Por Sérgio Aleixo
Uma causa com certos tipos de amigos não precisaria de
inimigos. Reduzir o nível de oportunidade do Espiritismo ao seu aspecto moral é
mal conhecê-lo. A isso já bem respondera Kardec em seu artigo O Que Ensina o
Espiritismo, no qual prova que, fora do ensinamento puramente moral, os
resultados do Espiritismo não são tão estéreis quanto pretendem alguns.
(1)
O mestre lhes é, por isso, um
incômodo permanente, razão pela qual sempre buscam levantar-lhe fraquezas, a fim
de tentarem minar o poder que sua obra, e só ela, tem de conferir ao Espiritismo
unidade consistente, afastando-o das propostas em que vale quase tudo se em nome
do “amor”. O pretenso erro mais levianamente explorado é o suposto racismo de
Kardec. Mas como poderia ser propriamente um racista alguém que escreveu, por
exemplo, isto: [...] o Espiritismo, restituindo ao espírito o seu verdadeiro
papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria,
faz que desapareçam, naturalmente, todas as distinções estabelecidas entre os
homens, conforme as vantagens corporais e mundanas, sobre as quais só o orgulho
fundou as castas e os estúpidos preconceitos de cor.
(2)
[...] do estudo dos seres espirituais ressalta a prova de que
esses seres são de natureza e de origem idênticas, que seu destino é o mesmo,
que todos partem do mesmo ponto e tendem para o mesmo objetivo; que a vida
corporal não passa de um incidente, uma das fases da vida do espírito,
necessária ao seu adiantamento intelectual e moral; que em vista desse avanço o
espírito pode sucessivamente revestir envoltórios diversos, nascer em posições
diferentes, chega-se à consequência capital da igualdade de natureza e, a partir
daí, à igualdade dos direitos sociais de todas as criaturas humanas e à abolição
dos privilégios de raças. Eis o que ensina o Espiritismo.
(3)
Porém, deve-se considerar que, no século 19, o conceito de
raça tinha status de ciência, sendo a chamada branca, ou caucásia,
tida e havida por superior. Naturalistas e até abolicionistas pensavam assim. O
mais polêmico de todos os escritos pinçados por detratores de Kardec sequer foi
por ele publicado, em que dizia a certa altura: O negro pode ser belo para o
negro, como um gato é belo para um gato; mas, não é belo em sentido absoluto,
porque seus traços grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos
instintos; podem exprimir as paixões violentas, mas não podem prestar-se a
evidenciar os delicados matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito
fino. (4)
No entanto, omite-se o parágrafo seguinte, em que a pretensa
condição superior daquela geração foi duramente relativizada pelo mestre
espírita, dando prova de que se tratava, nele, não de preconceito ou
discriminação, mas de uma inferência impregnada da opinião científica daquele
momento, tipicamente eurocêntrico: Daí o podermos, sem fatuidade, creio,
dizer-nos mais belos do que os negros e os hotentotes. Mas, também pode ser que,
para as gerações futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com
relação a nós. E quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, elas
não os tomarão pelos de alguma espécie de animais. (5)
Argumenta um irmão em Espiritismo que o erro foi Kardec ter
usado um exemplo contemporâneo. Se escrevesse “homens de neanderthal” em vez de
“negros e hotentotes”, nada se diria. Concordo. Ou será que o trabalho dos
espíritos não aprimora os instrumentos de que se servem ao longo de milênios?
Isso, claro, não tem valor pontual. Uma pessoa “feia” não é dona, a
priori, de um espírito involuído, nem uma pessoa “bonita” é a encarnação de
um espírito necessariamente avançado. Kardec defendia, antes de tudo, que a
evolução dos espíritos opera a evolução dos corpos; ou serão mesmo casuais as
mutações adaptativas? Parte alguma têm os espíritos nisso?
10. [...] o corpo é simultaneamente o envoltório e o
instrumento do espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste um
envoltório adequado ao novo gênero de trabalho que deve realizar, assim como se
dá a um operário ferramentas menos grosseiras, à medida que ele é capaz de fazer
uma obra mais delicada.
11. Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio
espírito que modela o seu envoltório, adequando-o às suas novas necessidades.
Ele o aperfeiçoa, desenvolve e completa o seu organismo à medida que experimenta
a necessidade de manifestar novas faculdades; em uma palavra, ele o talha de
acordo com a sua inteligência. Deus lhe fornece os materiais, cabendo a ele
empregá-los. É assim que as raças mais adiantadas têm um organismo, ou, se
preferirem, uma ferramenta mais aperfeiçoada do que as raças mais primitivas.
Assim também se explica o cunho especial que o caráter do espírito imprime aos
traços fisionômicos e às linhas do corpo [...]
