a partir de maio 2011

quinta-feira, 15 de março de 2012

A DOUTRINA ESPÍRITA E O ELEMENTO HUMANO

                               Escreve: Deolindo     Amorim
Em: Março de     2012
http://viasantos.com/pense/arquivo/1353.html

A seara espírita é     um campo de experiências. Seria ilusão esperar que todos quantos se engajam     no trabalho espírita, nesta ou naquela faixa, por mais ardoroso que seja o     desejo de servir, já estejam completamente desligados de uns tantos hábitos,     contraídos nos ambientes de onde vieram. Não. As tendências religiosas de     origem, os cacoetes adquiridos na profissão ou na vida social e os impulsos     do próprio temperamento não se modificam de um momento para outro. O fato,     portanto, de ingressarmos nas fileiras espíritas, seja pela dor, seja pela     reflexão profunda ou por outro motivo, não significa que tenhamos deixado lá     fora todas as propensões ou, afinal, toda a bagagem que nos acompanha. Não     se diz a toda hora, e é certo, que o meio espírita é uma escola? Escola     pressupõe aprendizado e melhoramento.

Como a Doutrina     Espírita recebe adesões de pessoas oriundas de todas as classes sociais,     assim como de todas as correntes religiosas e de todos os níveis da escala     humana, as frentes de trabalho no movimento espírita, quer no campo     assistencial, quer no campo doutrinário, mediúnico etc., reúnem elementos     muito variados entre si, com temperamentos, concepções e costumes em tudo e     por tudo diferentes. É natural, até certo ponto, que haja alguns problemas     por falta de entrosamento. Todos, afinal, querem trabalhar e todos são     necessários à realização da obra comum. Mas nem todos sempre se identificam     nas ideias, nos modos de conduzir as tarefas e assim por diante. Todos — é     bom frisar — desejam contribuir com sua parcela de esforço. E todos devem     ter oportunidades de prestar serviço.

O problema não está     propriamente no fato de haver desigualdades individuais por causa da     formação, estrutura psicológica, educação, cultura etc., mas na falta, às     vezes, de tato para contornar as dificuldades entre grupos heterogêneos e     aproveitar bem o que cada qual possa dar de si a despeito das divergências     ou até mesmo de atritos passageiros.

Nos grupos mais     reduzidos, como é o caso de uma diretoria de cinco ou seis pessoas, muitas e     muitas vezes há incompatibilidades temperamentais e desentendimentos     ocasionais, pois, como ensina a sabedoria popular, cada cabeça, cada     sentença!

Homogeneidade     absoluta não é mesmo possível com um material humano ainda em processo     reencarnatório de melhoramento. Mas, é com esse material humano, sujeito aos     altos e baixos da experiência terrena, que se realizam as grandes obras. Se     o nosso movimento tivesse de esperar que aparecessem somente trabalhadores     já depurados de seus velhos compromissos ou sem arestas contundentes, nada     teria sido feito até agora.

Há pessoas, no     entanto, que ainda não compreendem a nossa situação e, por isso, de quando     em quando fazem esta pergunta: – Mas, existem dessas coisas no meio     espírita? E por que não? O meio espírita não é uma comunidade de anjos, mas     de gente de carne e osso, com os seus defeitos e suas qualidades. É verdade     que certos casos já não deviam ocorrer em nosso meio. São casos realmente     discrepantes, de projeção, campanhas anônimas etc. etc. Isso prova que ainda     existe muita fraqueza humana do lado de cá, tanto quanto em outras     atividades humanas.

Não esperemos,     pois, que haja um ajustamento perfeito em todos os campos de trabalho     espírita, já que as criaturas humanas são mesmo desiguais. Entretanto, pela     experiência já vivida e pelo que já se aprendeu na Doutrina até agora,     certas dificuldades, causadas pela incompreensão humana, já não deveriam     ocorrer entre nós. Afinal, ninguém é perfeito, ninguém chega à seara     espírita sem influências do passado, sem alguns prejuízos da educação ou do     ambiente de origem. Mas a casa espírita é uma escola. Sim, escola onde cada     qual deve se esforçar para melhorar.

Afinal de contas, o     que estamos fazendo no meio espírita se ainda estamos presos às mesmas     paixões ou se ainda estamos presos às mesmas tendências negativas de     outrora? Se ao cabo de tudo, nada mudou em nossa vida, pois continuamos com     as mesmas ideias, os mesmos sentimentos, os mesmos hábitos, evidentemente     não incorporamos bem os princípios espíritas ao dinamismo de nossa vivência     cotidiana. É assunto para reflexões mais sérias.

Fonte:     “Ponderações Doutrinárias”, coletânea de artigos     publicada pela Federação Espírita do Paraná (FEP).

Deolindo Amorim nasceu na Bahia em 1906 e     desencarnou no Rio de Janeiro, em 1984. É considerado, ao lado de Carlos     Imbassahy e Herculano Pires, um dos maiores pensadores espíritas das     Américas. De estilo professoral, extremamente didático e elegante, Deolindo     foi um dos maiores divulgadores do espiritismo como cultura e voltado para a     análise de questões da atualidade. Fundou o Instituto de Cultura Espírita do     Brasil (Iceb), foi um dos idealizadores da Associação Brasileira de     Jornalistas e Escritores Espíritas (Abrajee) e graças ao seu empenho, em     conjunto com a Liga Espírita do Brasil, realizou-se no Rio de Janeiro, em     1949, o II Congresso Espírita Pan-Americano.

Obras: Espiritismo e     Criminologia; O Espiritismo e as Doutrinas     Espiritualistas; Africanismo e     Espiritismo; O Espiritismo e os Problemas     Humanos; Ideias e Reminiscências Espíritas; Allan     Kardec, o Homem e o Meio, dentre outras.


* * * http://www.aeradoespirito.net/

http://planetaelios.blogspot.com/

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