lhes a superfície vibrar em
ondulações concêntricas. Assim também o fluído universal vibra pelas nossas
preces e pelos nossos pensamentos, com a diferença de que as vibrações das
águas são limitadas, enquanto as do fluído universal se sucedem ao infinito.
Todos os seres, todos os mundos estão banhados nesse elemento, assim como
nós o estamos na atmosfera terrestre. Daí resulta que o nosso pensamento,
quando é atuado por grande força de impulsão, por uma vontade perseverante, vai
impressionar as almas a distâncias incalculáveis. Uma corrente fluídica se
estabelece entre umas e outras e permite que os Espíritos elevados nos
Influenciem e respondam aos nossos chamados, mesmo que estejam nas
profundezas do espaço.

Também sucede o mesmo com todas as almas sofredoras. A prece opera
nelas qual magnetização a distância. Penetra através dos fluídos espessos e
sombrios que envolvem os Espíritos infelizes; atenua suas mágoas e tristezas. É a
flecha luminosa, a flecha de ouro rasgando as trevas. É a vibração harmônica que
dilata e faz rejubilar-se a alma oprimida. Quanta consolação para esses Espíritos
ao sentirem que não estão abandonados, quando vêem seres humanos
interessando-se ainda por sua sorte! Sons, alternativamente poderosos e ternos,
elevam-se como um cântico na extensão e repercutem com tanto maior
intensidade quanto mais amorosa for a alma donde emanam. Chegam até eles,
comovem-nos e penetram profundamente. Essa voz longínqua e amiga dá-lhes a
paz, a esperança e a coragem. Se pudéssemos avaliar o efeito produzido por uma
prece ardente, por uma vontade generosa e enérgica sobre os desgraçados, os
nossos votos seriam muitas vezes a favor dos deserdados, dos abandonados do
espaço, desses em quem ninguém pensa e que estão mergulhados em sombrio
desânimo.
Orar pelos Espíritos infelizes, orar com compaixão, com amor, é uma das mais
eficazes formas de caridade. Todos podem exercê-la, todos podem fácilitar o
desprendimento das almas, abreviar o tempo da perturbação por que elas passam
depois da morte, atuando por um impulso caloroso do pensamento, por uma
lembrança benévola e afetuosa. A prece fácilita a desagregação corporal, ajuda o
Espírito a libertar-se dos fluídos grosseiros que o ligam à matéria. Sob a Influência
das ondulações magnéticas projetadas por uma vontade poderosa, o torpor cessa,
o Espírito se reconhece e assenhoreia-se de si próprio.
A prece por outrem, pelos nossos parentes, pelos Infortunados e enfermos,
quando feita com sentimentos sinceros e ardente fé, pode também produzir efeitos
salutares. Mesmo quando as leis do destino lhe sejam um obstáculo, quando a
provação deva ser cumprida até ao fim, a prece não é inútil. Os fluídos benéficos
que traz em si acumulam-se para, no momento da morte, recairem sobre o
perispírito do ser amado.
“Reuni-vos para orar”, disse o apóstolo (100). A prece feita em comum é um
feixe de vontades, de pensamentos, raios, harmonias e perfumes que se dirige
mais poderosamente ao seu alvo. Pode adquirir uma força irresistível, uma força
capaz de agitar, de abalar as massas fluídicas. Que alavanca poderosa para a
alma entusiasta, que dá ao seu impulso tudo quanto há de grandioso, de puro e de
elevado em si! Nesse estado, seus pensamentos irrompem como corrente
impetuosa, de abundantes e potentes eflúvios. Tem-se visto, algumas vezes, a
alma em prece desprender-se do corpo e, inebriada pelo êxtase, seguir o
pensamento fervoroso que se projetou como seu precursor através do infinito. O
homem traz em si um motor incomparável, de que apenas sabe tirar medíocre
proveito. Entretanto, para fazê-lo agir bastam duas coisas: a fé e a vontade.
Considerada sob tais aspectos, a prece perde todo o caráter místico. O seu
alvo não é mais a obtenção de uma graça, de um favor, mas, sim, a elevação da
alma e o relacionamento desta com as potências superiores, fluídicas e morais. A
prece é o pensamento inclinado para o bem, é o fio luminoso que liga os mundos
obscuros aos mundos divinos, os Espíritos encarnados às almas livres e radiantes.
Desdenhá-la seria desprezar a única força que nos arranca ao conflito das
paIxões e dos interesses, que nos transporta acima das coisas transitórias e nos