15. [...] Corpos de macacos podem muito bem ter servido de
vestimenta aos primeiros espíritos humanos, necessariamente pouco adiantados,
que tenham vindo encarnar na Terra, essas vestimentas foram as mais apropriadas
às suas necessidades e mais adequadas ao exercício das suas faculdades que o
corpo de qualquer outro animal. Ao invés de ser feita uma vestimenta especial
para o espírito, ele teria achado uma pronta. Vestiu-se então da pele do macaco,
sem deixar de ser espírito humano, assim como o homem, não raro, se veste com a
pele de certos animais sem por isso deixar de ser homem.
16. [...] pode-se dizer que, sob a influência e por efeito da
atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou,
embelezou-se nos detalhes, conservando sempre a forma geral do conjunto. Os
corpos aperfeiçoados, ao se procriarem, reproduziram-se nas mesmas condições
[...] (6)
Outra objurgatória é a que costuma atingir o presidente
espiritual da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: São Luís. Antes de
tudo, saiba-se que, na S.P.E.E., era frequente os guias se comunicarem por
médiuns distintos e em épocas diferentes. A resposta de São Luís pode ter sido
vazada na forma infracitada por imperfeição do trabalho de um só desses médiuns.
Seria precipitado malsinar o espírito com base nessa única situação, sem
evidência de isso corresponder, nele, a um padrão inferior qualquer.
Na evocação do “negro Pai César”, (7) além do mais, o médium
atua como intermediário de dois espíritos: São Luís, que auxilia nas respostas,
e Pai César, submetido a essa ajuda. Existe a possibilidade de o médium não ser
filtrado bem os recados, ou os ter entrecruzado. A opinião, ao demais, de que
a brancura conferia superioridade é, ali, não de São Luís, mas do Pai César, e
ainda assim, não por conta da cor branca em si, mas das relações de poder
naquela sociedade.
O espírito chega a dizer que estava
mais feliz que na Terra porque seu espírito não era mais negro; isto é, por não
estar mais sujeito às humilhações aqui sofridas, não sendo o espírito rico ou
pobre, homem ou mulher, velho ou criança, negro ou branco. Todavia, numa
inesperada inferência, dada sua condição, afirmou o Pai César que os brancos
eram orgulhosos de uma “alvura” de que não eram a causa. Parece mais São Luís,
aí, do que Pai César.
De qualquer forma, causa estranhamento a resposta ao n. 9:
“[A São Luís]. – A raça negra é de fato uma raça inferior? Resp. –
A raça negra desaparecerá da Terra. Foi feita para uma latitude diversa da
vossa”. (8) Agora já pareceu mais Pai César algo frustrado com sua encarnação
anterior do que São Luís, o qual responde assim à última pergunta de Kardec: 12.
(A São Luís) - Algumas vezes os brancos reencarnam em corpos negros? Resp. -
Sim. Quando, por exemplo, um senhor maltratou um escravo, pode acontecer que
peça, como expiação, para viver num corpo negro, a fim de sofrer, por sua vez, o
que fez padecer os outros, progredindo por esse meio e obtendo o perdão de Deus.
(9)
Não há muito, apareceu “Nota Explicativa” da Federação
Espírita Brasileira repelindo qualquer possibilidade de inferência
discriminatória ou preconceituosa na doutrina espírita bem entendida; motivada
foi, contudo, por atuação do Ministério Público Federal. A F.E.B., data
venia, sempre foi mais dedicada a consignar notas que contestem Kardec, como
a que corresponde à Gênese, XV, 66, na qual defende o rustenismo no
momento mesmo em que Kardec o sepultava. Eis, pois, a nota da F.E.B. ao título
da “Nota Explicativa”, esclarecendo a situação da feitura da peça: Nota da
Editora: Esta “Nota Explicativa”, publicada em face de acordo com o
Ministério Público Federal, tem por objetivo demonstrar a ausência de qualquer
discriminação ou preconceito em alguns trechos das obras de Allan Kardec,
caracterizadas, todas, pela sustentação dos princípios de fraternidade e
solidariedade cristãs, contidos na Doutrina Espírita. (10)
Dada a relevância do assunto, todavia, é de se lamentar que
as referências das citações da Revista Espírita nessa Nota Explicativa
febiana hajam sido registradas algo descuidadamente. Das cinco citações diretas
da Revista, nenhuma é vinculada ao tópico a que corresponde e só duas
indicam o mês, o que dificulta sobremodo encontrá-las, e às demais, nos volumes
de outras editoras. Por sinal, um dos textos foi reproduzido sem menção ao
número de sua página nas edições da própria F.E.B. e, ainda, reportando-se ao
mês errado. Onde se lê: “janeiro de 1863”, leia-se: “p. 87, fevereiro de 1863”:
Nós trabalhamos para dar a fé aos que em nada crêem; para espalhar uma crença
que os torna melhores uns para os outros, que lhes ensina a perdoar aos
inimigos, a se olharem como irmãos, sem distinção de raça, casta, seita, cor,
opinião política ou religiosa; numa palavra, uma crença que faz nascer o
verdadeiro sentimento de caridade, de fraternidade e deveres sociais.
