O ESPIRITISMO É, SIM, UMA RELIGIÃO E POSSUI ATÉ UM CREDO.
Na primeira matéria da Revista Espírita de dez/1868, que traz seu último discurso à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, Kardec diz que, sim, no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, ao mesmo tempo em que esclarece que não o é na acepção usual do termo, ou seja, a litúrgica. Eis o inafastável fato gramatical. Qualquer negação, pois, desse aspecto religioso kardeciano ao Espiritismo é inteiramente artificial e tendenciosa. E o que não se diz muitas vezes é que, para além de ser ou não ser uma religião, o Espiritismo é como afirmam São Luís e Kardec, o Cristianismo da Idade Moderna, e este nada tem que ver com Emmanuel ou a F.E.B.
Está provado que o Espiritismo é inseparável das ideias religiosas, principalmente das cristãs; que a negação destas é a negação do Espiritismo. [1]
O Espiritismo é o Cristianismo da Idade Moderna. [2]
O Espiritismo é o Cristianismo apropriado ao desenvolvimento da inteligência e isento dos abusos. [3]
O Cristianismo, tal qual saiu da boca de Jesus, mas apenas tal qual saiu, é invulnerável, porque é a lei de Deus. [4]
O Espiritismo é o Cristianismo apropriado ao desenvolvimento da inteligência e isento dos abusos. [3]
O Cristianismo, tal qual saiu da boca de Jesus, mas apenas tal qual saiu, é invulnerável, porque é a lei de Deus. [4]
O Espiritismo só não seria uma religião, portanto, se o Cristianismo igualmente não o fosse. Vale lembrar isto aqui também, do livro Obras Póstumas:
15 de abril de 1860
(Marselha; médium: Sr. Jorge Genouillat)
(Comunicação transmitida pelo Sr. Brion Dorgeval)
(Marselha; médium: Sr. Jorge Genouillat)
(Comunicação transmitida pelo Sr. Brion Dorgeval)
FUTURO DO ESPIRITISMO
O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra. Ele reformará a legislação ainda tão frequentemente contrária às leis divinas; retificará os erros da História; restaurará a religião do Cristo, que se tornou, nas mãos dos padres, objeto de comércio e de tráfico vil; instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus de um altar. Extinguirá para sempre o ateísmo e o materialismo, aos quais alguns homens foram levados pelos incessantes abusos dos que se dizem ministros de Deus, pregam a caridade com uma espada em cada mão, sacrificam às suas ambições e ao espírito de dominação os mais sagrados direitos da Humanidade. – Um Espírito.
30 de abril de 1856
(Em casa do Sr. Roustan; médium: Srta. Japhet)
(Em casa do Sr. Roustan; médium: Srta. Japhet)
PRIMEIRA REVELAÇÃO DA MINHA MISSÃO
[...] Deixará de haver religião e uma se fará necessária, mas verdadeira, grande, bela e digna do Criador... Seus primeiros alicerces já foram colocados... Quanto a ti, Rivail, a tua missão é aí. (Livre, a cesta se voltou rapidamente para o meu lado, como o teria feito uma pessoa que me apontasse com o dedo.) A ti, M..., a espada que não fere, porém mata; contra tudo o que é, serás tu o primeiro a vir. Ele, Rivail, virá em segundo lugar: é o obreiro que reconstrói o que foi demolido.
NOTA [DE KARDEC] — Foi essa a primeira revelação positiva da minha missão e confesso que, quando vi a cesta voltar-se bruscamente para o meu lado e designar-me nominativamente, não me pude forrar a certa emoção.
Quando Kardec nega ser o Espiritismo uma religião, nega-o no sentido litúrgico, correspondente a igrejas constituídas, a sacerdócio organizado, ou seja, na acepção usual do termo. O povo pouco distingue tais coisas e tende a confundir o Espiritismo com uma nova igreja. O que fazermos então? Esclarecer o caso! E não declinar dele pela negativa do aspecto religioso tal qual definido por Kardec, lançando o assunto à cômoda vala da igrejificação e, o que é pior, imputando-o à influência de Emmanuel e da F.E.B., o que não procede.