une ao que é fixo, permanente e imutável no Universo. Em vez de repelirmos a
prece, por causa dos abusos ridículos e odiosos de que foi objeto, não será
melhor nos utilizarmos dela com critério e medida? É com recolhimento e sinceridade,
é com sentimento que se deve orar. Evitemos as fórmulas banais usadas
em certos meios. Nessas espécies de exercícios espirituais, apenas a nossa boca
se move, pois a alma conserva-se muda. No fim de cada dia, antes de nos
entregarmos ao repouso, perscrutemos a nós mesmos, examinemos
cuidadosamente as nossas ações. Saibamos condenar o que for mau, a fim de o
evitarmos, e louvemos o que houvermos feito de bom e útil. Solicitemos da
Sabedoria Suprema que nos ajude a realizar em nós e ao nosso redor a beleza
moral e perfeita. Longe das coisas mundanas, elevemos os nossos pensamentos.
Que nossa alma se eleve, alegre e amorosa, para o Eterno. Ela descerá então
dessas alturas com tesouros de paciência e de coragem, que tornarão fácil o
cumprimento dos seus deveres e da sua tarefa de aperfeiçoamento.
E se, em nossa incapacidade para exprimir os sentimentos, é absolutamente
necessário um texto, uma fórmula, digamos:
“Meu Deus, vós que sois grande, que sois tudo, deixai cair sobre mim, humilde,
sobre mim, eu que não existo senão pela vossa vontade, um raio de divina luz.
Fazei que, penetrado do vosso amor, me seja fácil fazer o bem e que eu tenha
aversão ao mal; que, animado pelo desejo de vos agradar, meu espírito vença os
obstáculos que se opõem à vitória da verdade sobre o erro, da fraternidade sobre
o egoísmo; fazei que, em cada companheiro de provações, eu vej a um irmão,
assim como vedes um filho em cada um dos seres que de vós emanam e para vós
devem voltar. Dai-me o amor do trabalho, que é o dever de todos sobre a Terra, e,
com o auxílio do archote que colocaste ao meu alcance, esclarecel-me sobre as
imperfeições que retardam meu adiantamento nesta vida e na vindoura.” (101)
Unamos nossas vozes às do infinito. Tudo ora, tudo celebra a alegria de viver,
desde o átomo que se agita na Lua até o astro Imenso que flutua no éter. A
adoração dos seres forma um concerto prodigioso que se expande no espaço e
sobe a Deus. É a saudação dos filhos ao Pai, é a homenagem prestada pelas
criaturas ao Criador. Interrogai a Natureza no esplendor dos dias de sol, na calma
das noites estreladas. Escutai as grandes vozes dos oceanos, os murmúrios que
se elevam do seio dos desertos e da profundeza dos bosques, os acentos
misteriosos que se desprendem da folhagem, repercutem nos desfiladeiros
solitários, sobem as planícies, os vales, franqueiam as alturas e espalham-se pelo
Universo. Por toda parte, em todos os lugares, concentrando-vos, ouvireis o
cântico admirável que a Terra dirige à Grande Alma. Mais solene ainda é a prece
dos mundos, o canto suave e profundo que faz vibrar a Imensidade e cuja
significação sublime somente os Espíritos elevados podem compreender.
(100) Atos, 12:12
(101) Prece inédita, ditada, com o auxílio de uma mesa, pelo Espírito Jerônimo de Praga, a um
grupo de operários.

DEPOIS DA MORTE
LEON DENIS




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