(11)
Outro escrito significativo de Kardec a respeito é o que
passo a transcrever na sua íntegra, sem negligenciar o parágrafo final,
inexistente nas edições febianas e congêneres e, por conseguinte, na sua citação
constante da Nota Explicativa da F.E.B.: Com a reencarnação desaparecem os
preconceitos de raças e de classes, pois que o mesmo espírito pode renascer rico
ou pobre, grande senhor ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo,
homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da servidão
e da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, nenhum há que
supere em lógica o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação
fundamenta sobre uma lei da natureza, o princípio da fraternidade universal, ela
fundamenta sobre a mesma lei o princípio da igualdade dos direitos sociais e,
por consequência, o da liberdade.
Os homens só nascem inferiores e subordinados pelo corpo;
pelo espírito eles são iguais e livres. Daí o dever de tratar os inferiores
com bondade, benevolência e humanidade, porque aquele que hoje é nosso
subordinado pode ter sido nosso igual ou nosso superior, pode ser um parente ou
um amigo, e nós, por nossa vez, podemos vir a ser o subordinado daquele que hoje
comandamos. (12)
Portanto, a acusação de racismo a Kardec e ao Espiritismo
nunca poderá superar o vício do anacronismo. Sob esse ponto de vista, Kardec não
seria mais racista do que qualquer europeu de seu tempo, porém, com esta
vantagem soberba: se os erros da ciência de época o autorizaram a crer em
raças primitivas e que podemos nascer inferiores e subordinados pelo
corpo, a isso nunca deixou de contrapor a medida libertária do pensamento
espírita, isto é, pelo espírito somos iguais e livres, não somos homens
ou mulheres, crianças ou velhos, ricos ou pobres, brancos ou negros, o que o
acabou levando à defesa contundente, como se viu, da igualdade dos direitos
sociais de todas as criaturas humanas e da abolição dos privilégios de
raças.
Com os avanços da biogenética, demonstrado está não existirem
genes raciais na espécie humana. Somos, claro, mais evoluídos biologicamente que
nossos ancestrais antropoides. Esta, a única evolução, aliás, admitida pela
ciência. Caso se fale numa evolução espiritual, moral, ou mesmo cultural, é-se
ignorado ou repreendido, porque o espírito, ou a reencarnação, ainda são
irrelevantes para a ciência, assim como Deus. Entretanto, espíritas por
definição, não podemos falar e pensar como agnósticos, ateus, materialistas,
niilistas. Se, por um lado, o Espiritismo nos impõe acompanhar a ciência naquilo
que particularmente a esta diz respeito, é-nos interdito negligenciar o próprio
Espiritismo no que a este compete exclusivamente.
Por isso, dizemos hoje, os espíritas, que não há raças
humanas, menos ainda inferiores ou superiores, de comum acordo nisto com a
ciência, mas igualmente afiançamos que, sim, os espíritos, mediante a
reencarnação, constituem os artífices da evolução biológica. As mutações que
findam por selecionar os mais aptos não são casualmente adaptativas. Como dizia
o mestre espírita por excelência: “Um acaso inteligente já não seria acaso”.
(13)
(1) Revista Espírita. Ago/1865.
(2) Revista Espírita.
Out/1861. Discurso do Sr. Allan Kardec. F.E.B., 2007, 3ª ed., p.
432
(3) Revista Espírita. Jun/1867.
Emancipação das Mulheres nos Estados Unidos. F.E.B., 2007, 2.ª ed, p.
231.
(4) Obras Póstumas. Teoria
da Beleza. F.E.B., 2002, 32.ª ed., p. 168.
(5) Id., ibid. Grifo
meu
(6) KARDEC. A Gênese, XI. Léon Denis Gráfica e
Editora, 2008, 2.ª ed., pp. 235/36 e 237.
(7) No francês: “le nègre Pa
César”.
(8) Revista Espírita.
Jun/1859. O negro Pai César. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p. 245.
(9) Id.,
ibid.
(10) Revista Espírita. ANO I.
F.E.B., 2009, 4ª. ed., p. 537.
(11) KARDEC. Revista
Espírita. Fev/1863. A Loucura Espírita. F.E.B., 2007, 3.ª ed., p.
87.
(12) KARDEC. A Gênese, I,
36. Léon Denis Gráfica e Editora, 2.ª ed., 2008. Com base na 4.ª ed. francesa.
(13) O Livros dos
Espíritos. Comentário ao n. 8.
Fonte: In:
http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com/

Nenhum comentário:
Postar um comentário