Roustaing, Bezerra de Menezes, Emmanuel e companhia fomentaram um catolicismo reencarnacionista e mediunista, a nova igreja cristã reformada em que o movimento espírita se tornou, sob a liderança da F.E.B. Isso nada absolutamente tem que ver com o Cristianismo da Idade Moderna proclamado na França por Kardec, São Luís, Erasto e companhia, sob a inspiração ímpar do Espírito de Verdade.
A alguns, porém, não é conveniente fazer tal distinção, porquanto querem um Espiritismo laico, em que praticamente toda a Codificação Espírita não passa de esforço “demasiado” de Kardec em conciliar o Espiritismo com a teologia católica, como diz a C.E.P.A., em rotundo erro e flagrante desrespeito à obra do mestre lionês. [5]
O Espiritismo é ciência e filosofia e religião, e não ciência, filosofia e moral. Ora! Essa moral é a moral de Jesus e é uma moral tipicamente religiosa. Praticamo-la para decidir nosso destino no além e no aquém, em função de um ordenamento das leis naturais que aceitamos, como espíritas cristãos, ser eminentemente divino.
Negar a religiosidade disso é manobra antikardeciana. Os que afastam esse sentido kardeciano de religião ao Espiritismo, sacrificando-o à ignorância popular e ao dogmatismo das igrejas constituídas, são geralmente os mesmos que não aceitam que Jesus possa ser um Espírito puro e que o Espiritismo seja cristão.
Quase sempre são simpatizantes do laicismo, essa flor de estufa muito cultivada por indivíduos ligados a carreiras estatais, onde, aí sim, deve ser padrão, pois ao Estado cabe ser laico por definição, mas o Espiritismo não é um Estado, é uma Doutrina, cujas características são de totalidade, o que não pode nem deve excluir a religião, menos ainda a cristã, como não exclui a ciência nem a filosofia; ou por indivíduos ligados ao cientificismo acadêmico, infelizmente um escravo ainda do materialismo, a despeito de as teorias einsteinianas lhe terem decretado a falência faz tempo.
Além do mais, no sentido filosófico bem autorizado por Kardec e pelo qual chegou a se glorificar, a religião do Espiritismo possui até um credo, apresentado exatamente no mesmo discurso publicado na primeira matéria da Revista Espírita de dez/1868, do qual já tratei num ensaio anterior,[6] mas que não seria inoportuno reproduzir mais uma vez:
Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na equitativa remuneração do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterno; aceitar corajosamente as provações, em vista de um futuro mais invejável que o presente; praticar a caridade em pensamentos, em palavras e obras na mais larga acepção do termo; esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando toda imperfeição de sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre-exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da Ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: EIS O CREDO, A RELIGIÃO DO ESPIRITISMO, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.
Em resumo, Kardec sustenta que, no sentido filosófico por ele autorizado, o Espiritismo é, sim, uma religião, não o sendo no sentido tradicional, litúrgico, e daí, sim, dizer-se doutrina filosófica e moral, isto é, para evitar confusão com o sentido usual. Mas isso não desmente o sentido filosófico inicialmente afirmado. Em absoluto! Desde que seja esclarecido, pois, qual o sentido em foco, pode-se negar ou afirmar o Espiritismo como religião. No sentido usual, litúrgico, o Espiritismo não é uma religião, por não ser igreja constituída, sacerdócio organizado; todavia, no sentido filosófico especialmente autorizado pelo mestre, o Espiritismo é, sim, uma religião e possui até um credo.
Sergio Aleixo
[1] Kardec. Revista Espírita. Abr/1863. Suicídio falsamente atribuído ao Espiritismo.
[2] São Luís. Revista Espírita. Nov/1863. Dissertações Espíritas. A Nova Torre de Babel.
[3] Kardec. Revista Espírita. Jun/1865. Nova tática dos adversários do Espiritismo.
[4] Kardec. Revista Espírita. Jul/1864. A religião e o progresso.
[5] Cf. http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com/2010/09/o-extremo-oposto-d...
[6] Cf. http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com/2010/05/o-credo-espirita.html

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