a partir de maio 2011

domingo, 4 de setembro de 2011

A Quarta Mulher Escreve: Eugenio Lara Em: Junho de 2011

O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.
(Millôr Fernandes)


O movimento feminista já passou dos 40 e, no entanto, a impressão que fica é a de que todas as conquistas das mulheres perderam sua razão de ser com a vulgarização do corpo feminino, o hedonismo desenfreado e a banalização do sexo, seja no Carnaval ou nos meios de comunicação. Parece até que o Millôr tinha razão quando provocava as feministas com suas máximas críticas e debochadas, como essa que serve de epígrafe a esse breve artigo.

Garotas siliconadas, tatuadas, plastificadas, rebolativas nos funks e pagodes, nos Big Brothers e toda uma geração de popozudas, tchutchucas e cachorras que clamam: "um tapinha não dói" e "baba, baby", parecem propor um caminho oposto à libertação feminina.

Essa "liberação", submissa ao machismo, anda de mãos dadas com o culto ao não tão velho tabu da virgindade e ao recato repressor, numa postura neomoralista e vazia, que questiona a própria libertação feminina. Há filhos e filhas que acham os pais liberais demais; meninas sonham em casar virgens, renegando toda a liberação feminina e o combate a esse tabu sem sentido. Pais e mães que se engajaram ou de alguma forma apoiaram e participaram, nos anos 60 e 70, de lutas pelos direitos humanos, em favor das minorias, contra a Ditadura Militar, pela libertação da mulher, agora ficam surpresos e perplexos ao verem seus filhos virarem as costas aos anseios políticos e libertários das gerações anteriores. Ao mesmo tempo, em nome de uma suposta liberação, mulheres partem para a produção independente, numa postura individualista, que descarta uma relação duradoura e estável. Pois o bacana agora é ficar, semelhante à “amizade colorida” dos anos 70/80. A história se repete.

A libertação feminina possui uma face perversa. A mulher vem ampliando cada vez mais seu espaço no mercado de trabalho. Amiúde, compete de igual para igual com o homem. No entanto, o que há é uma dupla jornada. Os serviços domésticos e o cuidado com os filhos nem sempre são divididos. A mulher ainda carrega consigo o sentimento de culpa quando não consegue conciliar a realização profissional e materna.

A inserção da mulher no mercado de trabalho, na cultura, no espaço político, traz à baila o que o sociólogo francês Giles Lipovetsky denominou de “A Terceira Mulher” (Ed. Companhia das Letras), uma superação dos estágios anteriores da evolução comportamental feminina. Da Eva sedutora e diabólica (A Primeira Mulher), de inspiração bíblica à Amélia dos tempos da Idade Média, submissa, doméstica e passiva (A Segunda Mulher), temos a mulher contemporânea, pós-moderna, independente economicamente, dona suprema de sua própria sexualidade, tão pragmática quanto o homem no trabalho, com condições plenas de exercer a maternidade e a afetividade, com controle, bom senso e inteligência.

A Eva era apenas uma fêmea diabólica e sedutora; a Amélia, a mãe e esposa, mais maternal/doméstica do que companheira do homem e hoje, temos a reunião, ao menos teoricamente, da fêmea, da mãe/esposa e da mulher emancipada, companheira independente, numa síntese que ainda está em gestação. Síntese essa que assusta os homens, inseguros pelo seu machismo idiota e pela ignorância acerca do universo da mulher, incapazes que são de perceberem a essência feminina, que dirá as mudanças no comportamento da mulher contemporânea.

Todos os excessos citados no início, as contradições e problemas oriundos do processo de liberação feminina somente serão equacionados quando, em um contexto propício, possível e vindouro, surgir o que poderíamos chamar de A Quarta Mulher, que acrescentará em seu modo de ser padrões e valores relacionados à espiritualidade, a uma postura humanista, a um profundo respeito à sexualidade em seus múltiplos formatos, ao pleno exercício da cidadania, não somente civil, mas também espiritual, pois essa nova mulher será o protótipo do novo ser, plenamente integrado à natureza, ao cosmos, à vida como um todo, parceira do homem na caminhada evolutiva. Muitos 8 de Março (Dia Internacional da Mulher) virão até surgir esse novo ser feminino de forma efetiva, quando todos os dias forem um tributo à verdadeira mulher, onde o movimento dos quadris, da mente, do coração e do espírito se achem perfeitamente sintetizados num modo de ser integrado às leis naturais.

Fonte: Jornal de Cultura Espírita Abertura - março de 2003.


Eugenio Lara, arquiteto, jornalista e designer gráfico, é fundador e editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense], membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e autor dos livros em edição digital: “Racismo e Espiritismo”; “Milenarismo e Espiritismo”; “Amélie Boudet, uma Mulher de Verdade - Ensaio Biográfico”; “Conceito Espírita de Evolução”; “Os Quatro Espíritos de Kardec” e “Os Celtas e o Espiritismo”.
E-mail: eugenlara@hotmail.co
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